Disciplina escolar e apoio positivo: por que regras iguais podem não ser justas
Pesquisas recentes mostram que apoios positivos podem se associar a menos suspensões e contenções, mas também alertam: regras universais podem criar barreiras. Veja como transformar essa evidência em decisões mais inclusivas na escola.
Como manter a segurança e os combinados da turma sem transformar diferenças de comportamento em punição para alunos com deficiência? A resposta curta: ensine expectativas, ofereça apoios e investigue as barreiras antes de punir. Pesquisas recentes indicam que esse trabalho precisa envolver a escola toda e ser revisto com atenção à equidade.
Isso não significa ignorar comportamentos que prejudicam a aprendizagem ou colocam alguém em risco. Significa olhar além do episódio: o que aconteceu antes, que apoio estava disponível e se a regra exige de alguns estudantes um esforço que não foi considerado? A seguir, reunimos achados de estudos recentes e separamos com clareza o que eles encontraram das aplicações possíveis na escola brasileira.
O que é disciplina escolar e apoio ao comportamento positivo para alunos com deficiência e por que importa para o professor
Disciplina escolar é o conjunto de práticas usadas para ensinar, orientar e responder a comportamentos na escola. O apoio ao comportamento positivo acrescenta uma ênfase importante: em vez de depender principalmente de punições depois de um problema, a escola define e ensina expectativas, organiza apoios e procura prevenir situações difíceis. Para alunos com deficiência, isso exige perguntar se as expectativas são acessíveis e se os apoios correspondem às necessidades de cada estudante.
Na rotina, o tema aparece em momentos comuns: transições, trabalho em grupo, espera pela vez, mudanças de atividade e respostas a conflitos. Uma regra como “acompanhar a turma” pode parecer simples, mas estudantes podem precisar de instruções mais explícitas, tempo, previsibilidade ou outras formas de participação. Isso não é uma recomendação específica dos estudos apresentados; é uma aplicação possível do alerta de que barreiras e expectativas precisam ser examinadas.
O assunto importa porque medidas disciplinares excludentes, como suspensões, afastam o estudante das atividades e podem se somar a experiências de menor pertencimento e engajamento. As pesquisas reunidas não oferecem uma fórmula única. Elas mostram que práticas escolares, formação profissional, cultura institucional, políticas e participação da comunidade podem influenciar as respostas ao comportamento.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos apontam uma conclusão prática: apoio positivo não é apenas uma lista de regras ou recompensas. A forma de definir expectativas, a fidelidade e a abrangência da implementação e a atenção às barreiras para estudantes com deficiência fazem diferença. Os achados, porém, vêm de contextos diferentes e não autorizam transferir automaticamente uma política de outro país para uma escola brasileira.
Implementar apoios em vários níveis pode estar associado a menos exclusão
O SWPBIS é um modelo de apoio comportamental positivo organizado em níveis. No estudo de Fleming e colegas, pesquisadores compararam escolas que implementavam com fidelidade vários níveis do modelo com escolas que implementavam com fidelidade apenas o Nível 1. A análise incluiu 558 escolas em 113 distritos da Califórnia, nos Estados Unidos. Para estudantes com deficiência, os resultados indicaram redução estatisticamente significativa em diversas categorias de suspensão fora da escola e nos encaminhamentos à polícia nas escolas que implementaram todos os níveis com fidelidade (Fleming, 2024).
Esse resultado destaca duas ideias, sem provar que qualquer escola terá o mesmo efeito. Primeiro, um apoio universal pode não bastar para todos: o modelo em níveis prevê respostas adicionais para necessidades diferentes. Segundo, a fidelidade de implementação foi central na comparação. Em termos de planejamento, isso convida a olhar não só para a existência de um programa, mas para como seus diferentes componentes são colocados em prática.
