Mais de um aluno faltou ou faltaram? Entenda a concordância
Eu já parei diante da chamada e pensei duas vezes antes de registrar a ocorrência: “Mais de um aluno faltou” ou “mais de um aluno faltaram”? É uma dúvida pequena na aparência, mas ótima para mostrar à turma que concordância não é decorar uma lista de regras: é observar como as palavras se organizam e como o sentido muda.
Na minha prática, eu aproveito esse tipo de frase para unir gramática, leitura e reflexão sobre os usos da língua. Em vez de simplesmente corrigir, peço que os estudantes justifiquem a escolha. A conversa rende muito mais quando eles percebem que a norma-padrão tem critérios, mas que a fala cotidiana também tem história, contexto e valor.
Mais de um aluno faltou ou faltaram?
Na forma mais recomendada pela norma-padrão, escrevemos “mais de um aluno faltou”: embora a expressão indique quantidade superior a um, o núcleo do sujeito é aluno, que está no singular, e o verbo acompanha esse núcleo. Portanto, em uma ata, comunicado ou prova, “Mais de um aluno faltou hoje” é a construção esperada. O plural, “mais de um aluno faltaram”, pode aparecer no uso real da língua porque quem fala enfatiza a ideia de vários alunos, mas não é a escolha prioritária em situações formais. Eu costumo ensinar primeiro a regra de referência e, depois, discutir por que formas diferentes circulam. Assim, a turma aprende a revisar a própria escrita sem concluir, de maneira equivocada, que toda fala espontânea é “errada”.
Uma maneira simples de testar a frase é substituir a expressão pelo núcleo: “O aluno faltou”. A concordância se mantém. Vale destacar que a expressão mais de um funciona de modo particular e não segue automaticamente a lógica de outros quantificadores plurais.
- Preferível na escrita formal: Mais de um aluno faltou.
- Uso que pode ocorrer na fala: Mais de um aluno faltaram.
- Foco da revisão: identificar o núcleo do sujeito e o contexto de circulação.
Quando “mais de um” pode levar o verbo ao plural?
O verbo pode ir para o plural principalmente quando a expressão “mais de um” indica reciprocidade, isto é, quando uma pessoa realiza uma ação em relação à outra: “Mais de um aluno se cumprimentaram” ou “Mais de um candidato se atacaram”. Nesses casos, o sentido exige participantes múltiplos em interação, e o plural se justifica. Também convém diferenciar essa construção de sujeitos claramente plurais, como “Mais de dois alunos faltaram” e “Mais de três estudantes entregaram o trabalho”, em que o numeral deixa explícita a pluralidade e o verbo deve ficar no plural. Para evitar que a regra vire armadilha, eu proponho pares de frases e peço que a turma encontre a diferença de sentido. O GeraProva ajuda nesse planejamento ao permitir gerar itens graduados, com habilidade e nível cognitivo definidos, sem eu precisar montar tudo do zero.
Compare estas situações:
- “Mais de um aluno faltou à aula.” Não há ação recíproca.
- “Mais de um aluno se abraçaram ao final da apresentação.” Há relação entre participantes.
- “Mais de dois alunos faltaram.” O núcleo aparece no plural.
Eu evito apresentar a exceção como autorização para pluralizar qualquer frase com mais de um. O estudante precisa localizar o motivo linguístico da escolha, não apenas procurar uma palavra que “pede plural”.
Como ensinar concordância sem desvalorizar a fala dos estudantes?
Eu ensino concordância verbal como uma escolha de adequação aos gêneros e às situações de uso, sem transformar a aula em tribunal da fala dos estudantes. Primeiro, apresento a forma prevista na norma-padrão para textos formais; depois, comparo-a com enunciados de conversas, letras, mensagens e falas regionais, perguntando o que muda em cada contexto. Essa estratégia é coerente com a BNCC, especialmente com a habilidade EF69LP55, que propõe reconhecer variedades da língua falada, norma-padrão e preconceito linguístico, e com a EM13LP01, voltada às condições de produção e circulação dos textos. Quando um aluno diz “mais de um aluno faltaram”, eu não ridicularizo nem encerro a conversa com um rótulo. Eu explico a forma esperada na escrita monitorada, mostro a lógica da regra e valorizo a capacidade de alternar registros.
Um roteiro que já funcionou comigo é este:
- Escrever no quadro uma frase de chamada e uma mensagem de grupo.
- Pedir que os grupos localizem sujeito, núcleo e verbo.
