Estudos longitudinais com questionários: por que trajetórias diferentes pedem mais de uma medida
Estudos que acompanham crianças ao longo dos anos mostram que aprendizagem, contexto familiar e avaliações escolares podem se relacionar de maneiras diferentes conforme o momento. Veja o que esses resultados permitem — e não permitem — levar para a sala de aula.
Em alguns estudos, as habilidades das crianças mudam de importância conforme avançam os anos escolares; em outros, relações construídas ao longo do tempo aparecem associadas a resultados posteriores. À primeira vista, isso pode parecer uma mensagem contraditória: afinal, o desenvolvimento segue uma trajetória ou muda conforme o momento?
A diferença está no que cada pesquisa acompanha, em quais anos observa as crianças e que resultados relaciona. A seguir, vamos separar essas perguntas: o que os estudos longitudinais com questionários conseguem mostrar, o que não se deve concluir a partir deles e como essa leitura pode ajudar o professor a interpretar avaliações sem reduzir uma criança a uma resposta ou a um único momento.
O que são estudos longitudinais com crianças baseados em questionários e por que importam para o professor?
Um estudo longitudinal acompanha as mesmas crianças em mais de um momento. Quando usa questionários, pode recolher informações relatadas por familiares, professores ou pelas próprias crianças, conforme o desenho da pesquisa. Em vez de comparar apenas uma fotografia de uma turma, os pesquisadores observam mudanças e relações ao longo de uma trajetória.
Na rotina escolar, essa ideia é familiar: uma avaliação de início de ano não responde sozinha como um estudante está aprendendo; observações e registros em diferentes momentos ajudam a compor um quadro mais amplo. A pesquisa longitudinal faz algo semelhante em escala de estudo, mas não é simplesmente um boletim acumulado. Cada investigação define quais informações recolhe, com que frequência e que relações pretende examinar.
Os estudos reunidos aqui usam bases longitudinais dos Estados Unidos, em especial o Early Childhood Longitudinal Study, que acompanhou coortes de crianças desde o jardim de infância. Alguns analisam relatos de professores ou famílias; outros combinam esses relatos com testes e informações sobre características escolares. Portanto, “baseado em questionários” não significa que toda evidência venha de um único formulário, nem que todos os trabalhos tenham exatamente o mesmo método.
Para o professor, o valor está em pensar com mais cuidado sobre trajetória, contexto e momento. Uma resposta ou desempenho pode ser importante, mas ganha outro sentido quando observado junto de outras medidas e informações. Isso não transforma o docente em pesquisador nem exige aplicar questionários longos à turma. Ajuda, antes, a evitar conclusões apressadas sobre desenvolvimento, participação familiar ou necessidade de apoio.
O que a pesquisa recente mostra sobre acompanhar crianças ao longo dos anos?
As habilidades que ajudam a explicar a aprendizagem podem mudar de peso
Um estudo acompanhou estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês do jardim de infância ao 5º ano e examinou, em seis momentos de coleta, a importância relativa de habilidades de alfabetização inicial e de funções executivas para a leitura em inglês. As habilidades iniciais de alfabetização tiveram importância superior à das funções executivas de forma consistente, mas o peso relativo das habilidades específicas variou ao longo dos anos (Shen, 2025).
No jardim de infância, habilidades básicas de leitura em inglês e proficiência oral em inglês foram as mais influentes. A partir do 1º ano, habilidades iniciais de leitura em espanhol passaram a figurar como preditor dominante, enquanto a influência da proficiência oral em inglês diminuiu. Entre as funções executivas, o controle inibitório teve importância relativamente estável; a flexibilidade cognitiva foi mais influente nos anos iniciais, e a memória de trabalho ganhou destaque nos anos finais. Os autores ressaltam possíveis benefícios de apoiar ambas as línguas.