Um estudo de caso descritivo de dois anos em um contexto de educação alternativa também examinou suportes universais baseados em PBIS. Esse tipo de educação atende estudantes com necessidades socioemocionais e comportamentais significativas e enfrenta desafios de equipe, formação e recursos. Ao longo do caso, houve redução no uso de contenção física e isolamento pela equipe, e a equipe percebeu o referencial de forma favorável. Os autores também descreveram adaptações para uma população discente heterogênea e para o contexto da pandemia de COVID-19 (Minkos, 2023).
Os dois estudos não são equivalentes: Fleming analisou uma amostra ampla de escolas e medidas disciplinares; Minkos apresentou um caso situado. Juntos, ajudam a pensar em implementação como trabalho continuado, com apoio e adaptação, e não como a simples adoção de um conjunto de regras.
Prevenção exige rever as expectativas e as barreiras
Um alerta importante vem de uma análise australiana sobre práticas universais do SWPBS. Poed e Fox argumentam que ensinar comportamentos esperados é apenas parte da solução. As escolas também precisam examinar as condições que criam barreiras para estudantes com deficiência. Ao analisar matrizes australianas de SWPBS, os autores identificaram capacitismo estrutural em algumas formulações de comportamentos esperados, que exigiam maior esforço de estudantes com deficiência para alcançar o padrão definido (Poed, 2023).
Esse argumento muda a pergunta de “como fazer o estudante se adequar?” para “como definimos a expectativa e que obstáculos criamos?”. Isso não significa que todo combinado seja injusto, nem que expectativas devam desaparecer. Significa que uma regra pode parecer neutra e, na prática, pedir respostas muito diferentes de estudantes diferentes. Os autores defendem que escolas reconheçam e removam o capacitismo das práticas de Nível 1.
Na Austrália, Sexton e colegas estudaram a implementação de uma política obrigatória de contenção e isolamento em escolas públicas do estado de Victoria. Entrevistaram oito gestores de seis escolas, com foco em crianças com deficiência em idade de frequentar o ensino fundamental. A política era valorizada, mas considerada complexa; cultura escolar, concepções dos educadores, compreensão do comportamento e ambiente físico influenciavam sua implementação. Os gestores apontaram abordagens proativas e holísticas para prevenir comportamentos desafiadores como a maneira mais eficaz de reduzir contenção e isolamento (Sexton, 2024).
O estudo também relata que a notificação era obrigatória, mas podia ser trabalhosa e percebida como marcada por julgamentos. Os gestores consideraram importante tornar a política acessível e oferecer desenvolvimento profissional sobre política, comportamento e deficiência. A lição para a prática não é importar a política australiana: é perceber que uma regra formal, por si só, não garante aplicação consistente ou prevenção.
Equidade depende de quem participa e de como a escola interpreta o comportamento
Romano investigou como educadores do ensino médio utilizavam práticas de gestão da sala e avaliação para valorizar as identidades dos estudantes. O estudo qualitativo reuniu cinco grupos focais com 25 educadores. Seu ponto de partida é a preocupação com disparidades disciplinares relacionadas à raça e à condição de deficiência e com o papel que as abordagens docentes podem desempenhar. O estudo apresenta resultados sobre as práticas dos educadores e discute recomendações para pesquisas e práticas futuras (Romano, 2024).
O resumo não descreve resultados específicos que permitam afirmar quais práticas foram mais eficazes. Ainda assim, a investigação coloca uma questão útil para equipes escolares: como a gestão da turma e a avaliação das próprias práticas reconhecem as identidades dos estudantes? Uma escola pode transformar essa pergunta em discussão coletiva, sem atribuir ao estudo uma receita que ele não apresenta.
Em uma escola secundária rural que atendia estudantes de 12 municípios e de uma reserva indígena americana, Yoo e colegas estudaram o Indigenous Learning Lab, uma intervenção de codesign participativo. Estudantes, famílias, educadores, parceiros tribais e pesquisadores participaram de sessões de implementação. Os achados indicam que a reflexão e a ação coletivas ajudaram a concretizar princípios de dignidade, equidade e indigeneidade em práticas locais, enfrentar contradições sistêmicas e ressignificar a disciplina como construção de comunidade, em vez de exclusão (Yoo, 2026).
