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Ensino médio, superior e profissional: caminhos conectados, escolhas ainda desiguais

Estudos recentes mostram como a educação profissional pode se articular à continuidade dos estudos, sem eliminar diferenças entre percursos. Veja o que essas pesquisas sugerem para orientar escolhas e práticas na escola.

Ensino médio, superior e profissional: caminhos conectados, escolhas ainda desiguais

Ensino médio, ensino superior e educação profissional são etapas e percursos que podem se articular na formação do estudante. Pesquisas recentes indicam que qualificações profissionais não necessariamente restringem opções futuras, mas a progressão pode variar conforme o percurso realizado. Para professores, isso reforça a importância de apresentar diferentes possibilidades e apoiar escolhas informadas, sem tratar formação acadêmica e profissional como caminhos excludentes.

A ligação entre ensino médio, educação profissional e ensino superior importa porque as escolhas feitas em uma etapa podem abrir caminhos, mas também influenciar as opções percebidas pelos estudantes na etapa seguinte. Como esses percursos se articulam em diferentes sistemas? O que as pesquisas dizem sobre escolhas, transições e desigualdades? E como nós, professores, podemos ajudar a turma a enxergar possibilidades sem tratar uma rota como melhor que outra?

Estudos recentes oferecem respostas parciais e úteis. Eles mostram que a relação entre formação profissional e estudos posteriores depende de como os percursos são organizados, das metas e condições das escolas e das experiências que os jovens acumulam. A pesquisa não fornece uma receita única para a realidade brasileira, mas ajuda a formular boas perguntas para a orientação e o planejamento escolar.

O que é a relação entre ensino médio, ensino superior e educação profissional e por que importa para o professor?

Essa relação é o modo como a formação geral, a preparação para uma profissão e a continuidade dos estudos se conectam ao longo da trajetória do estudante. Na rotina escolar, ela aparece quando a turma conversa sobre o que estudar depois, quando uma atividade aproxima conteúdos de situações de trabalho ou quando a escola precisa explicar que diferentes percursos podem permitir novas aprendizagens e qualificações.

Educação profissional e ensino superior não são sinônimos nem cumprem necessariamente a mesma finalidade. A educação profissional pode preparar para atividades e ocupações, enquanto o ensino superior pode oferecer formação acadêmica ou profissional em níveis mais avançados. Os caminhos também não precisam ser entendidos como caixas fechadas: em alguns sistemas, a formação profissional pode se articular a estudos posteriores. A questão é como essa articulação funciona e se os estudantes conseguem acessá-la em condições justas.

Para professores da educação básica, o tema não se limita à escolha de curso no fim do ensino médio. Começa antes, quando alunos constroem interesses, identificam o que sabem fazer, conhecem áreas de estudo e formam expectativas sobre o futuro. A escola pode apoiar esse processo sem decidir pelo estudante e sem apresentar a universidade como destino obrigatório ou a formação profissional como alternativa de menor valor.

O que a pesquisa recente mostra sobre esses percursos?

Os estudos reunidos aqui não descrevem um único modelo de articulação. Eles investigam sistemas educacionais diferentes e abordam desde a organização institucional até os interesses dos adolescentes. Em conjunto, ajudam a perceber que a conexão entre etapas envolve tanto regras e qualificações quanto o modo como a escola orienta as escolhas.

A articulação depende de como cada sistema organiza os percursos

Uma análise documental comparou a educação e formação profissional da China e da Alemanha. Os autores partiram da diferença entre as finalidades e as lógicas da formação profissional e do ensino superior, observando que, diante de exigências crescentes de qualificação, sistemas educacionais têm buscado aproximar esses campos. Para comparar os dois casos, consideraram objetivos, organização, programas e sistema. A pesquisa discute consequências dessas mudanças para as finalidades da educação profissional e para a igualdade entre os percursos (Li, 2024).