Outro estudo longitudinal investigou leitura inicial considerando fatores da criança, da família e da escola. Com dados de 9.312 crianças de uma coorte do ECLS-K:2011, os autores relataram que um modelo que incorporava fatores proximais — como ambiente familiar de letramento, ambiente escolar e abordagens de aprendizagem — e fatores distais explicava o desenvolvimento inicial da leitura da pré-escola ao ensino fundamental. Os fatores proximais atuavam como proteção, mediando e moderando a influência dos fatores distais sobre a capacidade inicial de leitura (Li, 2026).
Esses resultados não dizem que uma habilidade ou contexto determina sozinho o futuro escolar. Mostram que a explicação pode incluir elementos em diferentes níveis e que a relevância de certas habilidades pode se alterar ao longo da trajetória. A leitura também é específica: o estudo de Shen trata de estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês e de leitura em inglês; o de Li examina desenvolvimento inicial da leitura em uma coorte dos Estados Unidos.
Família e escola aparecem juntas, mas participação não tem uma única forma
Um estudo sobre famílias latinas considerou atividades realizadas em casa e na escola, usando dois bancos de dados nacionais dos Estados Unidos. O trabalho examinou padrões de envolvimento no jardim de infância e relações com resultados acadêmicos, cognitivos e comportamentais nos primeiros anos do ensino fundamental. As análises descritivas encontraram níveis altos de participação em diversas atividades acadêmicas em casa e atividades escolares. Nas análises de regressão, o envolvimento familiar esteve associado aos resultados das crianças, com associação mais evidente para o envolvimento na escola (Greenfader, 2025).
Esse resultado ganha contexto quando lido junto a uma pesquisa sobre desigualdades na participação familiar. Com dados do ECLS-K:2011, a análise sugeriu que famílias racialmente minorizadas relatavam mais práticas coletivas de participação na escola e em casa do que famílias brancas. Ao mesmo tempo, famílias hispânicas e de outros grupos raciais não brancos relatavam mais barreiras do que famílias brancas, e essas barreiras estavam relacionadas a menor participação na escola (Hine, 2025).
Os dois trabalhos ajudam a distinguir participação de presença em eventos. Atividades em casa, como ler, contar histórias, cantar e fazer contagens, fazem parte do quadro descrito por Greenfader e Miller; o estudo também considera atividades escolares. Hine chama atenção para barreiras e para o fato de que práticas predominantes podem excluir famílias. A leitura conjunta evita interpretar a menor presença na escola como falta de interesse: os resultados apontam para a necessidade de considerar formas diversas de envolvimento e obstáculos à participação.
A avaliação do professor pode acrescentar informação diferente de um teste
Em uma análise com dados representativos dos Estados Unidos, pesquisadores examinaram avaliações feitas por professores sobre habilidades em Ciências de estudantes multilíngues, comparando-as às de estudantes não multilíngues. Nos primeiros anos do ensino fundamental, os professores avaliavam as habilidades dos estudantes multilíngues um pouco abaixo nos modelos não ajustados. Porém, depois de considerar o desempenho em testes padronizados de Ciências, os professores avaliavam, em média, as habilidades desses estudantes acima das de colegas não multilíngues com pontuações equivalentes nos testes (Curran, 2026).
O contraste é relevante porque não se trata de escolher entre a avaliação do professor e o teste como se uma delas fosse sempre correta. A pesquisa evidencia que a relação observada muda quando se considera o desempenho padronizado. O resumo também informa que a análise examina variações entre subgrupos de estudantes multilíngues, sem detalhar aqui os resultados desses subgrupos. O contexto é norte-americano; não é uma medida direta de como professores brasileiros avaliam estudantes que falam outras línguas.
Outro trabalho acompanhou associações entre relações de estudantes e professores e diferentes resultados do jardim de infância ao terceiro ano, usando dados do ECLS de 2011. Conflito e proximidade nas relações estiveram consistentemente associados aos resultados no mesmo período e ao longo do tempo. A exceção principal foi a frequência escolar, para a qual as associações com conflito foram menos consistentes. Os modelos cumulativos ressaltaram a importância de experiências gerais de relações de alta qualidade ao longo do tempo (Ansari, 2025).