- Discutir qual versão cabe melhor em um comunicado oficial.
- Retomar a diferença entre variação, adequação e preconceito linguístico.
Para criar versões com dificuldade progressiva, eu uso a página inicial do GeraProva. Assim, consigo separar uma atividade inicial de identificação de sujeito de outra mais desafiadora, que exige analisar efeitos de sentido e contexto.
Questões prontas com gabarito comentado
As seis questões abaixo mostram como avaliar concordância, registros e variação linguística sem reduzir o conteúdo a uma caça ao “certo” e ao “errado”. Elas trazem enunciados completos, alternativas comentadas, códigos BNCC, nível de Bloom, dica de resolução e conceitos para revisão; por isso, eu consigo enxergar com clareza o que cada item mobiliza antes de aplicá-lo. Há questões de dificuldade fácil, média e difícil, adequadas para sondagem, revisão ou avaliação, e os distratores revelam confusões frequentes dos estudantes. No GeraProva, esse tipo de dado pedagógico economiza meu tempo de seleção e me ajuda a montar uma prova mais equilibrada. Eu começaria pelas questões 6 e 5 no fundamental e utilizaria as questões do ENEM para aprofundar a discussão no ensino médio.
Questão 1 — ENEM 2014
Enunciado: Só há uma saída para a escola se ela quiser ser mais bem-sucedida: aceitar a mudança da língua como um fato. Isso deve significar que a escola deve aceitar qualquer forma da língua em suas atividades escritas? Não deve mais corrigir? Não! Há outra dimensão a ser considerada: de fato, no mundo real da escrita, não existe apenas um português correto, que valeria para todas as ocasiões: o estilo dos contratos não é o mesmo do dos manuais de instrução; o dos juízes do Supremo não é o mesmo do dos cordelistas; o dos editoriais dos jornais não é o mesmo do dos cadernos de cultura dos mesmos jornais. Ou do de seus colunistas. Sírio Possenti defende a tese de que não existe um único “português correto”. Assim sendo, o domínio da língua portuguesa implica, entre outras coisas, saber:
- ❌ A) Descartar as marcas de informalidade do texto. Isso é inadequado, pois a informalidade pode ser apropriada em contextos específicos.
- ❌ B) Reservar o emprego da norma padrão aos textos de circulação ampla. Isso ignora a diversidade de contextos em que a língua é usada.
- ❌ C) Moldar a norma padrão do português pela linguagem do discurso jornalístico. Cada gênero textual tem características próprias.
- ✅ D) Adequar as formas da língua a diferentes tipos de texto e contexto. Essa é a tese defendida no fragmento.
- ❌ E) Desprezar as formas previstas pelas gramáticas e manuais divulgados pela escola. Elas são importantes para compreender a norma-padrão.
Dica de resolução: Identifique os aspectos do domínio da língua portuguesa. Conceito central: domínio da língua portuguesa. Conceito para revisão: principais aspectos do uso da língua portuguesa. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.
Questão 2 — ENEM 2010
Enunciado: “S.O.S Português”. Por que pronunciamos muitas palavras de um jeito diferente da escrita? Pode-se refletir sobre esse aspecto da língua com base em duas perspectivas. Na primeira delas, fala e escrita são dicotômicas, o que restringe o ensino da língua ao código. Daí vem o entendimento de que a escrita é mais complexa que a fala, e seu ensino restringe-se ao conhecimento das regras gramaticais, sem a preocupação com situações de uso. Outra abordagem permite encarar as diferenças como um produto distinto de duas modalidades da língua: a oral e a escrita. O assunto, publicado em revista destinada a professores, apresenta marcas linguísticas próprias do uso:
- ❌ A) Regional, pela presença de léxico de determinada região do Brasil. Não há marcas de regionalismo no texto.
- ❌ B) Literário, pela conformidade com as normas da gramática. O texto é técnico, não literário.
- ✅ C) Técnico, por meio de expressões próprias de textos científicos. O foco está em aspectos da língua e de seu ensino.
- ❌ D) Coloquial, por meio do registro de informalidade. Não há informalidade típica da linguagem coloquial.
- ❌ E) Oral, por meio do uso de expressões típicas da oralidade. Predomina linguagem escrita e técnica.
Dica de resolução: Identifique as marcas linguísticas mencionadas no texto. Conceito central: marcas linguísticas. Conceito para revisão: características dos textos destinados a professores. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.