Esse estudo é importante porque desloca a conversa de uma pergunta simples — “qual caminho é melhor?” — para questões de desenho institucional. Uma passagem entre modalidades depende de como os programas são estruturados e reconhecidos, não apenas da disposição individual do estudante. A comparação entre China e Alemanha também mostra que a aproximação entre formação profissional e ensino superior não acontece de uma só maneira. O resumo não apresenta uma solução universal que possa ser copiada sem considerar o contexto.

Uma análise de países da União Europeia examinou rendimentos e satisfação no trabalho de pessoas formadas em educação profissional. Os autores usaram duas definições de formação profissional, uma baseada no autorrelato e outra mais específica, que incorpora aprendizagem baseada no trabalho. A proporção de EFP de nível superior mudou de 73% para 32% quando se adotou a definição mais rigorosa. No conjunto da UE, os retornos das qualificações profissionais e acadêmicas foram comparáveis nos níveis médio, pós-secundário e superior; os prêmios salariais variaram entre países, e a formação profissional apresentou retornos mais elevados em pouco menos de um terço dos países da UE-28. Pessoas com formação profissional de nível superior relataram maior satisfação no trabalho (McGuinness, 2026).

Esses resultados não indicam que um percurso garanta determinado salário ou satisfação. Mostram que a resposta depende, entre outros aspectos, da definição usada para classificar a formação e do país observado. Para a escola, é um lembrete útil: apresentar opções com honestidade é melhor do que prometer retornos fixos ou hierarquizar trajetórias com base em ideias gerais sobre prestígio.

As escolhas são influenciadas por metas, experiências e oportunidades

Na Dinamarca, um estudo relacionou práticas de definição de metas pela liderança escolar às decisões dos estudantes sobre continuar os estudos. Os dados combinaram medições repetidas das atitudes e práticas de gestores de 819 escolas ao longo de quatro anos com registros administrativos. Os autores não encontraram relação entre metas de realização e decisões educacionais. Conforme as escolhas de modelagem, metas de liderança ligadas à transição apareceram associadas a um pequeno aumento da probabilidade de escolha do percurso acadêmico; metas de promoção da cidadania estiveram associadas a uma probabilidade ligeiramente maior de escolha profissionalizante (Smith, 2024).

O estudo também relata que metas relacionadas à transição moderam a relação entre o nível socioeconômico da escola e a probabilidade de os estudantes escolherem o percurso acadêmico. Isso não significa que a liderança determine a decisão de cada jovem. O achado sugere uma associação entre o modo como a escola formula prioridades e as escolhas observadas, dentro do sistema dinamarquês. Também é relevante que as associações descritas sejam pequenas e dependam das escolhas de modelagem.

Na Inglaterra, pesquisadoras investigaram a progressão para a educação pós-16 anos após reformas nas qualificações profissionais oferecidas na educação secundária. A análise usou dados nacionais para comparar estudantes com diferentes programas de estudo e qualificações profissionais antes dos 16 anos, observando se prosseguiam e quais percursos escolhiam. Os resultados sugerem que os percursos profissionais não restringem as opções dos estudantes, mas a progressão para a educação pós-16 foi afetada pela proporção de qualificações profissionais cursadas antes dos 16 anos. As autoras afirmam que são necessárias mais pesquisas para identificar as razões dessa associação, inclusive se ela pode refletir experiências anteriores com a educação profissional (Vidal Rodeiro, 2023).

Esse achado pede uma leitura cuidadosa. Ele não diz que mais qualificações profissionais causam uma determinada escolha, nem que os estudantes perdem opções. Ao contrário, o resumo afirma que os percursos profissionais não restringem as opções, enquanto identifica uma associação que precisa ser explicada. Para professores, a diferença entre causa e associação é essencial ao conversar com estudantes: experiências prévias podem se relacionar com escolhas futuras, mas não permitem prever o destino de uma pessoa.