Em conjunto, esses estudos indicam que diferentes medidas respondem a perguntas diferentes. Uma prova padronizada oferece uma medida de desempenho em condições definidas; a avaliação cotidiana do professor pode capturar outros elementos percebidos no trabalho escolar. Da mesma forma, uma relação observada em um período pode ser examinada em conjunto com experiências anteriores. Isso não autoriza tratar percepção como diagnóstico nem relação como causa comprovada.
Trajetórias também ajudam a examinar identificação, idade e condições escolares
Uma pesquisa sobre identificação de deficiências analisou dados longitudinais representativos de crianças do ensino fundamental nos Estados Unidos. Estudantes negros e hispânicos tinham menor probabilidade de serem identificados como tendo deficiências do que estudantes brancos em situações semelhantes; estudantes de lares onde não se falava inglês também tinham menor probabilidade de identificação. Os autores concluem que estudantes de minorias raciais, étnicas e linguísticas continuavam com menor probabilidade de identificação ao longo do ensino fundamental (Morgan, 2025).
Esse achado diz respeito a padrões de identificação em uma população e contexto específicos, não permite inferir a situação de uma criança individual nem substitui uma avaliação cuidadosa. Ainda assim, mostra por que observar trajetórias e comparar grupos pode revelar desigualdades que uma fotografia isolada não mostraria. Para a escola, a pergunta útil não é rotular estudantes, mas verificar se processos de observação, encaminhamento e acesso a apoio funcionam de modo equitativo.
Outro estudo comparou coortes de jardim de infância de 1998 e 2011 nos Estados Unidos, incluindo jornadas de tempo integral e meio período. Os autores encontraram mudanças significativas nas características demográficas e no desempenho acadêmico. Também relataram que, nas duas coortes, crianças que frequentavam o meio período superaram as de tempo integral em medidas de leitura e matemática no terceiro e no quinto ano; o resumo apresenta como possibilidade um “efeito de esgotamento”, em meio a expectativas acadêmicas crescentes para essa etapa (Gullo, 2025).
Esse resultado pode soar contraintuitivo, mas não demonstra que a jornada integral cause desempenho inferior. A pesquisa compara grupos e identifica padrões; o resumo não estabelece uma explicação causal definitiva. A hipótese discutida pelos autores deve ser lida como interpretação a considerar, não como regra para decidir a organização da jornada de uma escola brasileira.
Quais estudos foram comparados e o que cada um relata?
A tabela reúne os estudos citados e destaca a pergunta principal de cada um. Os contextos nacionais e escolares importam: os resultados não devem ser transferidos automaticamente para a realidade brasileira.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Shen (2025) | Habilidades de alfabetização e funções executivas como preditores de leitura em inglês. | A importância relativa muda ao longo dos anos; habilidades iniciais de alfabetização superam as funções executivas. | Estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês, jardim de infância ao 5º ano, Estados Unidos. |
| Li (2026) | Fatores familiares, escolares e individuais relacionados ao desenvolvimento inicial da leitura. | Fatores proximais atuam como proteção em relação à influência de fatores distais. | 9.312 crianças de uma coorte do ECLS-K:2011, pré-escola ao ensino fundamental, Estados Unidos. |
| Greenfader (2025) | Envolvimento de famílias latinas em casa e na escola e resultados das crianças. | Participação em atividades domésticas e escolares; associação com resultados mais evidente para envolvimento na escola. | Dois bancos de dados nacionais dos Estados Unidos; jardim de infância e primeiros anos do ensino fundamental. |
| Hine (2025) | Características familiares, barreiras e participação. | Famílias racialmente minorizadas relatam mais práticas coletivas, mas famílias hispânicas e de outros grupos não brancos relatam mais barreiras. | Dados representativos do ECLS-K:2011, Estados Unidos. |
| Curran (2026) | Avaliações docentes de Ciências de estudantes multilíngues. | Após considerar pontuações padronizadas, professores os avaliam acima de colegas não multilíngues com pontuações equivalentes. | Primeiros anos do ensino fundamental, dados nacionais dos Estados Unidos. |
| Ansari (2025) | Associações entre relações estudante-professor e resultados escolares. | Conflito e proximidade se associam a resultados no mesmo período e ao longo do tempo; frequência escolar é exceção parcial. | Jardim de infância ao terceiro ano, Estados Unidos. |
| Morgan (2025) | Disparidades raciais, étnicas e linguísticas na identificação de deficiências. | Estudantes negros, hispânicos e de lares onde não se falava inglês tinham menor probabilidade de identificação em situações semelhantes. | Ensino fundamental, dados longitudinais dos Estados Unidos. |
| Gullo (2025) | Coortes de 1998 e 2011 e jornadas de tempo integral e meio período. | Nas duas coortes, estudantes do meio período superaram os do integral em medidas de leitura e matemática no terceiro e quinto ano. | Jardim de infância, Estados Unidos; comparação de coortes. |
O que há em comum e o que diverge entre os estudos?
Um ponto em comum é que o momento e o contexto alteram a interpretação. Shen (2025) encontrou mudanças no peso relativo de habilidades conforme os anos escolares; Ansari (2025) examinou associações simultâneas e duradouras; Li (2026) reuniu fatores da criança, da família e da escola. Em todos esses casos, a trajetória não se resume a uma nota ou medida isolada.
Há também uma convergência em torno da necessidade de olhar além de um indicador único. Curran (2026) relaciona avaliações docentes e testes padronizados; Greenfader (2025) considera envolvimento familiar em casa e na escola; Hine (2025) mostra que práticas e barreiras coexistem. São perguntas distintas, mas todas tornam insuficiente uma leitura que trate um único sinal como retrato completo da criança ou da família.
As diferenças são igualmente importantes. Alguns estudos examinam associações com aprendizagem; outros descrevem padrões de participação, avaliação docente ou identificação. A relação entre uma variável e um resultado não é necessariamente uma relação de causa. Além disso, os estudos abrangem grupos específicos, como estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês ou famílias latinas, e contextos institucionais dos Estados Unidos.
Permanece em aberto como esses padrões se apresentariam em escolas brasileiras, com outras línguas, políticas, condições de acesso e formas de organização escolar. Também não se deve supor que resultados de diferentes estudos componham uma única trajetória individual: são análises distintas, com medidas e populações distintas. A contribuição está em formular perguntas mais cuidadosas, não em oferecer uma receita universal.
Como levar essas ideias para a sala de aula?
As sugestões abaixo são aplicações pedagógicas inspiradas pelas perguntas dos estudos, não resultados testados por essas pesquisas em escolas brasileiras. O professor pode adaptá-las ao contexto da turma e aos procedimentos da escola.
1. Registre mais de um momento antes de concluir que houve avanço ou recuo
Aplicação: combine evidências feitas em períodos diferentes, em vez de apoiar uma decisão apenas em uma atividade. Imagine um estudante que tem dificuldade em uma leitura no começo do bimestre, mas participa melhor de uma atividade oral algumas semanas depois. Um pequeno registro de observações, produções e tarefas pode ajudar a conversar sobre o percurso, sem transformar uma oscilação em rótulo.
2. Separe o que a avaliação mede do que ela não mede
Aplicação: ao interpretar uma prova, explicite se ela observou compreensão, vocabulário, produção escrita ou outro aspecto. Um exemplo hipotético: em Ciências, uma criança pode explicar um fenômeno oralmente, mas ter dificuldade para demonstrar o que sabe em uma questão escrita. Considerar evidências complementares não significa abandonar critérios; significa evitar atribuir à prova uma resposta para perguntas que ela não foi desenhada para responder.
3. Observe recursos em mais de uma língua
Aplicação: para estudantes que usam mais de uma língua, procure formas de reconhecer conhecimentos e experiências linguísticas sem presumir que uma única medida descreve toda a aprendizagem. Imagine uma criança que está desenvolvendo leitura em português e conversa sobre um tema familiar em outra língua. A sugestão é criar oportunidades de expressão variadas e observar o que cada atividade permite demonstrar, em diálogo com os apoios disponíveis na escola.
4. Convide as famílias sem definir participação como presença física
Aplicação: ofereça maneiras variadas de compartilhar informações e reconheça práticas de aprendizagem feitas em casa. Uma família hipotética pode não conseguir comparecer a uma reunião, mas ler histórias, conversar sobre o dia ou contar objetos em atividades cotidianas. Um canal de comunicação simples e acessível pode ajudar a escola a conhecer essas práticas, sem tratar ausência em eventos como desinteresse.
5. Pergunte quais barreiras dificultam a participação
Aplicação: antes de concluir que uma família não quer participar, verifique se horários, idioma, transporte, comunicação ou formato dos encontros estão criando obstáculos. Esses exemplos são possibilidades de aplicação, não barreiras identificadas especificamente para cada escola pelos estudos citados. Imagine uma reunião marcada em um horário incompatível com a rotina de algumas famílias: oferecer alternativas pode ampliar a oportunidade de contato sem exigir que todas participem do mesmo modo.
6. Acompanhe padrões de encaminhamento com cuidado e equidade
Aplicação: em reuniões de equipe, revisem quais evidências sustentam uma preocupação e quais apoios já foram tentados. O estudo sobre identificação de deficiências aponta desigualdades nos Estados Unidos, mas não fornece um protocolo para escolas brasileiras. Uma aplicação prudente é verificar se critérios e oportunidades de apoio são consistentes e evitar que língua, comportamento em um único momento ou expectativa sobre um grupo substituam uma avaliação individual cuidadosa.
7. Considere a qualidade das relações como parte do ambiente de aprendizagem
Aplicação: observe se há oportunidades regulares de interação respeitosa, escuta e orientação, sem transformar a relação professor-estudante em explicação única para resultados. Imagine uma turma em que um aluno passou a evitar pedir ajuda depois de conflitos recorrentes. Conversas breves, combinados claros e acompanhamento da participação podem ser caminhos de trabalho; são sugestões pedagógicas, não uma intervenção avaliada pelos estudos apresentados.
O que muda quando aplicamos essas pesquisas ao contexto brasileiro?
A principal cautela é que os estudos apresentados foram realizados nos Estados Unidos, e vários usam bases nacionais daquele país. O sistema escolar, as etapas, os critérios de ingresso, os instrumentos de avaliação e as categorias usadas para descrever grupos não são automaticamente equivalentes aos brasileiros. Mesmo quando uma pergunta parece familiar — como participação familiar ou desenvolvimento da leitura — o contexto em que a relação foi observada importa.
Isso não torna os estudos inúteis. Eles podem ajudar professores e equipes a formular perguntas pertinentes: estamos considerando mais de uma medida? A comunicação da escola reconhece formas diversas de participação? Os critérios de acompanhamento são aplicados com cuidado? Mas as respostas precisam vir de observação, diálogo e dados adequados à realidade da escola brasileira, não da transferência direta de uma conclusão norte-americana.
Também é importante evitar equivalências apressadas entre grupos. O estudo de Shen trata de estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês; isso não descreve automaticamente estudantes que falam português e uma língua indígena, uma língua de imigração ou outra língua no Brasil. Da mesma forma, categorias raciais e étnicas e o funcionamento de serviços de educação especial dependem de contextos próprios. O uso responsável da pesquisa começa por reconhecer tanto a pergunta que ela ilumina quanto o limite de sua aplicação.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados na fonte indicada, e não na leitura integral dos artigos. Os resumos permitem apresentar os objetivos e os principais resultados informados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, decisões analíticas, ressalvas metodológicas ou a extensão completa das interpretações.
