Mentoria na educação infantil: apoio que fortalece equipes e práticas
Pesquisas recentes associam a mentoria na educação infantil à reflexão, ao bem-estar e ao desenvolvimento profissional. Veja o que esses estudos mostram e como adaptar as ideias à rotina brasileira.
Em um centro de educação infantil canadense, uma intervenção de mentoria sobre alimentação responsiva foi acompanhada por um aumento significativo nas pontuações observadas: de 38,2 para 45,8 em uma escala de 63 pontos. Educadores também relataram que passaram a adotar essas práticas com mais frequência e que as crianças demonstravam mais autonomia durante as refeições (Campbell, 2026).
Esse resultado ajuda a enxergar a mentoria como algo mais concreto do que uma conversa ocasional entre uma pessoa experiente e outra recém-chegada. Ela pode apoiar decisões cotidianas, criar espaço para refletir sobre o trabalho e fortalecer a colaboração da equipe. Mas os estudos recentes também mostram que a mentoria depende de condições práticas: tempo, comunicação, apoio da instituição e atenção às necessidades de quem aprende.
O que é mentoria na educação infantil e nos centros de cuidado de crianças e por que importa para o professor?
Mentoria na educação infantil é um processo de acompanhamento em que uma pessoa com experiência apoia outra a compreender o trabalho, desenvolver competências e refletir sobre decisões da rotina. Em creches e pré-escolas, isso pode acontecer na acolhida de um novo profissional, no estágio, em encontros de equipe ou em conversas sobre situações pedagógicas específicas.
Não se resume a entregar orientações prontas ou corrigir o que alguém fez. Uma mentoria útil combina informação, escuta, observação, diálogo e oportunidades de experimentar práticas com apoio. O mentor pode ajudar a tornar explícitas regras e rotinas que, para quem já está no centro há muito tempo, parecem óbvias: como a equipe organiza as refeições, como conversa sobre o desenvolvimento das crianças ou como encaminha uma dúvida.
O tema importa porque o trabalho na primeira infância é coletivo. A experiência de quem está começando não é moldada apenas por um supervisor ou professor colaborador; o clima da equipe, as oportunidades de participação e o acesso a apoio também pesam. Estudos sobre formação inicial, integração profissional, consultoria reflexiva e mentoria em práticas específicas ajudam a observar diferentes dimensões desse acompanhamento.
O que a pesquisa recente mostra sobre mentoria na educação infantil?
As pesquisas recentes não tratam todas da mesma modalidade de mentoria. Algumas investigam o apoio a profissionais recém-contratados ou estudantes em estágio; outras abordam reflexão profissional, práticas pedagógicas específicas, tecnologia e percursos de formação. Em conjunto, oferecem pistas sobre como o acompanhamento pode funcionar e quais condições favorecem sua continuidade.
Mentoria como acolhida, participação e aprendizagem no cotidiano
Um estudo realizado na África do Sul destaca a integração e a mentoria de profissionais recém-contratados em centros de educação infantil. A pesquisa examinou referenciais e abordagens para formar e apoiar esses profissionais. Seus resultados apontam que integração e mentoria são importantes para transmitir informações, habilidades e competências, inclusive a profissionais que talvez não tenham recebido formação formal nessas áreas. O trabalho também apresenta orientação, aconselhamento e informação como formas de contribuir para o crescimento profissional e o desempenho (Mampane, 2024).
A pesquisa chama atenção para uma responsabilidade institucional: gestores e diretores têm papel no apoio ao desenvolvimento dos profissionais. O estudo defende que a integração e a mentoria busquem transformação e permanência na profissão. Isso não equivale a afirmar que qualquer programa de acolhida reduz a rotatividade; o resumo aponta justamente que a influência da integração sobre o desempenho e a permanência merece investigação adicional.
Na Finlândia, estudantes de formação de professores da educação infantil descreveram a comunidade de trabalho do estágio como ambiente de aprendizagem e bem-estar, facilitadora de participação e agência, e fonte de apoio à orientação. Os participantes associaram esses fatores à confiança em sua competência profissional, ao compromisso com a área e às oportunidades de praticar habilidades da profissão. Os autores destacam a importância do clima de interação e do funcionamento das comunidades de estágio (Kahila, 2024).