Os interesses dos adolescentes podem conectar áreas e etapas

Uma pesquisa com adolescentes neerlandeses de 14 a 25 anos acompanhou interesses ao longo de três anos. Cada participante foi entrevistado três vezes; as entrevistas foram articuladas a registros feitos por aplicativo várias vezes ao dia durante semanas distribuídas pelo período. A análise identificou três processos: um interesse pode nascer de outro; diferentes interesses podem ser vividos simultaneamente ou conectados por habilidades e conhecimentos comuns; e interesses distintos podem ganhar sentido em relação uns aos outros. Os autores mostram que o desenvolvimento do interesse não é apenas aprofundar um único tema: também pode envolver ampliar e conectar interesses (Draijer, 2026).

Esse estudo não investiga diretamente a passagem entre ensino médio e universidade ou formação profissional. Sua contribuição para o tema é outra: ajuda a pensar como os jovens constroem interesses que podem orientar, mas não determinar, escolhas futuras. Um adolescente que se interessa por música e tecnologia, por exemplo, pode perceber relações entre esses campos. Essa possibilidade é uma ilustração, não um caso observado no estudo. A escola pode criar oportunidades para que os estudantes reconheçam conexões sem exigir que escolham cedo uma identidade profissional definitiva.

Uma obra sobre neurodiversidade acompanha experiências desde a educação infantil até o ensino superior, em diferentes contextos educacionais. Com base em relatos em primeira pessoa e reflexão especializada, defende uma abordagem sistêmica e inclusiva, centrada nas potencialidades e nos desafios vividos, em vez de reduzir a pessoa a um diagnóstico. O trabalho aborda barreiras que podem afetar o sucesso acadêmico e o desenvolvimento pessoal e destaca a importância do apoio e da compreensão nos ambientes educacionais (Wheeler, 2026).

Embora não seja uma avaliação específica das transições entre modalidades, essa perspectiva amplia a pergunta sobre acesso: não basta que um percurso esteja formalmente disponível se o estudante encontra barreiras para participar, aprender e desenvolver-se. A continuidade de estudos precisa ser pensada também em termos de acolhimento e resposta às necessidades diversas, desde a escola básica até etapas posteriores.

Os estudos lado a lado: o que cada pesquisa investigou?

A tabela resume o foco e os resultados relatados nos estudos citados. Os países e as etapas indicados são os que aparecem nos resumos; quando o contexto não é especificado, isso é sinalizado sem completar a informação por suposição.

EstudoO que investigouO que relataContexto
Li (2024)Terciarização e academicização da formação profissional, comparando objetivos, organização, programas e sistema.Analisa diferentes formas de aproximação entre formação profissional e ensino superior e discute consequências para finalidades e igualdade.China e Alemanha; análise documental.
Smith (2024)Relação entre metas de liderança escolar e escolhas de continuidade dos estudos.Não encontra relação com metas de realização; identifica associações pequenas entre certas metas e escolhas acadêmicas ou profissionalizantes.Dinamarca; 819 escolas; quatro anos de medições.
Vidal Rodeiro (2023)Progressão após os 16 anos segundo programas e qualificações profissionais cursados antes dessa idade.Relata que percursos profissionais não restringem opções, mas a progressão se relaciona à proporção de qualificações profissionais anteriores.Inglaterra; educação secundária e pós-16.
Draijer (2026)Como interesses de adolescentes se desenvolvem e se conectam ao longo do tempo.Identifica gênese de interesses, engajamento híbrido e construção conjunta de sentido.Países Baixos; 30 participantes de 14 a 25 anos; acompanhamento de três anos.
Wheeler (2026)Experiências educacionais de pessoas neurodivergentes ao longo da trajetória escolar.Defende uma abordagem sistêmica e inclusiva, atenta a apoios, barreiras, potencialidades e experiências vividas.Da educação infantil ao ensino superior; contextos diversos, sem país indicado no resumo.
McGuinness (2026)Rendimentos e satisfação no trabalho de pessoas formadas em educação profissional.Relata retornos comparáveis entre qualificações profissionais e acadêmicas em vários níveis na UE, com variação entre países, e maior satisfação entre formados em EFP superior.União Europeia; níveis médio, pós-secundário e superior.