O estudo situa-se nos Estados Unidos e trata de uma comunidade indígena específica; não oferece um modelo pronto para o Brasil. Seu destaque está no processo: a comunidade refinou o sistema por meio de diálogo e experimentos de design. Os autores apresentam a mudança como compromisso sustentado, não como intervenção pontual, e defendem confiança relacional, agência da comunidade escolar e reflexão crítica.
Formação, pertencimento e exclusão precisam ser considerados juntos
Cramer e colegas examinaram percepções de 112 professores dos Estados Unidos sobre conhecimento e formação para o uso de contenção física com estudantes com deficiência. O resumo relata associações estatisticamente significativas entre percepções e variáveis como localização da escola e função docente. Os autores recomendam mais formação sobre contenção, suas questões e preocupações, especialmente para professores da educação regular e profissionais de áreas rurais, além de apoio equitativo por parte dos gestores (Cramer, 2026).
O estudo parte de preocupações sobre acesso à educação e lesões associadas à contenção, e assinala que os esforços para eliminar seu uso foram ineficazes. Isso torna a formação parte de uma conversa maior: conhecer procedimentos não substitui estratégias preventivas, supervisão e apoio institucional. A pesquisa é dos Estados Unidos, portanto suas recomendações específicas não definem exigências brasileiras.
Com dados do U.S. High School Longitudinal Study de 2009, Cunningham e colegas examinaram educação especial, suspensão interna, pertencimento e engajamento. Estudantes que recebiam atendimento de educação especial apresentavam maior risco de suspensão interna do que colegas da educação regular. Níveis mais elevados de engajamento escolar estavam associados a menor risco de suspensão interna, independentemente do atendimento de educação especial (Cunningham, 2026).
Um resultado merece cuidado: níveis mais elevados de pertencimento foram associados a mais suspensões entre estudantes que recebiam educação especial, enquanto a relação inversa ocorreu entre estudantes que não recebiam esse atendimento. Os autores dizem que são necessárias pesquisas adicionais para entender essa relação singular e suas implicações. Portanto, não cabe concluir que pertencimento provoque suspensão ou que seja prejudicial. O achado pede investigação, não uma interpretação apressada.
Por fim, Whitehouse analisou entrevistas com profissionais da educação e pais de crianças excluídas de escolas primárias na região de West Midlands, na Inglaterra. O estudo discute mecanismos de exclusão ilegal de crianças com necessidades educacionais especiais e deficiências, também chamada de off-rolling. As entrevistas são interpretadas pelas lentes do childismo e da ética do cuidado; o artigo apresenta a exclusão como problema sistêmico, relacionado a pressões de competição, desempenho acadêmico e responsabilização de alto impacto (Whitehouse, 2026).
O contexto inglês e suas regras não são os brasileiros. O valor do estudo para a reflexão está em mostrar como discursos de cuidado podem coexistir com marginalização. Isso reforça a necessidade de olhar para os efeitos concretos das decisões e para a participação do estudante e de sua família, em vez de presumir que afastar alguém seja necessariamente uma resposta protetiva.
Os estudos lado a lado
Os estudos abaixo tratam de abordagens diferentes e não devem ser comparados como se usassem a mesma medida. A tabela resume o que cada resumo informa sobre investigação, achados e contexto.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Fleming, 2024 | Fidelidade de implementação de níveis do SWPBIS e medidas disciplinares excludentes para estudantes com deficiência. | Implementação fiel de vários níveis associou-se a redução significativa em várias categorias de suspensão fora da escola e encaminhamentos à polícia. | 558 escolas em 113 distritos da Califórnia, Estados Unidos. |
| Minkos, 2023 | Implementação de suportes universais PBIS em educação alternativa por dois anos. | Redução observada em contenção física e isolamento; equipe percebeu o referencial favoravelmente. | Contexto de educação alternativa; país não informado no resumo; período da pandemia de COVID-19 incluído. |
| Poed, 2023 | Capacitismo em práticas universais de Nível 1 do SWPBS. | