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Sub-representação de gênero na escola: dos livros às escolhas profissionais

Estudos recentes mostram como livros, leituras e práticas de ensino podem reforçar ou questionar desigualdades de gênero. Veja o que os dados internacionais sugerem — e o que pode ser adaptado à sala de aula brasileira.

Sub-representação de gênero na escola: dos livros às escolhas profissionais

Por que meninas e mulheres aparecem menos em certos livros, profissões e áreas de estudo — e o que isso tem a ver com a escola? Pesquisas recentes mostram que a desigualdade pode estar nas imagens, nas histórias e nas oportunidades percebidas. Também apontam caminhos para questionar esses padrões sem reduzir o tema a uma atividade isolada.

Os estudos vêm de diferentes países e etapas de ensino. A leitura em conjunto ajuda a separar o que é evidência de cada contexto do que pode inspirar uma reflexão na escola brasileira.

O que é sub-representação de gêneros e grupos em contextos educacionais internacionais e por que importa para o professor

Sub-representação acontece quando um grupo aparece menos, ocupa menos posições de destaque ou é associado a um conjunto mais estreito de papéis do que outros. Na escola, isso pode surgir em personagens de livros, exemplos de profissões, imagens de materiais, interações de leitura e oportunidades de aprender determinadas áreas. Não se resume a contar quantas figuras aparecem: importa também quem age, quem explica, quem cuida e quem ocupa posições de decisão.

Para o professor, o tema importa porque materiais e rotinas ajudam a compor o repertório com que estudantes imaginam o que é possível para si e para outras pessoas. Isso não significa que uma imagem isolada determine escolhas futuras. Significa que vale observar os padrões que se repetem e abrir espaço para que a turma os examine criticamente.

Os estudos reunidos aqui não tratam todos da mesma coisa. Alguns analisam livros e literatura infantil; outros investigam desempenho e participação em ciências, formação profissional ou políticas. A ideia comum é perguntar como a representação e as condições de aprendizagem se relacionam com desigualdades de gênero, sem presumir que uma explicação sirva para todos os lugares.

O que a pesquisa recente mostra

Em conjunto, os estudos indicam que a desigualdade pode aparecer tanto no conteúdo que circula na escola quanto nas trajetórias educacionais e profissionais. Os resultados não são uniformes: há pesquisas de análise de materiais, estudos com estudantes e docentes e trabalhos voltados a políticas. Agrupá-los por tema deixa mais claro o que cada conjunto permite afirmar.

Livros e histórias podem tornar alguns papéis mais visíveis que outros

Na Indonésia, Purnomo examinou livros de Ciências Sociais do 9º ano do currículo Merdeka e reuniu respostas de 389 estudantes. A análise encontrou viés de gênero no texto e nas figuras, embora o idioma indonésio permita neutralidade gramatical. No levantamento, os estudantes mencionaram figuras masculinas com mais frequência: 277 contra 67 nas imagens e 233 contra 111 nos textos. Os autores interpretaram esses resultados como sinal de que os estudantes percebiam a dominância masculina apresentada pelo material (Purnomo, 2025).

O resultado chama atenção para uma distinção útil: uma língua poder ser gramaticalmente neutra não garante que o conteúdo seja equilibrado. Para revisar um material, portanto, não basta conferir se as palavras evitam marcar gênero. Também é preciso olhar quem aparece nas cenas e nos exemplos, que atividades essas pessoas realizam e quais posições ocupam.

Na educação infantil, uma pesquisa em instituições do nordeste da Inglaterra auditou livros ilustrados e investigou uma formação sobre vieses inconscientes. Participaram 23 profissionais de 13 instituições; a formação teve duas sessões com dois meses de intervalo. A auditoria identificou pouca diversidade de gênero no conjunto de obras usado e observou que personagens não humanos eram frequentemente presumidos masculinos. Entre seis participantes com respostas pareadas, aumentou significativamente o número de livros que rompem estereótipos escolhidos após a intervenção. Os autores relatam também maior conscientização e mudança de prática em médio prazo (Davenport, 2025).