Pontos em comum e divergências entre os estudos: o que ainda falta entender?

Em conjunto, os estudos sugerem que trajetórias escolares não podem ser explicadas apenas pelas características individuais dos estudantes. A organização dos percursos, as metas das escolas, as experiências anteriores e as condições de participação também entram na discussão. Li (2024) olha para estruturas de sistemas; Smith (2024) relaciona prioridades de liderança e escolhas; Vidal Rodeiro (2023) examina progressão após qualificações anteriores; e Wheeler (2026) chama atenção para apoios e barreiras que atravessam as etapas.

Há também uma convergência contra a ideia de que a formação profissional seja necessariamente um caminho sem continuidade. A pesquisa inglesa relata que os percursos profissionais não restringem opções, enquanto o estudo europeu encontra retornos comparáveis entre qualificações profissionais e acadêmicas em diferentes níveis. A comparação entre China e Alemanha, por sua vez, trata justamente das formas de articulação entre formação profissional e ensino superior. Isso não prova que todos os sistemas ofereçam as mesmas oportunidades: cada estudo observa contextos e perguntas distintos.

As diferenças importam. Os resultados sobre escolhas na Dinamarca descrevem associações, não efeitos garantidos da liderança sobre cada aluno. O estudo inglês encontra uma relação entre a proporção de qualificações anteriores e a progressão, mas deixa em aberto as razões. O trabalho sobre interesses investiga processos de desenvolvimento pessoal, não resultados de ingresso ou conclusão. Já a análise europeia trata de rendimentos e satisfação no trabalho, que não são medidas equivalentes a aprendizagem ou acesso educacional.

Continuam em aberto perguntas práticas: quais características de uma escola tornam as transições mais acessíveis? Como experiências em cursos profissionais influenciam decisões posteriores? Que apoios asseguram que estudantes neurodivergentes possam participar de diferentes percursos? E como as relações entre interesses e oportunidades variam segundo as condições sociais locais? Os resumos não permitem responder de forma completa a essas questões, mas ajudam a formulá-las com mais precisão.

O que isso significa para a sala de aula?

Os estudos não testaram as atividades abaixo como um pacote para professores brasileiros. São sugestões de aplicação inspiradas nas questões que levantam, para apoiar conversas e aprendizagens sem apresentar uma escolha como destino certo.

1. Trate as trajetórias como caminhos possíveis, não como uma escada única

Uma forma de usar isso em sala é propor que os estudantes comparem diferentes maneiras de continuar aprendendo depois da etapa atual. Imagine uma turma discutindo o que pode significar estudar uma área por meio de um curso profissional, de uma graduação ou de experiências formativas posteriores. O objetivo não é decidir qual opção vale mais, mas identificar quais perguntas ajudam a avaliar cada percurso: que conhecimentos desenvolve, que portas pode abrir e que outras formações podem vir depois? Essa atividade traduz para uma conversa escolar a questão da articulação entre sistemas analisada por Li (2024).

2. Separe informação de promessa quando falar de trabalho e renda

Uma forma de usar isso em sala é comparar afirmações sobre salário e satisfação no trabalho com perguntas sobre contexto e definição. Por exemplo: os dados falam de qual país? De que tipo de formação profissional? De qual nível? A pesquisa europeia mostra variação entre países e aponta que a forma de definir EFP altera a proporção observada. Por isso, não cabe transformar os resultados em promessa de que determinado curso garante emprego ou renda. O professor pode ajudar a turma a distinguir uma tendência coletiva de uma garantia individual, usando McGuinness (2026) como ponto de partida.

