Atividades sobre Estratégias de leitura Apreciação e réplica com gabarito — 8º ano, 9º ano (EF89LP34)
Quando recebo a EF89LP34 no planejamento, sei que não basta pedir uma leitura de peça ou exibir um trecho de filme e perguntar “o que aconteceu?”. O desafio é levar a turma a perceber que luz, silêncio, cenário, rubrica, fala, enquadramento e até um objeto deixado em cena também contam uma história.
Na prática, eu preciso transformar esse código em propostas possíveis para o 8º e o 9º ano, sem depender de estrutura de teatro ou de equipamentos sofisticados. Com uma cena curta, uma rubrica impressa ou um trecho audiovisual bem escolhido, já dá para trabalhar leitura atenta, apreciação e argumentação.
O que a habilidade EF89LP34 pede, de verdade?
A EF89LP34 pede que o estudante leia produções dramáticas e audiovisuais entendendo sua organização e os efeitos de sentido criados por diferentes linguagens. Em termos de sala de aula, isso significa ir além do enredo: o aluno precisa observar quem fala, para quem fala, o que as rubricas indicam, como o cenário apresenta conflitos, por que a iluminação muda e de que modo a câmera ou o silêncio cria expectativa. Também precisa relacionar esses recursos à realização concreta de uma peça, novela ou filme, percebendo que texto, imagem, som, corpo e espaço trabalham juntos. Não é uma habilidade para decorar nomes de figuras de linguagem isoladamente; é para analisar escolhas e justificar interpretações com pistas do texto ou da cena. Eu busco que a turma consiga dizer não apenas “a cena é tensa”, mas “ela parece tensa porque a luz se apaga, o silêncio aumenta e os objetos do cenário sugerem um problema”.
“Analisar a organização de texto dramático apresentado em teatro, televisão, cinema, identificando e percebendo os sentidos decorrentes dos recursos linguísticos e semióticos que sustentam sua realização como peça teatral, novela, filme etc.”
Na BNCC, a habilidade está em Língua Portuguesa, no objeto de conhecimento Estratégias de leitura Apreciação e réplica, para 8º e 9º ano. A ideia central é formar um leitor que aprecia, interpreta e sustenta sua leitura.
Como trabalhar EF89LP34 em sala?
1. Leitura encenada de rubricas. Eu distribuo uma cena curta e separo as rubricas das falas. Antes de encenar, pergunto: que luz, expressão, movimento ou tom de voz esse texto sugere? Depois, grupos apresentam a mesma cena com interpretações diferentes. A comparação mostra que a rubrica orienta a cena, mas abre espaço para escolhas.
2. Cena sem som. Exibo de 30 segundos a 1 minuto de uma cena audiovisual sem áudio ou uso uma sequência de imagens. A turma anota pistas visuais: objetos, posição das personagens, enquadramento, cores e gestos. Em seguida, discutimos o que é possível inferir e o que ainda não sabemos. É uma ótima forma de diferenciar pista de conclusão apressada.
3. O cenário fala. Peço que os alunos criem, no caderno, um cenário para uma personagem que esconde um segredo ou vive um conflito familiar. Eles listam objetos, iluminação e sons; depois explicam os efeitos de sentido de cada escolha. Não precisa montar nada: a planta simples e a justificativa já mobilizam a habilidade.
4. Caça aos recursos da cena. Durante a leitura de uma peça ou novela, monto uma tabela com “recurso”, “pista encontrada” e “efeito produzido”. Nela entram fala popular, pausa, silêncio, luz, música, cenário e figurino. Assim, a análise deixa de ser uma opinião solta e ganha evidências.
Como avaliar essa habilidade?
Uma boa questão de EF89LP34 apresenta um trecho dramático, uma rubrica, uma descrição de cena ou um recorte audiovisual e pede a análise de um recurso em funcionamento. O foco não deve ser só identificar “o que é uma rubrica”, mas compreender o que ela faz: criar suspense, situar tempo e espaço, revelar conflito, construir personagem ou orientar a interpretação.
Eu evito avaliações que cobram lista de conceitos sem contexto, como pedir apenas a definição de cenário ou personificação. Outro erro comum é transformar a questão em adivinhação, com alternativas genéricas e sem pistas no texto. Também vale cuidado para não perguntar somente sobre o enredo. Nesta habilidade, o estudante precisa justificar a leitura a partir das escolhas linguísticas e semióticas da cena.
Para ampliar o repertório, eu consulto a consulta completa do código EF89LP34, que reúne as questões disponíveis. No acervo, o GeraProva conta com 51 questões alinhadas a essa habilidade.
Questões prontas de EF89LP34 (com gabarito comentado)
1. Na peça “O Auto da Compadecida”, como a linguagem contribui para a construção dos personagens?
- ❌ A) Expõe apenas o aspecto físico. A linguagem vai além da aparência.
- ✅ B) Revela a cultura e o contexto. A linguagem reflete a cultura dos personagens.
- ❌ C) Usa jargões técnicos. Não se utilizam jargões, mas expressões populares.
- ❌ D) Foca na moralização. Não é apenas moralizante, mas também crítica social.
- ❌ E) Cria um ambiente monótono. A linguagem é dinâmica e expressiva.
Comentário: A pista está no modo de falar das personagens: escolhas lexicais e expressões populares ajudam a construir cultura, origem e contexto social.