Os dois estudos ajudam a ampliar a ideia de mentor. O apoio individual conta, mas a equipe também pode criar — ou dificultar — condições para aprender. No estágio, por exemplo, uma pessoa pode receber instruções de um professor colaborador e, ao mesmo tempo, depender de como o conjunto da equipe a inclui nas conversas e atividades. Na integração de quem acaba de ser contratado, a clareza das informações e a possibilidade de perguntar sem constrangimento também fazem parte do apoio.
Reflexão, escuta e bem-estar como parte do acompanhamento
Em um centro de educação infantil, uma pesquisa-ação investigou as relações entre liderança baseada em equipe, mentoria baseada em equipe e reflexão crítica. Os profissionais envolvidos elaboraram e implementaram um referencial para apoiar a mentoria e a reflexão. Os resultados indicaram que conceitos complexos e abstratos puderam ser articulados para fortalecer a liderança em equipe por meio da mentoria e da reflexão crítica (Duffy-Fagan, 2025).
O estudo não apresenta a mentoria como uma receita pronta. Seu foco está em um processo colaborativo e iterativo, no qual os conceitos são esclarecidos e conectados à prática. Para equipes de educação infantil, isso sugere uma questão importante: conversar sobre o trabalho não é automaticamente refletir sobre ele. A reflexão ganha corpo quando há uma estrutura que ajuda a equipe a examinar situações, colocar ideias em diálogo e relacionar decisões à qualidade do ambiente de trabalho.
Uma pesquisa nos Estados Unidos explorou como educadores vivenciaram consultoria reflexiva oferecida ao longo de sete meses por consultores de saúde mental capacitados, com atenção à responsividade linguística. Os participantes relataram espaço para expressar sentimentos, tempo para fazer uma pausa, oportunidades de trabalhar em equipe e maior consciência de si e dos outros (Virmani, 2026).
Esse estudo se refere a consultoria reflexiva, não a qualquer programa de mentoria entre colegas. Ainda assim, ajuda a perceber que o acompanhamento profissional pode incluir dimensões emocionais e relacionais. A escuta não substitui orientação pedagógica nem resolve sozinha dificuldades organizacionais. Mas pode abrir espaço para que educadores nomeiem o que vivem e pensem sobre como suas experiências afetam a colaboração e o trabalho com as crianças.
Mentoria ligada a uma prática concreta e a obstáculos reais
A intervenção canadense CELEBRATE oferece um exemplo de mentoria vinculada a uma prática delimitada: apoiar educadores na adoção de alimentação responsiva em oito instituições de duas províncias. Além do aumento das pontuações de observação entre o início e o fim da intervenção, profissionais entrevistados relataram uso mais frequente dessas práticas e mudanças positivas percebidas na ingestão de alimentos e na autonomia das crianças (Campbell, 2026).
A maioria dos educadores que respondeu ao questionário considerou adequada a duração de seis meses e as visitas mensais, além de relatar forte apoio do mentor. Eles valorizaram a orientação especializada e os recursos práticos. O estudo também identificou problemas de comunicação, dificuldades para organizar horários e rotatividade de educadores como desafios. No acompanhamento, as instituições mantiveram as principais práticas, embora alguns obstáculos continuassem.
Esse resultado é útil porque aproxima mentoria de uma pergunta observável: o que muda na prática quando existe acompanhamento? A intervenção não prova que toda mentoria deva durar seis meses ou ter visitas mensais. Ela mostra que, naquele programa e contexto, os participantes consideraram esse formato adequado e que foram observadas mudanças nas práticas de alimentação responsiva. O formato precisa ser ajustado ao objetivo, à equipe e às condições locais.