3. Faça perguntas que ajudem a turma a perceber os próprios interesses

Uma forma de usar isso em sala é propor um mapa de interesses feito oralmente ou com recursos acessíveis, sem exigir que cada estudante escolha uma profissão. Imagine que alguém mencione gostar de cuidar de plantas e também de resolver problemas com ferramentas. A turma pode explorar que conhecimentos aparecem nos dois interesses e que perguntas novas surgem. A conexão hipotética não deve virar diagnóstico vocacional. Ela serve para ampliar repertórios e reconhecer que os interesses podem se desenvolver em conjunto, como descreve Draijer (2026).

4. Apresente experiências profissionais sem fechar portas

Uma forma de usar isso em sala é analisar exemplos de qualificações e discutir que informações um estudante precisaria para saber como uma formação se conecta a estudos posteriores. Em uma turma de ensino médio, por exemplo, os grupos poderiam formular perguntas sobre continuidade, requisitos e reconhecimento de aprendizagens, consultando fontes locais confiáveis. A atividade não deve afirmar que um percurso específico terá determinada progressão. A pesquisa inglesa mostra que a relação entre qualificações anteriores e continuidade merece ser compreendida, mas não explica sozinha as razões da associação (Vidal Rodeiro, 2023).

5. Observe como a escola fala sobre escolhas

Uma forma de usar isso em sala é revisar, com colegas, as mensagens que chegam aos estudantes sobre futuro e continuidade. Imagine uma conversa em que a escola só fala de ingresso no ensino superior e quase nunca apresenta a formação profissional, ou o contrário. O grupo pode perguntar se as informações são equilibradas e se as metas da escola deixam espaço para diferentes projetos de vida. Smith (2024) encontrou associações pequenas e dependentes de escolhas analíticas entre certas metas de liderança e decisões estudantis na Dinamarca; isso inspira reflexão, mas não autoriza dizer que uma fala isolada determina uma escolha.

6. Planeje transições considerando apoios e barreiras

Uma forma de usar isso em sala é perguntar, antes de uma mudança de etapa, que apoios ajudam cada estudante a participar de atividades, compreender orientações e demonstrar o que aprendeu. Imagine uma turma que visita uma instituição de formação: a preparação pode incluir antecipar a rotina, explicar as etapas da visita de modo acessível e abrir espaço para diferentes formas de participação. São exemplos de aplicação, não resultados testados por Wheeler (2026). A obra reforça a importância de olhar para ambientes, barreiras e potencialidades, em vez de reduzir as necessidades de uma pessoa a um rótulo.

7. Ensine a turma a falar de associação sem concluir causa

Uma forma de usar isso em sala é apresentar uma afirmação como “estudantes com mais qualificações profissionais anteriores tiveram determinado padrão de progressão” e pedir que a turma liste outras explicações possíveis antes de concluir. O exercício pode ser feito com exemplos hipotéticos, sem atribuí-los a uma pesquisa. Essa prática ajuda a interpretar resultados sobre trajetórias com cuidado: observar uma relação não basta para afirmar que um fator provocou outro. A distinção é especialmente útil ao conversar sobre escolhas escolares e desigualdade.

O que muda no contexto brasileiro?

Os estudos citados tratam de contextos estrangeiros: China e Alemanha, Dinamarca, Inglaterra, Países Baixos e União Europeia. Eles não descrevem as regras brasileiras nem permitem concluir como funcionam, no Brasil, as passagens entre ensino médio, educação profissional e ensino superior. A utilidade está em oferecer perguntas de análise, não modelos prontos para importar.

Na prática brasileira, professores podem começar identificando quais opções existem de fato para os estudantes de sua comunidade e quais informações estão disponíveis sobre elas. A oferta, as condições de acesso e a organização dos percursos precisam ser verificadas em fontes brasileiras atualizadas e locais. Não se deve transferir para cá, por exemplo, a reforma inglesa mencionada por Vidal Rodeiro (2023), nem supor que as associações observadas na Dinamarca se repetiriam em escolas brasileiras.