Esse estudo não diz que uma formação curta resolve todos os vieses. Ele oferece, porém, um exemplo de como uma conversa profissional acompanhada de uma revisão concreta do acervo pode se relacionar a mudanças nas escolhas de leitura.

Outra pesquisa examinou 19 livros ilustrados e leituras interativas em voz alta em seis pré-escolas. Encontrou três formas recorrentes de desigualdade nos livros: ausência de personagens femininas, discurso marcado por gênero e repetição de papéis tradicionais atribuídos a mulheres e mães. Ao analisar exemplos das interações das crianças, os autores defendem que a leitura pode favorecer conversas críticas sobre estereótipos e equidade (Yigit-Gencten, 2024).

Representação de profissões também pode estreitar horizontes

Uma análise de livros didáticos de ensino primário de Espanha e Portugal, publicados durante as transições democráticas de 1974 a 1982, investigou se as representações acompanhavam mudanças sociais nos direitos à educação e ao trabalho. Os resultados apontaram escassez de personagens femininas em funções com retorno econômico e persistência de segregação de gênero horizontal e vertical no mercado de trabalho retratado (Guichot-Reina, 2024). O período histórico é específico, mas a pergunta continua útil: os exemplos escolares mostram mulheres em diferentes ocupações e níveis de responsabilidade?

Em livros alemães de orientação profissional do ensino secundário, Fruehwirth analisou 1.195 representações de personagens em 19 livros. As mulheres apareciam com frequência significativamente menor que os homens, sobretudo no texto. Nas ocupações de saúde, educação infantil, trabalho doméstico e serviços, elas correspondiam a 64,0% das representações; em STEM e ofícios qualificados, os homens predominavam, com 77,9%. A análise também identificou segregação vertical nas representações textuais: em áreas ocupacionais dominadas por mulheres, elas apareciam desproporcionalmente em funções de baixo status; nas áreas dominadas por homens, eles estavam sobrerrepresentados em todos os níveis, e não havia mulheres no nível hierárquico mais baixo (Fruehwirth, 2026).

Os dois estudos sobre livros profissionais mostram dimensões diferentes do mesmo problema. Uma personagem pode estar presente, mas ainda assim ser associada a uma faixa limitada de ocupações ou posições. Por isso, contar personagens é um primeiro passo; observar profissão, função e hierarquia acrescenta outra camada à análise.

Desigualdades em STEM não se explicam apenas pelas notas

No Chile, uma pesquisa acompanhou três coortes do ensino médio com dados administrativos nacionais para investigar como o desempenho escolar se relaciona à escolha de cursos STEM na entrada da universidade. Mesmo comparando estudantes com características semelhantes, o estudo encontrou probabilidade cerca de 20 pontos percentuais maior de ingresso em STEM para estudantes do sexo masculino. A diferença foi observada ao longo de toda a distribuição do desempenho acadêmico. Os autores sugerem atenção a intervenções mais precoces no ensino médio, com foco em incentivos e questões sistêmicas e culturais que podem limitar o ingresso das mulheres (Herskovic, 2024).

Esse achado desafia uma explicação simples segundo a qual diferenças de participação decorreriam apenas das notas. O estudo relaciona desempenho e escolha, mas aponta que a diferença entre gêneros aparece também entre estudantes com resultados comparáveis. Não identifica, no resumo, uma única causa que explique essa distância.

Em Taiwan, pesquisadores analisaram dados do PISA de 2012 e 2018 e encontraram mais meninos do que meninas entre estudantes com pontuações altas em matemática e ciências. Depois, realizaram grupos focais com 28 professores de educação de estudantes com altas habilidades/superdotação. Na perspectiva desses docentes, estereótipos e questões de gênero se relacionavam a desafios psicossociais enfrentados por estudantes de ambos os gêneros. Os participantes elaboraram um plano de ação potencial para aprimorar a aprendizagem de ciências, e uma pesquisa posterior registrou que relataram adotar abordagens positivas em sua prática cotidiana (Yu, 2023).