Formação, recursos e apoio: a mentoria não acontece no vazio
Um estudo de parceria universitária nos Estados Unidos analisou uma opção de formação de professores para paraeducadores em Illinois, concebida para responder à escassez de docentes, ampliar a diversidade na formação e apoiar comunidades rurais. Os resultados apontam que bolsas e recursos para superar barreiras estruturais, orientação acadêmica flexível, mentoria e percursos culturalmente responsivos foram decisivos para o sucesso do programa. A abordagem valorizou experiências de vida e conhecimentos comunitários dos participantes como recursos para a profissão (Meeker, 2026).
Embora se trate de um programa de formação e não de um modelo universal de mentoria em creches, o estudo destaca que apoio individual precisa dialogar com as condições concretas de quem está aprendendo. Orientar alguém sem considerar renda, responsabilidades e trajetória pode deixar barreiras importantes intactas. No contexto estudado, os mecanismos de transferência de créditos e certificação também conectavam políticas estaduais às realidades dos estudantes.
Na Alemanha, uma pesquisa com profissionais de 160 instituições investigou o uso de tecnologias de informação e comunicação no trabalho em equipe. Em média, os profissionais usavam essas tecnologias para colaborar menos de uma vez por mês, embora houvesse grande variação. Formação continuada, maior autoeficácia técnica, atitudes positivas, acesso a computadores e suporte técnico estiveram associados a maior uso compartilhado; o suporte técnico pareceu mais importante do que o acesso a computadores (Then, 2026).
Esse estudo não avaliou um programa de mentoria, mas ajuda a pensar em condições para a colaboração que pode sustentar o acompanhamento. Uma ferramenta digital, por si só, não cria troca profissional: contam também a confiança, a disposição, a habilidade e o suporte. Além disso, a autoeficácia da equipe teve mais relevância do que a autoeficácia individual nos construtos analisados. Portanto, uma instituição pode considerar tanto a preparação das pessoas quanto o funcionamento coletivo.
Quais estudos ajudam a comparar as evidências sobre mentoria?
A tabela reúne os estudos citados e separa o que cada um investigou do que o resumo relata. Os contextos nacionais importam: os resultados descrevem instituições e programas específicos, não regras automaticamente aplicáveis a creches e pré-escolas brasileiras.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Duffy-Fagan (2025) | Mentoria em equipe, liderança e reflexão crítica. | Um referencial articulou conceitos complexos para fortalecer a liderança em equipe. | Centro de educação infantil; país não informado no resumo. |
| Kahila (2024) | Percepções de estudantes sobre comunidades de trabalho durante o estágio. | A comunidade apoiou aprendizagem, bem-estar, participação, orientação e confiança profissional. | Finlândia; estudantes em estágio final de formação docente. |
| Mampane (2024) | Integração e mentoria de novos profissionais. | Aponta importância para transmitir informações, habilidades e competências; pede mais estudos sobre desempenho e rotatividade. | África do Sul; centros de educação infantil. |
| Virmani (2026) | Experiências de educadores com consultoria reflexiva. | Participantes relataram espaço para expressar sentimentos, pausa, trabalho em equipe e consciência de si e dos outros. | Estados Unidos; educadores falantes de inglês e bilíngues em espanhol e inglês. |
| Campbell (2026) | Intervenção de mentoria em alimentação responsiva. | Observou aumento nas pontuações e relatos de maior adoção das práticas; identificou obstáculos logísticos. | Canadá; oito instituições de duas províncias. |
| Meeker (2026) | Parceria de formação docente para paraeducadores. | Mentoria, orientação flexível e apoios estruturais foram decisivos para o sucesso do programa. | Illinois, Estados Unidos; comunidades rurais. |
| Then (2026) | Uso de tecnologias no trabalho em equipe de instituições de educação infantil. | Formação, crenças, habilidade e suporte técnico estiveram associados ao uso colaborativo. | Alemanha; 886 profissionais de 160 instituições. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Em conjunto, os estudos sugerem que o apoio profissional funciona melhor quando não é tratado como uma conversa isolada. A integração de recém-chegados, a participação em uma comunidade de estágio, a reflexão em equipe e o acompanhamento de uma prática específica aparecem associados a oportunidades de aprendizagem e colaboração. Há também uma ênfase recorrente nas condições institucionais: clima de interação, organização dos horários, recursos, suporte técnico e resposta às necessidades dos profissionais.