Também é importante evitar a tradução automática de resultados econômicos europeus para decisões de carreira no Brasil. McGuinness (2026) registra variações de retornos entre países da UE, o que reforça que o contexto importa. Os resultados podem motivar uma conversa sobre como apresentar dados de trabalho e renda, mas não servem para prever remuneração ou satisfação de estudantes brasileiros.

O que pode ser aproveitado com mais segurança é a postura pedagógica: reconhecer diferentes percursos, buscar informações confiáveis sobre continuidade, abrir espaço para interesses variados e prestar atenção às barreiras de participação. Essas são sugestões de aplicação no Brasil, não conclusões empíricas dos estudos sobre escolas brasileiras. A decisão concreta sobre oferta, equivalência ou acesso deve ser apoiada em normas e dados nacionais pertinentes.

Quais são os limites desta leitura?

Esta síntese se baseia nos resumos de estudos recentes, não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, apresenta os objetivos e resultados que esses resumos informam, sem reconstruir detalhes metodológicos ou discutir evidências que não aparecem neles. Os estudos também tratam de perguntas, populações e contextos diferentes, então não devem ser lidos como uma única pesquisa comparativa nem como prova de que uma intervenção funcionará em qualquer escola.

Ficam em aberto, entre outras questões, os mecanismos por trás da associação entre qualificações profissionais anteriores e progressão na Inglaterra; as condições específicas que explicam diferenças entre percursos nos sistemas comparados; e como as relações observadas se manifestariam no Brasil. Também seria necessário examinar com mais profundidade como cada pesquisa define seus resultados e quais fatores considera. Para decidir uma política escolar, orientar uma escolha individual ou sustentar uma afirmação mais específica, faz sentido consultar os estudos completos e fontes brasileiras adequadas.

Como o GeraProva ajuda com este assunto?

Uma conversa sobre trajetórias pode ser acompanhada por atividades que ajudem a turma a comparar informações, formular perguntas e justificar escolhas sem transformar a avaliação em previsão de futuro. O gerador de provas do GeraProva pode apoiar a criação de questões e atividades de verificação de aprendizagem sobre esses temas; para conhecer a plataforma, você pode fazer o cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre ensino médio, superior e educação profissional

A educação profissional impede o estudante de seguir para o ensino superior?

Os estudos reunidos não sustentam essa conclusão como regra. A pesquisa sobre progressão na Inglaterra relata que percursos profissionais não restringem as opções dos estudantes, embora identifique uma associação entre a proporção de qualificações profissionais cursadas antes dos 16 anos e a progressão posterior. As razões dessa associação ainda precisam de investigação. O estudo comparativo entre China e Alemanha também examina maneiras de articular formação profissional e ensino superior. Para o contexto brasileiro, é necessário verificar as opções e regras vigentes em cada percurso, sem generalizar resultados estrangeiros.

Um percurso profissional pode levar a estudos de nível superior?

Os estudos indicam que a articulação é possível em alguns sistemas, mas não descrevem uma rota única aplicável a todos os países. Li (2024) analisa como China e Alemanha aproximam a educação profissional do ensino superior, enquanto McGuinness (2026) considera qualificações profissionais em níveis médio, pós-secundário e superior na União Europeia. Esses trabalhos mostram que a organização institucional faz diferença. Para orientar um estudante no Brasil, o professor deve buscar informação atualizada sobre os cursos, os requisitos de continuidade e as possibilidades efetivamente disponíveis na região.

Como conversar com os alunos sem desvalorizar nenhum caminho?

Uma forma de aplicação é apresentar mais de uma possibilidade de aprendizagem e comparar o que cada uma oferece, em vez de organizar os percursos por prestígio. Perguntas sobre conteúdos, experiências práticas, continuidade e condições de acesso podem ajudar os estudantes a avaliar alternativas. A pesquisa de Smith (2024), feita na Dinamarca, sugere que algumas metas escolares se associam a escolhas, embora as relações relatadas sejam pequenas e dependam da modelagem. Isso não prova que uma conversa determine a decisão. Serve como motivo para observar com cuidado que mensagens a escola transmite.

