Questão 1 UECE 2018BNCC EM13LP01Difícil🧠 Compreender|Análise
TEXTO 1
Não se zanguem
01 A cartomancia entrou decididamente na vida nacional.
02
03 Os anúncios dos jornais todos os dias
04 proclamam aos quatro ventos as virtudes
05 miríficas das pitonisas.
06 Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza
07 pelas adivinhas; acho até que são bastante
08 úteis, pois mantêm e sustentam no nosso
09 espírito essa coisa que é mais necessária à
10 nossa vida que o próprio pão: a ilusão.
11 Noto, porém, que no arraial dessa gente que
12 lida com o destino, reina a discórdia, tal e qual
13 no campo de Agramante.
14 A política, que sempre foi a inspiradora de
15 azedas polêmicas, deixou um instante de sê-lo
16 e passou a vara à cartomancia.
17 Duas senhoras, ambas ultravidentes,
18 extralúcidas e não sei que mais, aborreceram-
19 se e anda uma delas a dizer da outra cobras e
20 lagartos.
21 Como se pode compreender que duas
22 sacerdotisas do invisível não se entendam e
23 deem ao público esse espetáculo de brigas tão
24 pouco próprio a quem recebeu dos altos
25 poderes celestiais virtudes excepcionais?
26 A posse de tais virtudes devia dar-lhes uma
27 mansuetude, uma tolerância, um abandono
28 dos interesses terrestres, de forma a impedir
29 que o azedume fosse logo abafado nas suas
30 almas extraordinárias e não rebentasse em
31 disputas quase sangrentas.
32 Uma cisão, uma cisma nessa velha religião de
33 adivinhar o futuro, é fato por demais grave e
34 pode ter consequências desastrosas.
35 Suponham que F. tenta saber da cartomante X
36 se coisa essencial à sua vida vai dar-se e a
37 cartomante, que é dissidente da ortodoxia, por
38 pirraça diz que não.
39 O pobre homem aborrece-se, vai para casa de
40 mau humor e é capaz de suicidar-se.
41 O melhor, para o interesse dessa nossa pobre
42 humanidade, sempre necessitada de ilusões,
43 venham de onde vier, é que as nossas
44 cartomantes vivam em paz e se entendam
45 para nos ditar bons horóscopos.
(BARRETO, Lima. Vida urbana: artigos e crônicas. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.)
A referenciação textual pode ser definida como a retomada de termos e ideias que garantem a coesão e a progressão de sentido do texto por meio de elementos linguísticos. Um exemplo desse procedimento, ao longo da crônica de Lima Barreto, se dá com o uso do termo “cartomantes”, que é retomado por alguns referentes textuais, estabelecendo diferentes sentidos com estes referentes. Atente ao que se diz a seguir a respeito disso:
I. Ao substituir “cartomantes” pelo termo “pitonisas” (linha 05), o autor pretende mostrar que o trabalho da cartomancia tem uma longa tradição histórica.
II. Ao afirmar, no terceiro parágrafo, que não tem “nenhuma ojeriza pelas adivinhas” (linhas 06-07), o autor recupera cartomantes pelo termo adivinhas, justificando que a prática de adivinhar o futuro cumpre sua função útil e necessária no cotidiano das pessoas, que é a função de iludir.
III. Ao se referir às “cartomantes” pela expressão “dessa gente que lida com o destino” (linhas 11-12), o autor se apresenta numa relação afetuosa de muita proximidade com as cartomantes.
IV. Ao empregar o referente “duas sacerdotisas do invisível” (linhas 21-22) para fazer alusão às “duas senhoras” (cartomantes) (linha 17), o autor procura salientar, ironicamente, a dimensão religiosa do ofício profético da cartomancia.
Está correto o que se afirma em
- A) I, II, III e IV.
- B) I, II e IV somente.
- C) I, III e IV somente.
- D) II, e III somente.
📖 Análise pedagógica e resolução comentada
✅ Resposta correta: B
CORRETA. As afirmativas I, II e IV estão corretas: I mostra a sinonímia entre “cartomantes” e “pitonisas”; II recupera “cartomantes” por “adivinhas” com sentido funcional; IV identifica a ironia na expressão “duas sacerdotisas do invisível”. A III está incorreta.