Na Suécia, um estudo quase experimental sobre física envolveu 852 estudantes de 38 turmas e comparou métodos de ensino. Os resultados relatam persistência de diferenças de gênero favoráveis aos meninos no ensino tradicional. Nas coortes que tiveram ensino conceitual sistemático ao longo de Física 1 e Física 2, as estudantes superaram os colegas do sexo masculino, mudança estatisticamente significativa que não foi observada nos métodos tradicionais. O ensino conceitual melhorou a aprendizagem de todos; os autores destacam que o potencial de equidade foi mais evidente com implementação consistente, mas afirmam que mudanças instrucionais isoladas não bastam para enfrentar clima de sala, ameaça do estereótipo e identidade (Francois, 2026).

Participação também depende de condições e políticas

Em Gana, Amegah analisou discursos de políticas sobre a participação de jovens mulheres na educação profissional e tecnológica relacionada a STEM. O artigo critica políticas apoiadas sobretudo em abordagens de direitos humanos e capital humano e propõe considerar a abordagem crítica das capacidades aplicada à educação profissional. A tese é que uma reconceitualização do discurso pode ajudar a transformar a participação insuficiente. Trata-se de uma análise de políticas, não de uma intervenção testada em sala de aula; seu foco é como as políticas definem o problema e as condições para participar (Amegah, 2024).

Na Aotearoa Nova Zelândia, um comentário breve discute a baixa participação de estudantes Māori e do Pacífico no ensino médio de ciências e a sub-representação de veterinários desses grupos. O texto apresenta o programa VetMAP, voltado a recrutar e apoiar mais estudantes Māori e do Pacífico em cursos de veterinária, e discute o caráter monocultural da formação veterinária, incluindo conceitos Māori como whakapapa, kaitiakitanga e manaakitanga (Stewart, 2026). Esse caso amplia o foco para grupos étnicos e culturais, além de gênero.

Os dois trabalhos lembram que acesso não é só uma questão de interesse individual. As políticas, a cultura institucional e o apoio oferecido também fazem parte do cenário. Como os contextos são específicos, não é adequado transportar seus programas ou conceitos diretamente para escolas brasileiras; é possível, contudo, aprender a perguntar quem participa, quem encontra apoio e que barreiras permanecem.

Os estudos lado a lado

A tabela resume o foco e os resultados que os resumos disponibilizados relatam. Quando o contexto não aparece de forma explícita no resumo, a tabela não o completa por suposição.

EstudoO que investigouO que relataContexto
Purnomo, 2025Linguagem e imagens em livros de Ciências Sociais e percepção estudantil.Viés de gênero no material e mais menções a figuras masculinas pelos estudantes.Indonésia; 9º ano; 389 estudantes.
Davenport, 2025Auditoria de livros infantis e formação de profissionais sobre vieses.Baixa diversidade; aumento de escolhas de livros que rompem estereótipos na subamostra pareada.Nordeste da Inglaterra; educação infantil; 23 profissionais, 13 instituições.
Yigit-Gencten, 2024Representação feminina em livros ilustrados e leituras interativas.Ausência de personagens, discurso marcado por gênero e papéis tradicionais; destaca conversa crítica.Seis pré-escolas; 19 livros.
Herskovic, 2024Desempenho no ensino médio e ingresso em STEM.Diferença de cerca de 20 pontos percentuais na probabilidade de ingresso, mesmo entre estudantes semelhantes.Chile; três coortes do ensino médio.
Guichot-Reina, 2024Representações socioprofissionais de mulheres em livros escolares.Escassez em funções com retorno econômico e persistência de segregação.Espanha e Portugal; ensino primário; 1974–1982.
Amegah, 2024Discursos de políticas sobre mulheres em EPT relacionada a STEM.Defende ampliar as bases conceituais das políticas com a abordagem crítica das capacidades.Gana; educação profissional e tecnológica.
Yu, 2023Distribuição de pontuações PISA e perspectiva docente sobre gênero.Mais meninos entre pontuações altas; professores relataram desafios psicossociais e mudanças posteriores na prática.Taiwan; dados PISA de 2012 e 2018; 28 docentes.
Stewart, 2026Equidade na formação veterinária e participação Māori e do Pacífico.Discute baixa participação em ciências, sub-representação profissional e programa de apoio.Aotearoa Nova Zelândia; formação veterinária.
Francois, 2026Ensino conceitual de física e diferenças de gênero.Com ensino sistemático, estudantes do sexo feminino superaram os colegas em coortes específicas.Suécia; ensino médio; 852 estudantes, 38 turmas.
Fruehwirth, 2026Representação de gênero em livros de orientação profissional.Menos mulheres e segregação horizontal e vertical nas representações.Alemanha; ensino secundário; 19 livros.