Os interesses dos adolescentes já indicam uma profissão?

Não necessariamente. O estudo neerlandês de Draijer (2026) mostra que interesses podem surgir uns dos outros, ocorrer em paralelo ou adquirir sentido em conjunto. Isso amplia a compreensão de como os jovens exploram temas, mas não transforma um interesse em previsão de carreira. Em sala, uma aplicação possível é ajudar a turma a identificar conhecimentos e perguntas que conectam diferentes atividades de que gosta. O professor pode apoiar a exploração sem pressionar o estudante a escolher cedo uma profissão ou tratar uma preferência atual como definitiva.

O que a pesquisa europeia diz sobre salário e satisfação na formação profissional?

McGuinness (2026) relata que, no conjunto da União Europeia, os retornos das qualificações profissionais e acadêmicas são comparáveis nos níveis médio, pós-secundário e superior. Os prêmios salariais variam entre países, e a formação profissional tem retornos mais elevados em pouco menos de um terço dos países da UE-28. O estudo também relata maior satisfação no trabalho entre pessoas formadas em EFP de nível superior. Esses resultados não são garantias individuais nem podem ser transferidos diretamente ao Brasil: contexto e definição de formação profissional fazem diferença.

Como incluir estudantes neurodivergentes nas conversas sobre continuidade?

Uma aplicação possível é planejar a orientação com atenção a diferentes formas de comunicação, participação e acesso às informações, perguntando quais apoios tornam a conversa mais compreensível e acolhedora. Wheeler (2026) aborda experiências neurodivergentes desde a educação infantil até o ensino superior e defende uma perspectiva sistêmica, centrada tanto em potencialidades quanto em barreiras. O trabalho não fornece uma receita única para cada estudante. A equipe escolar pode evitar reduzir a pessoa ao diagnóstico e considerar suas necessidades e preferências ao organizar informações sobre percursos e transições.

Referências

  1. Li, Junmin; Schmees, Johannes K.; Tang, Hui; Frommberger, Dietmar (2024). Terciarização e academicização da educação e formação profissional na China e na Alemanha (Tertiarization and Academization of Vocational Education and Training in China and Germany). International Journal of Training Research. Link.
  2. Smith, Emil; Gümüs, Sedat; Reimer, David (2024). Liderança escolar e decisões dos estudantes sobre a continuidade dos estudos: explorando os papéis da definição de metas e da composição socioeconômica da escola (School Leadership and Students' Decisions about Further Education: Exploring the Roles of Goal Setting and School Socioeconomic Composition). School Effectiveness and School Improvement. Link.
  3. Vidal Rodeiro, Carmen; Vitello, Sylvia (2023). Progressão para a educação pós-16 anos na Inglaterra: o papel das qualificações profissionais (Progression to Post-16 Education in England: The Role of Vocational Qualifications). Research Papers in Education. Link.
  4. Draijer, Jael; Bronkhorst, Larike; Akkerman, Sanne (2026). Desenvolvimento entrelaçado dos interesses dos adolescentes (Intertwined Development of Adolescents' Interest Pursuits). Journal of Adolescent Research. Link.
  5. Wheeler, Lucie (2026). Neurodiversidade ao longo da trajetória escolar: experiências vividas, pesquisa e prática. Emerald Points (Neurodiversity through the Educational Years: Lived Experiences, Research and Practice. Emerald Points). Emerald Publishing Limited. Link.
  6. McGuinness, Seamus; Kelly, Lorcan; Devlin, Anne; Whelan, Adele (2026). Educação Profissional, Rendimentos e Satisfação no Trabalho na Europa (Vocational Education, Earnings and Job Satisfaction in Europe). Education Economics. Link.

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