Por que as outras alternativas estão erradas:
❌ A) Errada. A afirmativa III está incorreta, pois o autor não demonstra uma relação afetuosa ou de proximidade com as cartomantes ao usar a expressão “dessa gente que lida com o destino”, mas sim um distanciamento crítico.
❌ C) Errada. A afirmativa II está incorreta, pois o autor não usa “adivinhas” para recuperar cartomantes de forma pejorativa, mas para justificar a função útil da ilusão, e a afirmativa III está incorreta conforme explicado.
❌ D) Errada. A afirmativa III está incorreta, e a afirmativa I também não está incluída, o que torna esta alternativa incorreta.
📋 Ficha pedagógica
Raciocínio: Interpretativo
Taxonomia Bloom: Compreender|Análise
Dificuldade: Difícil
Questão 2 UECE 2018BNCC EM13LP01Difícil🧠 Análise
TEXTO 1
Não se zanguem
01 A cartomancia entrou decididamente na vida nacional.
02
03 Os anúncios dos jornais todos os dias
04 proclamam aos quatro ventos as virtudes
05 miríficas das pitonisas.
06 Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza
07 pelas adivinhas; acho até que são bastante
08 úteis, pois mantêm e sustentam no nosso
09 espírito essa coisa que é mais necessária à
10 nossa vida que o próprio pão: a ilusão.
11 Noto, porém, que no arraial dessa gente que
12 lida com o destino, reina a discórdia, tal e qual
13 no campo de Agramante.
14 A política, que sempre foi a inspiradora de
15 azedas polêmicas, deixou um instante de sê-lo
16 e passou a vara à cartomancia.
17 Duas senhoras, ambas ultravidentes,
18 extralúcidas e não sei que mais, aborreceram-
19 se e anda uma delas a dizer da outra cobras e
20 lagartos.
21 Como se pode compreender que duas
22 sacerdotisas do invisível não se entendam e
23 deem ao público esse espetáculo de brigas tão
24 pouco próprio a quem recebeu dos altos
25 poderes celestiais virtudes excepcionais?
26 A posse de tais virtudes devia dar-lhes uma
27 mansuetude, uma tolerância, um abandono
28 dos interesses terrestres, de forma a impedir
29 que o azedume fosse logo abafado nas suas
30 almas extraordinárias e não rebentasse em
31 disputas quase sangrentas.
32 Uma cisão, uma cisma nessa velha religião de
33 adivinhar o futuro, é fato por demais grave e
34 pode ter consequências desastrosas.
35 Suponham que F. tenta saber da cartomante X
36 se coisa essencial à sua vida vai dar-se e a
37 cartomante, que é dissidente da ortodoxia, por
38 pirraça diz que não.
39 O pobre homem aborrece-se, vai para casa de
40 mau humor e é capaz de suicidar-se.
41 O melhor, para o interesse dessa nossa pobre
42 humanidade, sempre necessitada de ilusões,
43 venham de onde vier, é que as nossas
44 cartomantes vivam em paz e se entendam
45 para nos ditar bons horóscopos.
(BARRETO, Lima. Vida urbana: artigos e crônicas. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.)
Observando com atenção a linguagem empregada na crônica de Lima Barreto, é correto afirmar que ela revela fundamentalmente
- A) o uso da ironia como um recurso discursivo para satirizar o ofício da cartomancia.
- B) o uso de expressões e termos linguísticos próprios do registro formal culto da escrita da língua para se adequar ao gênero crônica.
- C) o emprego de um léxico arcaico para mostrar o caráter pomposo do estilo do autor.
- D) a utilização de conselhos e admoestações para resolver problemas cotidianos, como as brigas entre cartomantes.
📖 Análise pedagógica e resolução comentada
✅ Resposta correta: A
CORRETA. A crônica utiliza ironia para satirizar o ofício da cartomancia, evidenciando um tom crítico e humorístico.
Por que as outras alternativas estão erradas:
❌ B) Incorreta. O texto não se caracteriza pelo uso exclusivo do registro formal culto, mas sim por um tom irônico e coloquial.
❌ C) Incorreta. Não há emprego de léxico arcaico para efeito pomposo; o texto é atual e acessível, com linguagem crítica.
❌ D) Incorreta. O texto não apresenta conselhos ou admoestações sinceras, mas sim uma crítica irônica às brigas entre cartomantes.
📋 Ficha pedagógica
Raciocínio: Interpretativo
Taxonomia Bloom: Análise
Dificuldade: Difícil