Pontos em comum e divergências entre os estudos

Os trabalhos concordam que desigualdade não é apenas ausência total de um grupo. Ela também aparece na forma como personagens são representadas, nas profissões e níveis hierárquicos atribuídos a elas e nas condições para que estudantes participem e aprendam. Livros infantis e materiais profissionais tornam visíveis padrões de representação; estudos de STEM observam diferenças de participação, desempenho ou escolha.

As pesquisas diferem no que conseguem responder. Análises de livros identificam padrões no material, mas não demonstram por si só como cada estudante será afetado. Estudos com docentes registram percepções ou mudanças relatadas na prática. Já a pesquisa sueca compara abordagens instrucionais e relata resultados de aprendizagem; o estudo chileno relaciona desempenho e ingresso universitário. O artigo de Gana discute políticas, enquanto o comentário da Nova Zelândia aborda uma questão institucional e cultural.

Também não há uma resposta única sobre como reduzir desigualdades. A consistência do ensino conceitual aparece como importante no estudo sueco, enquanto os pesquisadores reconhecem que o ensino, isoladamente, é insuficiente. A formação de profissionais se relaciona a escolhas de livros no estudo inglês, mas a pesquisa não autoriza afirmar que o mesmo formato terá igual resultado em qualquer escola. Segue em aberto como combinar revisão de materiais, práticas pedagógicas, clima de sala e condições institucionais em contextos diferentes.

O que isso significa para a sala de aula

Os estudos não prescrevem um roteiro único para escolas brasileiras. As propostas abaixo são aplicações possíveis dos temas pesquisados, não resultados comprovados pelas pesquisas. O ponto de partida é observar padrões com curiosidade, convidar a turma a argumentar e evitar transformar uma conversa sobre desigualdade em julgamento de estudantes ou famílias.

1. Faça uma auditoria simples do material usado

Como aplicação, escolha uma unidade de um livro, um conjunto de imagens ou exemplos e registre quem aparece, em que quantidade e fazendo o quê. Imagine uma turma de 7º ano analisando personagens de um material de ciências: além de contar mulheres e homens, os estudantes poderiam observar quem explica um fenômeno, quem executa a tarefa e quem aparece como especialista. Essa proposta se inspira nas análises de materiais, mas não deve ser apresentada como uma atividade testada por todos os estudos citados.

2. Observe também os papéis, não só a contagem

Como aplicação, proponha comparar profissões, responsabilidades e posições de liderança representadas em uma seleção de imagens ou histórias. Imagine que a turma encontre personagens de gêneros diferentes em uma coleção, mas perceba que apenas um grupo aparece tomando decisões. A conversa pode perguntar o que a seleção mostra e o que deixou de mostrar. A análise alemã evidencia por que presença numérica e posição ocupacional merecem ser examinadas separadamente.

3. Use a leitura em voz alta para abrir perguntas

Como aplicação, interrompa a leitura em um momento oportuno e convide as crianças a observar escolhas da narrativa: quem pode ser protagonista? Que outra personagem poderia resolver o problema? Um lobo precisa ser imaginado como menino? A pergunta não precisa exigir uma resposta considerada correta. O estudo de leitura interativa destaca a relevância de pensar sobre ausência, linguagem e papéis tradicionais, sem que isso signifique substituir a leitura por uma explicação moralizante.

4. Revise escolhas de leitura em equipe

Como aplicação, professores podem comparar títulos escolhidos ao longo de um período e conversar sobre os critérios usados para selecionar histórias. Imagine uma reunião em que a equipe percebe que escolhe certos livros porque já conhece os personagens e nunca havia discutido a representação de gênero. Uma lista compartilhada de perguntas para a próxima seleção pode tornar a revisão contínua, em vez de depender da memória individual. O estudo inglês oferece um exemplo de formação associada a mudanças relatadas nas escolhas.