2. Em uma peça teatral contemporânea, a rubrica da cena final descreve: “A noite, exausta depois da longa jornada, fecha os olhos sobre a cidade.” A indicação orienta a iluminação e a interpretação dos atores, contribuindo para criar uma atmosfera de encerramento e silêncio. Com base no trecho da rubrica teatral, que recurso semiótico está em uso na construção da imagem da noite?
- ✅ A) Personificação da noite. A noite recebe características humanas: está “exausta” e “fecha os olhos”.
- ❌ B) Hipérbole sobre o cansaço. Não há exagero; o cansaço caracteriza a noite com traços humanos.
- ❌ C) Anáfora da palavra noite. A palavra aparece apenas uma vez.
- ❌ D) Comparação entre noite e pessoa. Não há conectivo comparativo, como “como”.
- ❌ E) Metáfora do encerramento. A alternativa não identifica o procedimento central: atribuir ação humana à noite.
Comentário: Aqui vale chamar atenção para o efeito da personificação: além de nomear o recurso, a turma deve perceber a atmosfera de cansaço e encerramento.
3. Em uma cena, a câmera mostra uma janela quebrada e pegadas de barro no corredor. A personagem ainda não aparece, e nenhum diálogo explica o que aconteceu. Que efeito esses recursos visuais produzem na narrativa?
- ❌ A) Resolver o conflito antes do início da cena. As imagens fornecem pistas, mas não explicam nem solucionam o problema.
- ❌ B) Substituir todas as falas dos personagens. A cena não prova que os diálogos se tornam desnecessários.
- ✅ C) Criar suspense ao apresentar pistas antes da explicação. A janela e as pegadas despertam curiosidade sobre o que ocorreu.
- ❌ D) Apresentar o cenário sem interferir na história. Os elementos visuais sugerem um acontecimento e têm função narrativa.
- ❌ E) Mostrar a personagem principal antes da entrada. A personagem não aparece; vemos apenas sinais no ambiente.
Comentário: Essa é uma boa questão para lembrar que, no cinema, o enquadramento e os objetos podem antecipar informações e criar suspense.
4. Narrador: É fim de tarde, e a praça está quase vazia. Ao lado do coreto, Ana espera seu irmão Pedro.
Ana: Ele já deveria ter chegado.
Narrador: Pedro aparece correndo pela rua, carregando uma mochila vermelha.
No trecho, qual é a função específica das falas do narrador?
- ❌ A) Apresentar opiniões pessoais sobre os personagens da cena. O narrador não julga os personagens.
- ❌ B) Participar do diálogo como um personagem da história. Ele não conversa com Ana ou Pedro.
- ❌ C) Indicar os movimentos que os atores devem realizar. As falas contam o que acontece, não são instruções diretas de atuação.
- ❌ D) Solucionar o problema central apresentado na cena. O narrador não resolve conflito algum.
- ✅ E) Informar o público sobre o tempo, o lugar e as ações da cena. Ele situa a cena e apresenta ações importantes.
Comentário: O estudante deve observar que as falas do narrador oferecem informações de contextualização para o público.
5. Leia o trecho de uma rubrica teatral: “A sala é pequena e pouco iluminada. Sobre a mesa, há contas atrasadas e um telefone que não para de tocar. Joana entra apressada, esconde uma carta na gaveta e observa a janela antes de atender à ligação.” Considerando as informações da rubrica, qual é a principal função do cenário na construção da cena?
- ❌ A) Determinar somente os movimentos que os atores devem realizar. O termo “somente” reduz a função dos elementos descritos.
- ❌ B) Indicar somente o local e o momento em que ocorre a cena. Objetos e iluminação também produzem sentidos sobre o conflito.
- ✅ C) Revelar aspectos do conflito e orientar a interpretação da cena. Contas, telefone, pouca luz e carta sugerem tensão, dificuldade e segredo.
- ❌ D) Substituir integralmente as falas e os pensamentos das personagens. O cenário sugere informações, mas não elimina diálogos e ações.
- ❌ E) Produzir apenas um efeito visual marcante para o público. Há valor expressivo, não apenas impacto visual.
Comentário: Eu reforçaria com a turma que cenário não é decoração neutra: ele pode apresentar conflitos antes mesmo da primeira fala.
6. No trecho “A luz se apaga e o silêncio toma conta”, como a luz e o silêncio contribuem para a cena?
- ❌ A) Apenas indicam que a peça acabou. Indicam um momento de tensão, não necessariamente o fim.
- ✅ B) Criam um clima de expectativa. Silêncio e escuridão aumentam a tensão.
- ❌ C) Servem para distrair o público. Esses recursos mantêm o público atento à cena.
- ❌ D) Não têm importância na cena. São fundamentais para a atmosfera.
- ❌ E) Simplesmente mudam a cena. Eles mudam a atmosfera e a percepção do público.
Comentário: Uma frase curta pode mobilizar análise rica: o importante é relacionar os recursos ao efeito produzido no espectador.
Próximos passos
Eu começaria por uma única cena e pediria sempre a mesma pergunta: “qual pista sustenta sua interpretação?”. Depois, é só variar o gênero, do texto teatral ao filme. Para criar listas, adaptar nível de dificuldade e organizar avaliações, experimente o gerador de provas do GeraProva. Se ainda não usa a plataforma, faça seu cadastro grátis.
As questões são um ponto de partida para a sua turma: ajuste o contexto, retome as pistas do texto com os alunos e use o gabarito comentado como oportunidade de conversa, não apenas de correção.