As pesquisas divergem no foco e no tipo de evidência. Campbell e colaboradores avaliaram uma intervenção específica e relatam mudanças observadas em práticas de alimentação responsiva. Kahila investigou percepções de estudantes em estágio. Duffy-Fagan descreveu uma pesquisa-ação sobre mentoria e liderança; Virmani explorou relatos de participantes de consultoria reflexiva. Mampane discutiu integração e mentoria de novos profissionais, enquanto Meeker analisou uma via de formação docente. Then examinou fatores associados ao uso de tecnologia em equipe, não a eficácia de um programa de mentoria.
Por isso, ainda não há, com base nesses estudos, uma resposta única sobre qual duração, frequência ou formato de mentoria funciona melhor em toda situação. Também permanecem perguntas sobre como integrar acolhida, acompanhamento pedagógico e cuidado com o bem-estar sem sobrecarregar equipes que já enfrentam dificuldades de organização. O estudo sul-africano aponta diretamente a necessidade de investigar a influência da integração no desempenho e na rotatividade. A pesquisa canadense, por sua vez, mostra que obstáculos logísticos podem persistir mesmo quando as práticas centrais são mantidas.
Como aplicar as ideias de mentoria na rotina da educação infantil?
Uma aplicação possível é organizar o apoio como parte da rotina de trabalho, com objetivos observáveis e espaço para escuta. As sugestões abaixo são formas de levar os achados à prática; não são resultados testados pelos estudos como um pacote único.
1. Combine uma acolhida prática para quem está começando
Como aplicação, uma instituição pode preparar um percurso de integração com informações essenciais sobre rotinas, comunicação da equipe e responsabilidades, em vez de depender de explicações improvisadas. Por exemplo, uma profissional recém-contratada pode ter uma pessoa de referência para conversar sobre como o grupo organiza a chegada das crianças e a passagem entre momentos do dia. A ideia se relaciona à importância atribuída à integração e à transmissão de informações e competências por Mampane (2024), mas o formato precisa respeitar a realidade do centro.
2. Inclua quem aprende nas conversas da equipe
Como aplicação, ao receber uma estudante em estágio, a equipe pode convidá-la a participar de momentos de planejamento e reflexão adequados à sua função. Imagine uma estagiária que observa uma atividade e depois compartilha o que percebeu, enquanto a equipe pergunta o que ela gostaria de compreender melhor. Essa participação dialoga com as percepções de estudantes finlandeses sobre agência, aprendizagem e bem-estar na comunidade de trabalho (Kahila, 2024). O convite deve vir acompanhado de orientação clara, não de responsabilidade excessiva.
3. Faça da reflexão uma conversa estruturada
Como aplicação, a equipe pode escolher uma situação cotidiana e examiná-la com perguntas simples: o que aconteceu, que decisões tomamos, o que percebemos nas crianças e o que poderíamos experimentar em seguida? Por exemplo, depois de uma transição agitada entre atividades, o grupo pode discutir como a organização do espaço e a comunicação adulta influenciaram o momento. Isso traduz a proposta de articular mentoria e reflexão crítica, sem presumir que uma conversa informal produza os mesmos resultados da pesquisa-ação de Duffy-Fagan (2025).
4. Reserve espaço para escuta e pausa
Como aplicação, um encontro de acompanhamento pode começar perguntando como a pessoa está vivendo a rotina e o que está difícil de compreender ou sustentar. Imagine uma educadora que se sente insegura diante de uma situação recorrente; um tempo de escuta pode ajudá-la a organizar suas percepções antes de discutir alternativas pedagógicas. A pesquisa sobre consultoria reflexiva nos Estados Unidos relata que participantes valorizaram espaço para expressar sentimentos e fazer uma pausa (Virmani, 2026). Isso não transforma colegas em profissionais de saúde mental: é uma sugestão de diálogo respeitoso e encaminhamento quando necessário.