Também há diferenças entre os trabalhos: nem todos usam questionários da mesma forma, e nem todos se concentram exclusivamente em relatos. Alguns relacionam avaliações de professores ou famílias a testes e outros dados; outros analisam padrões longitudinais de identificação ou comparam coortes. As perguntas que ficam abertas incluem como os achados se replicariam em escolas brasileiras e quais fatores explicariam as associações observadas em cada contexto.
Faz sentido consultar os estudos completos quando a escola pretende adotar uma decisão de política, interpretar um resultado de modo mais técnico ou usar uma medida específica. Para uma conversa pedagógica inicial, os resumos ajudam a localizar ideias; para orientar mudanças institucionais ou conclusões sobre grupos de estudantes, é importante conhecer melhor os métodos e as limitações de cada pesquisa.
Como o GeraProva ajuda com esse assunto?
Uma avaliação preparada para a turma pode ser uma das evidências usadas para acompanhar a aprendizagem, desde que seja interpretada junto de outras informações e não como retrato completo de uma criança. O gerador de provas do GeraProva pode ajudar a elaborar questões e atividades com apoio de IA; você decide como adequá-las ao que ensinou e aos objetivos da avaliação. Se quiser experimentar a plataforma, faça seu cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre estudos longitudinais com crianças
O que diferencia um estudo longitudinal de uma pesquisa feita uma única vez?
Um estudo longitudinal acompanha as mesmas crianças em mais de um momento e analisa mudanças ou relações ao longo do tempo. Uma pesquisa feita uma única vez oferece uma observação concentrada em determinado período. Nos estudos citados, por exemplo, pesquisadores examinaram habilidades e resultados entre diferentes anos escolares ou relacionaram experiências em momentos distintos. Isso ajuda a formular perguntas sobre trajetórias, mas não significa que toda mudança observada tenha uma causa identificada. Para o professor, a ideia útil é evitar que uma medida isolada seja tratada como descrição definitiva do desenvolvimento.
Questionários mostram exatamente o que uma criança sabe?
Não necessariamente. Questionários podem recolher relatos de professores ou famílias sobre aspectos definidos pela pesquisa, mas não substituem todas as formas de avaliação. O estudo de Curran (2026), por exemplo, examinou avaliações docentes de habilidades em Ciências e a relação delas com testes padronizados; as conclusões mudaram após considerar as pontuações nos testes. Isso mostra que medidas diferentes podem trazer informações diferentes. Na prática, vale perguntar o que cada instrumento avalia e combinar evidências pertinentes, sem considerar um relato ou uma prova como retrato completo do estudante.
O que esses estudos dizem sobre participação das famílias?
Os estudos mostram que participação pode ocorrer em casa e na escola e que barreiras importam. Greenfader (2025) relatou altos níveis de participação de famílias latinas em várias atividades acadêmicas domésticas e escolares, com associação mais evidente entre envolvimento na escola e resultados das crianças. Hine (2025) encontrou mais práticas coletivas relatadas por famílias racialmente minorizadas, mas também mais barreiras para determinados grupos, relacionadas a menor participação na escola. Os resultados vêm dos Estados Unidos e não autorizam presumir que uma família brasileira participe ou não com base em presença em reuniões.
Uma associação encontrada em um estudo prova que uma coisa causa a outra?
Não. Uma associação indica que duas medidas aparecem relacionadas nas análises descritas, mas isso, por si só, não comprova que uma delas cause a outra. Por exemplo, as relações estudante-professor estiveram associadas a resultados ao longo do tempo no estudo de Ansari (2025), mas o resumo não permite transformar essa associação em uma regra causal simples. Do mesmo modo, o padrão entre jornada escolar e desempenho relatado por Gullo (2025) não demonstra que a duração da jornada, sozinha, produza a diferença. É importante distinguir relação observada, interpretação dos autores e recomendação prática.