5. Não use notas como único indicador de possibilidade

Como aplicação, ao orientar projetos de ciências ou conversas sobre cursos, evite presumir que interesse ou capacidade podem ser lidos apenas pelas notas atuais. Imagine uma estudante que participa pouco de uma atividade de física: uma pergunta aberta sobre que tipo de apoio ou tarefa despertaria curiosidade é mais informativa do que concluir que a área não é para ela. O estudo chileno encontrou diferença de ingresso em STEM mesmo entre estudantes com características semelhantes, mas não permite atribuir a um caso individual uma causa determinada.

6. Planeje continuidade nas estratégias de ensino

Como aplicação, se a equipe testar explicações conceituais, atividades de investigação ou formas de conectar conhecimentos prévios, vale planejar como dar continuidade e observar a aprendizagem de toda a turma. Imagine que uma sequência sobre forças funcione bem em uma aula, mas não seja retomada depois: uma aplicação consistente permite discutir resultados com mais base. O estudo sueco relata uma associação favorável à equidade em coortes com ensino conceitual sistemático, sem afirmar que uma aula isolada produziria o mesmo efeito.

7. Examine oportunidades para todos os estudantes

Como aplicação, observe quem costuma falar, assumir tarefas de maior desafio e receber convites para aprofundar um tema. Imagine uma atividade de robótica em que os mesmos alunos sempre operam os materiais: a turma pode alternar funções e depois conversar sobre como foi a experiência. Isso não prova, por si só, a existência de discriminação; serve para perceber padrões de participação e criar oportunidades mais variadas. O estudo de Taiwan lembra que docentes identificaram desafios psicossociais ligados a estereótipos para ambos os gêneros.

8. Trate representatividade como parte do planejamento, não como exceção

Como aplicação, ao preparar exemplos de diferentes profissões e áreas, procure variar quem aparece como pesquisador, cuidador, técnico, liderança ou aprendiz. Imagine um projeto de profissões em que a turma inclua trajetórias diversas sem atribuir certas ocupações exclusivamente a um gênero. A meta não é fabricar uma imagem artificial, mas ampliar o repertório e permitir que estudantes questionem associações automáticas. Os estudos sobre materiais profissionais sustentam a pertinência da pergunta; a proposta didática é uma adaptação para a realidade da escola.

O que muda no contexto brasileiro

Os estudos ocorreram na Indonésia, Inglaterra, em Taiwan, no Chile, em Gana, na Suécia, na Alemanha, em Aotearoa Nova Zelândia e em livros de Espanha e Portugal de um período histórico específico. Cada pesquisa considera sistemas educacionais, materiais e grupos diferentes. Portanto, os resultados não devem ser tratados como retrato direto das escolas brasileiras, nem as políticas e programas descritos em outros países como soluções prontas para importar.

O que pode ser aproveitado é o método de fazer perguntas: quem aparece nos materiais que usamos? Quem é associado a determinadas áreas? Como estudantes participam das atividades? Que oportunidades e apoios a escola oferece? Uma equipe brasileira pode aplicar essas perguntas a seus próprios livros, histórias, avaliações e projetos, considerando a realidade local e as experiências de seus estudantes.

Também é importante não reduzir o tema a uma comparação entre meninas e meninos em todas as situações. O estudo da Nova Zelândia trata de sub-representação de estudantes Māori e do Pacífico na ciência e na formação veterinária. Ele ajuda a lembrar que pertencimento e acesso envolvem dimensões culturais e étnicas, mas não fornece uma descrição da realidade indígena ou de outros grupos no Brasil. Essa análise pede escuta, contexto e participação das comunidades envolvidas.

Limites desta leitura

Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados, e não na leitura integral de cada pesquisa. Os resumos permitem apresentar objetivos, contextos e resultados principais, mas não respondem a todas as perguntas sobre instrumentos, análise, limitações metodológicas ou detalhes das intervenções. Também há diferenças importantes entre desenhos de pesquisa: uma análise de livros, um comentário sobre políticas e uma comparação quase experimental não oferecem o mesmo tipo de evidência.