5. Escolha uma prática concreta para acompanhar
Como aplicação, em vez de propor que uma pessoa “melhore tudo”, o mentor e o profissional podem selecionar uma rotina específica e combinar o que observar. Por exemplo, podem acompanhar como os adultos apoiam a autonomia das crianças durante uma refeição, registrar dúvidas e depois conversar sobre possíveis ajustes. A experiência canadense de mentoria em alimentação responsiva mostra a utilidade de vincular o acompanhamento a práticas delimitadas, embora seus resultados não indiquem que o mesmo formato sirva para qualquer objetivo (Campbell, 2026).
6. Remova barreiras de organização sempre que possível
Como aplicação, antes de marcar reuniões, a gestão pode verificar se os horários permitem que os profissionais participem e se existe um canal claro para comunicar mudanças. Uma equipe pode ter boas intenções de acompanhar uma colega, mas perder encontros por falta de cobertura ou por trocas de turno. Os problemas de comunicação e organização de horários identificados na intervenção canadense lembram que a sustentabilidade do apoio depende de logística, não apenas de motivação (Campbell, 2026).
7. Trate ferramentas digitais como apoio, não como solução automática
Como aplicação, uma equipe pode usar um canal digital para combinar horários ou compartilhar observações profissionais, desde que escolha ferramentas acessíveis e respeite as regras de privacidade da instituição. Imagine uma equipe distribuída em turnos que precisa manter uma continuidade mínima nas conversas. A pesquisa alemã associa uso compartilhado de tecnologia a formação, autoeficácia, atitudes e suporte técnico, além de mostrar a importância da confiança da equipe (Then, 2026). Portanto, disponibilizar um computador sem apoio e sem propósito definido pode não bastar.
O que muda ao pensar a mentoria no contexto brasileiro?
No Brasil, as ideias dos estudos podem inspirar práticas de acolhida, acompanhamento e reflexão, mas os programas e contextos descritos não devem ser importados como modelos prontos. As pesquisas citadas foram realizadas em países e instituições com organizações próprias: há experiências na África do Sul, Finlândia, Estados Unidos, Canadá e Alemanha. Os resumos não permitem concluir que a estrutura de trabalho, a formação, os recursos ou as responsabilidades profissionais sejam iguais às encontradas em cada rede brasileira.
Uma adaptação cuidadosa começa por perguntar quais apoios já existem na instituição e quais lacunas são mais urgentes. Em um centro com equipe pequena, por exemplo, uma conversa breve e regular pode ser mais realista do que um programa extenso. Em uma rede com vários turnos, pode ser necessário pensar em como garantir que profissionais com horários diferentes tenham acesso a orientações comuns. Essas são possibilidades de aplicação, não resultados diretamente avaliados pelos estudos.
Também é importante reconhecer que mentoria não compensa sozinha falta de tempo, alta rotatividade ou ausência de condições de trabalho. A intervenção canadense encontrou dificuldades de organização de horários e rotatividade apesar dos avanços relatados; o estudo alemão aponta que suporte técnico se relaciona ao uso colaborativo de tecnologia. Para a realidade brasileira, a pergunta prática é como oferecer acompanhamento sem transferir toda a responsabilidade para uma pessoa mentora que já acumula outras tarefas.
Por fim, a escuta precisa considerar língua, cultura, trajetória e experiência profissional. Virmani e colaboradores destacam a responsividade linguística em consultoria reflexiva; Meeker e colaboradores relatam o valor de percursos culturalmente responsivos e da valorização dos conhecimentos comunitários em um programa de formação. Na adaptação ao Brasil, isso pode significar perguntar como cada profissional prefere receber orientação e reconhecer saberes construídos em diferentes trajetórias, sem presumir que todos aprendem ou se comunicam da mesma maneira.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos publicados a partir de 2023, não na leitura integral dos artigos. Por isso, apresenta os objetivos e resultados descritos nesses resumos, sem avaliar em profundidade os instrumentos, a análise completa ou todos os detalhes de cada pesquisa. Os estudos também têm focos e contextos diferentes, então seus achados não podem ser comparados como se fossem testes do mesmo programa.
