Questão 1 UFPR 2009BNCC EM13LP01Difícil🧠 Compreender
Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas. Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo. Na falta de uma documentação verbal para se pôr ao lado das pinturas rupestres e dos artefatos, podemos recorrer às narrativas de fábulas, que do saber daqueles remotos caçadores transmitem-nos às vezes um eco, mesmo que tardio e deformado. Três irmãos (narra uma fábula oriental, difundida entre os quirguizes, tártaros, hebreus, turcos...) encontram um homem que perdeu um camelo – ou, em outras variantes, um cavalo. Sem hesitar, descrevem-no para ele: é branco, cego de um olho, tem dois odres nas costas, um cheio de vinho, o outro cheio de óleo. Portanto, viram-no? Não, não o viram. Então são acusados de roubo e submetidos a julgamento. É, para os irmãos, o triunfo: num instante demonstram como, através de indícios mínimos, puderam reconstruir o aspecto de um animal que nunca viram. Os três irmãos são evidentemente depositários de um saber de tipo venatório* (mesmo que não sejam descritos como caçadores). O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experienciável diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo observador de modo tal a dar lugar a uma seqüência narrativa, cuja formulação mais simples poderia ser “alguém passou por lá”. Talvez a própria idéia de narração (distinta do sortilégio, do esconjuro ou da invocação) tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda hoje se funda a linguagem da decifração venatória – a parte pelo todo, o efeito pela causa – são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos. (GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. S. Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 151–2.) *Venatório: relativo à caça e seu universo.
Tendo em vista o texto, considere as seguintes afirmativas:
1. O autor fala de um conhecimento que implica observação, dedução e organização, distinguindo-se das crendices populares.
2. A linguagem da decifração venatória se caracteriza pelo uso da metonímia e da metáfora.
3. Uma estratégia para a análise de situações problemáticas é recorrer a fábulas de caçadores.
4. A história da humanidade mostra que a transmissão de conhecimento sobre atividades como a caça, por exemplo, se fazia por meio de pinturas rupestres.
Assinale a alternativa correta.
-) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
-) Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
-) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
-) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
-) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.
- A) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
- B) Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
- C) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
- D) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
📖 Análise pedagógica e resolução comentada
✅ Resposta correta: A
CORRETA. A afirmativa 1 está correta porque o texto destaca que o conhecimento venatório envolve observação, dedução e organização, distinguindo-se das crenças populares. A afirmativa 4 também é correta, pois o texto menciona que a transmissão do conhecimento se dava por pinturas rupestres e artefatos.
Por que as outras alternativas estão erradas:
❌ B) Errada. A afirmativa 2 está incorreta porque o texto afirma que a linguagem da decifração venatória se funda na metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora.
❌ C) Errada. Embora a afirmativa 1 seja correta, a afirmativa 3 não é explicitamente confirmada pelo texto como uma estratégia geral para análise de situações problemáticas, mas sim como uma possibilidade.
❌ D) Errada. A afirmativa 2 está incorreta, pois o texto exclui o uso da metáfora na linguagem da decifração venatória.
📋 Ficha pedagógica
Raciocínio: Interpretativo
Taxonomia Bloom: Compreender
Dificuldade: Difícil
Questão 2 UFPR 2009BNCC EM13LP01Difícil🧠 Compreender
Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas. Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo. Na falta de uma documentação verbal para se pôr ao lado das pinturas rupestres e dos artefatos, podemos recorrer às narrativas de fábulas, que do saber daqueles remotos caçadores transmitem-nos às vezes um eco, mesmo que tardio e deformado. Três irmãos (narra uma fábula oriental, difundida entre os quirguizes, tártaros, hebreus, turcos...) encontram um homem que perdeu um camelo – ou, em outras variantes, um cavalo. Sem hesitar, descrevem-no para ele: é branco, cego de um olho, tem dois odres nas costas, um cheio de vinho, o outro cheio de óleo. Portanto, viram-no? Não, não o viram. Então são acusados de roubo e submetidos a julgamento. É, para os irmãos, o triunfo: num instante demonstram como, através de indícios mínimos, puderam reconstruir o aspecto de um animal que nunca viram. Os três irmãos são evidentemente depositários de um saber de tipo venatório* (mesmo que não sejam descritos como caçadores). O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experienciável diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo observador de modo tal a dar lugar a uma seqüência narrativa, cuja formulação mais simples poderia ser “alguém passou por lá”. Talvez a própria idéia de narração (distinta do sortilégio, do esconjuro ou da invocação) tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda hoje se funda a linguagem da decifração venatória – a parte pelo todo, o efeito pela causa – são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos. (GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. S. Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 151–2.) *Venatório: relativo à caça e seu universo.
Indique a alternativa que explicita a hipótese indemonstrável mencionada na antepenúltima linha do texto.
- A) Os caçadores eram capazes de reconstituir uma realidade complexa a partir das histórias que ouviam.
- B) As fábulas transmitiam histórias de caçadores e, por isso, apresentavam em geral decifrações de pistas.
- C) A narração teve origem em uma sociedade de caçadores.
- D) Os caçadores primitivos faziam operações mentais com grande rapidez.
📖 Análise pedagógica e resolução comentada
✅ Resposta correta: C
CORRETA. A hipótese indemonstrável mencionada é que a própria ideia de narração teria nascido numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas.
Por que as outras alternativas estão erradas:
❌ A) Errada. O texto não afirma que os caçadores reconstituíam realidades a partir de histórias que ouviam, mas sim a partir de pistas observadas.
❌ B) Errada. Embora as fábulas transmitam saberes, o texto não diz que elas apresentam em geral decifrações de pistas, mas que às vezes transmitem um eco desse saber.
❌ D) Errada. O texto menciona que os caçadores faziam operações mentais rápidas, mas isso não é a hipótese indemonstrável destacada.
📋 Ficha pedagógica
Raciocínio: Interpretativo
Taxonomia Bloom: Compreender
Dificuldade: Difícil