Posso aplicar diretamente esses resultados a uma turma brasileira?
É mais seguro usar os resultados para orientar perguntas do que para copiar conclusões. As pesquisas apresentadas foram feitas nos Estados Unidos e envolvem sistemas, grupos e etapas que podem diferir dos brasileiros. O estudo de Shen (2025), por exemplo, acompanhou estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês; não é uma investigação sobre todas as experiências bilíngues possíveis no Brasil. Um professor pode adaptar a ideia de observar habilidades em mais de um momento, mas deve considerar as línguas, as condições e os critérios de sua própria escola.
Como um professor pode acompanhar trajetórias sem aplicar uma pesquisa longa?
Os estudos não prescrevem um instrumento simples para uso cotidiano do professor. Como aplicação pedagógica, é possível registrar evidências breves em momentos diferentes: produções, observações de participação ou respostas a atividades alinhadas ao que foi ensinado. O importante é definir o que se quer observar e comparar evidências pertinentes, sem confundir esse acompanhamento com um estudo científico. Uma conversa periódica com a equipe e, quando adequado, com a família pode contextualizar os registros. Se uma decisão envolver encaminhamentos ou necessidades específicas, siga os procedimentos e apoios da escola.
Referências
- Shen (2025). Importância relativa das habilidades de alfabetização inicial e das funções executivas no desempenho em leitura em inglês de estudantes bilíngues emergentes espanhol-inglês ao longo dos anos iniciais do ensino fundamental (Relative Importance of Early Literacy and Executive Function Skills on Spanish-English Emergent Bilinguals' English Reading Achievement across Primary Years). Journal of Educational Psychology. Link.
- Li (2026). Superando desafios iniciais de leitura: os papéis cruciais do ambiente familiar de letramento, do ambiente escolar e das abordagens de aprendizagem (Overcoming Early Reading Challenges: The Crucial Roles of Home Literacy Environment, School Environment, and Approaches to Learning). British Journal of Educational Psychology. Link.
- Greenfader (2025). Envolvimento das famílias latinas e resultados dos estudantes nos primeiros anos do ensino fundamental: evidências de dois bancos de dados nacionais (Latino Family Engagement and Student Outcomes in Early Elementary School: Evidence from Two National Datasets). Journal of Latinos and Education. Link.
- Hine (2025). Onde estão as famílias?: examinando as desigualdades na participação das famílias com dados representativos em âmbito nacional e análise de trajetórias (Where Are the Families?: Examining Family Engagement Inequities Using Nationally Representative Data and Path Analysis). Educational Review. Link.
- Curran (2026). Avaliações de professores sobre as habilidades em Ciências de estudantes multilíngues: reconhecendo habilidades para além do desempenho em testes padronizados (Teachers' Ratings of Multilingual Learners' Science Skills: Seeing Skills beyond Standardized Test Performance). Science Education. Link.
- Ansari (2025). As associações cumulativas, específicas ao momento e duradouras entre as relações entre estudantes e professores e os resultados nos primeiros anos do ensino fundamental (The Cumulative, Timing-Specific, and Enduring Associations between Student-Teacher Relationships and Early Elementary Outcomes). Child Development. Link.
- Morgan (2025). Disparidades raciais e étnicas na identificação de deficiências no contexto escolar (Racial and Ethnic Disparities in School-Based Disability Identification). Educational Researcher. Link.
- Gullo (2025). Comparando a Educação Infantil de Tempo Integral e de Meio Período Antes e Agora: O Que Os Dados de Duas Coortes do ECLS-K Revelam sobre Mudanças em Características Demográficas e nos Resultados das Crianças (Comparing Full-Day and Half-Day Kindergarten Then and Now: What Data from Two ECLS-K Cohorts Reveal about Changes in Demographics and Child Outcomes). Early Childhood Education Journal. Link.
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