Ficam em aberto perguntas importantes: quais formatos de mentoria são mais sustentáveis em diferentes tipos de instituição? Como a integração influencia a permanência dos profissionais ao longo do tempo? Que condições de trabalho tornam possível manter encontros regulares? Como adaptar práticas de consultoria reflexiva e acompanhamento a equipes com diferentes idiomas, formações e responsabilidades? Para decisões de gestão ou para desenhar um programa institucional, faz sentido consultar os estudos completos, especialmente os métodos, limites e recomendações detalhadas, além de considerar as normas e condições locais.
Como o GeraProva pode ajudar com este assunto?
A mentoria não é uma prova, mas atividades de observação e avaliação podem ajudar a equipe a acompanhar o que as crianças já demonstram e onde precisam de apoio, sem reduzir o desenvolvimento infantil a uma nota. Se você também trabalha com turmas que realizam avaliações, o gerador de provas do GeraProva pode apoiar a criação de questões com IA; para conhecer a plataforma, faça o cadastro grátis. O recurso não substitui o olhar pedagógico nem a conversa entre profissionais.
Perguntas frequentes sobre mentoria em creches e pré-escolas
Qual é a diferença entre mentoria e orientação pontual?
Uma orientação pontual responde a uma dúvida específica; a mentoria é um acompanhamento que pode reunir informação, diálogo, reflexão e oportunidades de aprender ao longo do tempo. Mampane (2024) destaca a integração e a mentoria como formas de transmitir informações, habilidades e competências a novos profissionais. Outros estudos mostram dimensões complementares: participação na comunidade de trabalho durante o estágio (Kahila, 2024) e reflexão crítica em equipe (Duffy-Fagan, 2025). Os estudos não estabelecem uma definição única para todas as instituições, mas ajudam a entender por que acompanhar o processo pode ir além de dar instruções.
Quem pode atuar como mentor na educação infantil?
Os estudos apresentados descrevem diferentes arranjos. Mampane (2024) aponta profissionais mais experientes como mentores e destaca a responsabilidade de gestores no apoio ao desenvolvimento profissional. Kahila (2024) trata do papel de professores colaboradores e da comunidade de trabalho no estágio. Já a intervenção de Campbell (2026) contou com mentores que ofereciam apoio especializado em alimentação responsiva. Assim, a escolha depende do objetivo: pode ser uma pessoa experiente da equipe, um professor colaborador ou alguém com conhecimento específico. É importante definir com clareza a função do mentor e os limites de sua atuação.
A mentoria precisa ter uma duração ou frequência fixa?
Os resumos não oferecem uma regra universal de duração ou frequência. Na intervenção canadense de alimentação responsiva, a maioria dos educadores respondentes considerou adequada a duração de seis meses e as visitas mensais (Campbell, 2026). Esse achado vale para aquela intervenção e não prova que o mesmo calendário seja ideal para acolher novos profissionais, acompanhar estágios ou apoiar outras práticas. Uma instituição pode definir encontros de acordo com o objetivo, a disponibilidade da equipe e a necessidade de continuidade, revisando o formato quando os horários ou as condições de trabalho dificultarem a participação.
Como acolher um profissional novo que ainda não teve formação formal suficiente?
Uma possibilidade é identificar as informações e competências mais necessárias para a rotina e oferecer acompanhamento gradual, em vez de esperar que a pessoa descubra tudo sozinha. Mampane (2024) relata que integração e mentoria podem transmitir informações, habilidades e competências a profissionais que talvez não tenham recebido formação formal nessas áreas. Como aplicação, a equipe pode apresentar rotinas essenciais, indicar uma pessoa de referência e combinar momentos para perguntas e reflexão. O resumo também ressalta que são necessárias pesquisas adicionais sobre a influência da integração no desempenho e na rotatividade; por isso, não se deve prometer que o acolhimento, por si só, resolverá esses desafios.