Ficam em aberto, entre outras questões, como os resultados se traduziriam em escolas brasileiras, quais estratégias seriam mais adequadas para cada etapa e como efeitos de práticas e materiais se manteriam ao longo do tempo. Para tomar decisões institucionais, desenhar uma formação ou aprofundar uma intervenção, faz sentido consultar os estudos completos e avaliar como foram conduzidos. As aplicações sugeridas aqui são possibilidades pedagógicas, não recomendações atribuídas diretamente a todas as pesquisas.

Como o GeraProva ajuda com este assunto

O GeraProva pode apoiar a criação de provas e atividades que incluam diferentes contextos, personagens e exemplos, ajudando o professor a revisar enunciados e variar situações de aprendizagem. A ferramenta não substitui a análise docente dos materiais nem garante, por si só, representatividade ou equidade; a decisão sobre adequação ao grupo continua sendo do professor. Conheça o gerador de provas do GeraProva e faça seu cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre sub-representação de gênero na escola

O que significa sub-representação de gênero em um livro escolar?

Significa que um gênero aparece menos, ou aparece em menos tipos de papéis e posições, do que outros. A pesquisa sobre livros indonésios encontrou mais referências masculinas nas imagens e nos textos percebidas pelos estudantes. O estudo alemão também observou diferenças entre áreas profissionais e níveis hierárquicos. Por isso, a análise pode considerar quantidade, protagonismo, ocupação e autoridade. Um livro não precisa ter números perfeitamente iguais em cada página para ser analisado: o objetivo é perceber padrões recorrentes no conjunto do material e perguntar que visão de mundo eles podem transmitir.

Os estudos mostram que livros didáticos causam escolhas profissionais?

Não é possível afirmar isso com base nos resumos reunidos. Pesquisas sobre livros identificam representações e padrões, enquanto o estudo chileno analisa a relação entre desempenho no ensino médio e ingresso em cursos STEM. O trabalho alemão discute que materiais educacionais podem influenciar aspirações, mas a análise de representações não demonstra que um livro específico determine a escolha de uma pessoa. É mais preciso dizer que materiais fazem parte do ambiente de aprendizagem e podem reforçar ou questionar associações. Para compreender escolhas individuais, é necessário considerar também outros fatores e evidências.

Como conversar sobre estereótipos com crianças pequenas?

Uma possibilidade é usar a própria história para fazer perguntas abertas sobre personagens e ações, sem pedir que as crianças repitam uma conclusão pronta. O estudo com leituras interativas examinou como livros e conversas abordavam ausência de mulheres, linguagem marcada por gênero e papéis tradicionais. Uma pergunta hipotética seria: “Que outras pessoas poderiam desempenhar esse papel na história?” O professor pode acolher respostas e voltar ao texto ou às imagens para explorar o que levou a turma a pensar assim. A proposta é uma aplicação possível; o estudo não estabelece uma fórmula única adequada a todas as idades.

Por que a diferença de participação em STEM não pode ser explicada só pelas notas?

O estudo realizado no Chile encontrou maior probabilidade de ingresso em cursos STEM para estudantes do sexo masculino mesmo ao comparar estudantes com características semelhantes, e a diferença apareceu ao longo da distribuição do desempenho acadêmico. Isso mostra que, naquele contexto e naquela análise, o desempenho não esgotava a explicação da diferença. Os autores sugerem atenção a intervenções mais precoces e a questões sistêmicas e culturais. O resultado não identifica uma causa individual nem deve ser transferido automaticamente para estudantes brasileiros. Na escola, pode servir como convite a não usar as notas como único indicador de interesse ou potencial.

O ensino conceitual de física resolveu a desigualdade de gênero?

O estudo sueco relata resultados promissores em coortes que tiveram ensino conceitual sistemático ao longo de Física 1 e Física 2: as estudantes superaram os colegas do sexo masculino, enquanto isso não ocorreu com os métodos tradicionais avaliados. Os autores também afirmam que o ensino conceitual melhorou a aprendizagem de todos e que a continuidade foi importante para o potencial de equidade. Ao mesmo tempo, o resumo ressalta que a mudança instrucional, sozinha, não basta e aponta a importância de clima de sala, ameaça do estereótipo e identidade. Portanto, não se trata de uma solução completa nem de uma garantia para qualquer turma.