Questão 3 — ENEM 2011
Enunciado: O texto afirma que usos como ter por haver, “para mim fazer” e “aluga-se casas” revelam tendências de mudança e uma pluralidade de normas, sem juízo de valor. Considerando essa reflexão sobre a multiplicidade do discurso, verifica-se que:
- ❌ A) Estudantes usam indistintamente usos da conversa em textos escritos. A afirmação é exagerada.
- ✅ B) Falantes que dominam a variedade padrão demonstram usos que confirmam a diferença entre norma idealizada e praticada. O texto afirma isso explicitamente.
- ❌ C) Apenas moradores com dificuldades de escrita revelam mudanças linguísticas. A variação caracteriza todos os falantes.
- ❌ D) Pessoas usam formas não aceitas para esconder desconhecimento. Há juízo de valor, ausente no texto.
- ❌ E) O uso de ter por haver é simples erro gramatical. Trata-se de variação linguística comum.
Dica de resolução: Analise a multiplicidade do discurso apresentada no texto. Conceito central: multiplicidade do discurso. Conceito para revisão: discurso e variações. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.
Questão 4 — ENEM 2011
Enunciado: O texto discute normas prestigiadas ou estigmatizadas, normas cultas locais e populares, e a constituição de uma norma nacional brasileira distinta da portuguesa. Ao considerar as variedades linguísticas, chama a atenção para a:
- ❌ A) Desconsideração das normas populares pelos falantes cultos. O texto destaca coexistência de normas.
- ❌ B) Difusão do português de Portugal no Brasil apenas a partir do século XVIII. Isso não é afirmado.
- ✅ C) Existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da de Portugal. Essa é a ideia central.
- ❌ D) Inexistência de normas cultas e populares em um país. O fragmento afirma o contrário.
- ❌ E) Necessidade de rejeitar usos frequentes. O texto propõe reconhecer a variação.
Dica de resolução: Identifique as variedades linguísticas mencionadas. Conceito central: variação linguística. Conceito para revisão: normas e variedades do português. BNCC: EM13LP01. Bloom: Avaliar.
Questão 5 — Variedades linguísticas e respeito
Enunciado: No grupo da família, o tio critica a fala da prima do interior: “nós vai”, “as menina”, “cês não vem”. A avó responde que ela fala do jeito da região, que isso não apaga o valor do que diz e que, em texto formal, escolhem-se outras formas. Considere a posição da avó:
- ❌ A) Considera a fala inferior e defende uso sempre formal. Isso reproduz preconceito linguístico.
- ❌ B) Confirma que só a norma-padrão deve ser aceita. A avó valoriza a fala regional.
- ❌ C) Toma a fala como prova de falta de estudo e legitima zombaria. O texto critica esse desrespeito.
- ✅ D) Associa a fala a uma variedade linguística e rejeita o julgamento depreciativo do tio. A alternativa separa diferença de erro.
- ❌ E) Trata a fala como erro de escrita e má transcrição. O texto registra oralidade espontânea.
Dica de resolução: Analise a posição da avó sobre respeito às variedades. Conceito central: variedades linguísticas e respeito. Conceito para revisão: variedades linguísticas e norma-padrão. BNCC: EF69LP55. Bloom: Avaliar.
Questão 6 — Linguagem formal e informal
Enunciado: Leia a fala: “Oi, professora! Cê pode me explicar de novo? Eu não peguei essa parte da atividade.” A linguagem usada nessa fala é principalmente:
- ❌ A) Formal, porque o aluno fala com a professora. O interlocutor não define sozinho o nível de linguagem.
- ✅ B) Informal, porque há marcas de oralidade como “cê”. A forma reduzida é típica da oralidade.
- ❌ C) Científica, porque trata de atividade escolar. O tema não torna a linguagem científica.
- ❌ D) Poética, porque a frase é curta. Extensão curta não caracteriza linguagem poética.
- ❌ E) Regional apenas, porque toda fala informal é regional. Informalidade e regionalismo não são a mesma coisa.
Dica de resolução: Observe as características da linguagem da fala. Conceito central: linguagem formal e informal. Conceito para revisão: diferenças entre registros formal e informal. BNCC: EF69LP55. Bloom: Compreender.
Eu sugiro testar essas questões e adaptar o nível à sua turma: com o cadastro grátis, você pode criar avaliações com gabarito comentado, BNCC e dificuldade ajustada, preservando tempo para o que mais importa — a conversa pedagógica com seus estudantes.