É possível fazer mentoria a distância ou com ferramentas digitais?
Os estudos reunidos não avaliam diretamente um modelo completo de mentoria a distância para profissionais de creches e pré-escolas. Then (2026) investigou o uso de tecnologias no trabalho em equipe na Alemanha e encontrou associações entre colaboração digital, formação, autoeficácia, atitudes e suporte técnico. O estudo sugere que ferramenta e disposição precisam caminhar juntas, mas não demonstra que uma plataforma substitua encontros presenciais ou orientação pedagógica. Como aplicação, recursos digitais podem ajudar a manter a comunicação entre turnos, desde que sejam acessíveis, tenham finalidade clara e estejam de acordo com as regras de privacidade da instituição.
Como saber se uma prática de mentoria está ajudando?
Uma forma de acompanhar é definir previamente o que se espera observar, como maior clareza sobre uma rotina, participação mais segura ou adoção de uma prática específica. Campbell (2026), por exemplo, avaliou práticas de alimentação responsiva por meio de observações e reuniu relatos dos profissionais. Isso não significa que toda mentoria precise usar escalas ou que um único indicador represente o desenvolvimento profissional. Como aplicação, a equipe pode combinar observações, conversas de acompanhamento e revisão dos obstáculos encontrados. Também vale registrar se os encontros estão acontecendo e se os profissionais conseguem participar.
Referências
- Duffy-Fagan, M., Newman, L., & Leggett, N. (2025). Mentoria reflexiva crítica no âmbito da liderança baseada em equipe: “Conversas que importam” (Critically Reflective Mentoring within Team-Based Leadership: 'Having Conversations That Matter'). International Journal of Leadership in Education. Link.
- Kahila, S., Kuutti, T., Kahila, J., & Sajaniemi, N. (2024). A importância das comunidades de trabalho do estágio para o desenvolvimento profissional dos estudantes finlandeses de formação de professores da educação infantil — percepções (The Significance of Practicum Work Communities for Students' Professional Development -- Perceptions of Finnish ECE Teacher Students). Journal of Early Childhood Teacher Education. Link.
- Mampane, T. J. (2024). A integração e a mentoria de novos profissionais em centros de educação infantil: o contexto sul-africano (The Induction and Mentorship of New Practitioners in Early Childhood Education Centres: The South African Context). Bulgarian Comparative Education Society. Link.
- Virmani, E. A., Hatton, H., Nagase, A., Wiese, A.-M., Silverstein, J., & Harshbarger, H. (2026). Escúchanos, “Nós temos emoções e sentimentos”: explorando como a consultoria reflexiva apoia educadores da educação infantil (Escúchanos, "We Do Have Emotions and We Do Have Feelings": Exploring How Reflective Consultation Supports Early Childhood Educators). Infant Mental Health Journal: Infancy and Early Childhood. Link.
- Campbell, J. E., McIsaac, J.-L. D., Levin, O., Caldwell, S., Young, M., Mann, L., Ward Chiasson, S., Dickson, E., & Rossiter, M. D. (2026). Apoio à alimentação responsiva em instituições de educação infantil: avaliação de processo da intervenção de alimentação CELEBRATE com o uso do modelo RE-AIM (Supporting Responsive Feeding in Early Childhood Education Centres: A Process Evaluation of the CELEBRATE Feeding Intervention Using the RE-AIM Framework). Health Education Research. Link.
- Meeker, L., Lee, B. Y., Paciotto, C., & Delany-Barmann, G. (2026). Repensando os percursos para a equidade educacional em parcerias escolares: um estudo de caso na educação infantil (Reimagining Pathways for Educational Equity in School-Based Partnerships: An Early Childhood Case Study). School-University Partnerships. Link.
- Then, S., Burghardt, L., Borgstede, M., & Anders, Y. (2026). Trabalho em equipe digital na educação infantil: uma aplicação do modelo Vontade-Habilidade-Ferramenta (Digital Teamwork in Early Childhood Education: An Application of the Will Skill Tool Model). International Journal of Child Care and Education Policy. Link.
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