Esses resultados internacionais se aplicam diretamente às escolas brasileiras?

Não de forma automática. Os estudos se referem a países, etapas, materiais e sistemas diferentes; um resultado sobre livros da Indonésia ou políticas de Gana não descreve diretamente uma escola brasileira. A utilidade está em aproveitar perguntas e métodos de observação, adaptando-os ao contexto local. Professores podem revisar quem aparece nos materiais, observar funções e participação e conversar com a equipe sobre suas escolhas. Para afirmar que uma estratégia funciona em determinada rede ou grupo, são necessárias evidências relacionadas àquele contexto. As referências ao final permitem localizar os estudos e aprofundar a leitura.

Referências

  1. Purnomo (2025). Comunicando a Igualdade de Gênero: Análise Crítica da Linguagem Generificada em Livros Didáticos de Ciências Sociais para a Geração Alpha (Communicating Gender Equality: Critical Analysis of Gendered Language in Social Science Textbooks for Alpha Generation). International Journal of Language Education. link.
  2. Davenport (2025). “Simplesmente presumiríamos que o lobo seria um menino…”: engajamento crítico com a literatura infantil por profissionais da educação infantil ('We Would Just Assume the Wolf Would Be a Boy…': Critical Engagement with Children's Literature by Early Years Educators). International Journal of Early Years Education. link.
  3. Yigit-Gencten (2024). Gênero na literatura infantil e as respostas de crianças da educação infantil às questões de gênero em leituras interativas em voz alta (Gender in Children's Literature and Kindergartener's Responses to Gender in Interactive Read-Alouds). European Journal of Education. link.
  4. Herskovic (2024). Relação entre o desempenho no ensino médio e a decisão de escolher uma área STEM: evidências do Chile (Links between Performance in High School and the Decision to Major in STEM Fields: Evidence from Chile). Educational Studies. link.
  5. Guichot-Reina (2024). Representações socioprofissionais das mulheres em livros didáticos do ensino primário durante as transições da Espanha e de Portugal para a democracia, de 1974 a 1982 (Socio-Occupational Representations of Women in Primary School Textbooks during the Spanish and Portuguese Transitions to Democracy from 1974 to 1982). Journal of Educational Media, Memory and Society. link.
  6. Amegah (2024). Reimaginando os discursos das políticas sobre a participação de jovens mulheres na educação profissional e tecnológica relacionada às áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática em Gana (Re-Imagining Policy Discourses Concerning the Participation of Young Women in STEM-Related TVET in Ghana). Journal of Vocational Education and Training. link.
  7. Yu (2023). Explorando a desigualdade de gênero em matemática e ciências a partir da distribuição das pontuações do PISA: aprendizados sob a perspectiva de professores da educação de estudantes com altas habilidades/superdotação (Exploring the Gender Gap in Mathematics and Science from the Score Distribution of PISA: Lessons Learned from Gifted Education Teachers' Perspective). Gifted and Talented International. link.
  8. Stewart (2026). Equidade e formação veterinária em Aotearoa Nova Zelândia (Equity and Veterinary Education in Aotearoa New Zealand). New Zealand Journal of Educational Studies. link.
  9. Francois (2026). Ensino Conceitual de Física e Equidade de Gênero: Experiências em Escolas de Ensino Médio na Suécia (Conceptual Instruction in Physics and Gender Equity: Experiences from Swedish Upper Secondary Schools). International Journal of Education in Mathematics, Science and Technology. link.
  10. Fruehwirth (2026). Segregação ocupacional horizontal e vertical de gênero em livros didáticos alemães de orientação profissional (Horizontal and Vertical Occupational Gender Segregation in German Occupational Orientation Textbooks). Social Psychology of Education: An International Journal. link.

Se este tema conversa com algo que você observa na sua escola, escolha um material para olhar com calma e leve uma pergunta para a próxima conversa com a equipe. Pequenas revisões podem abrir boas discussões.

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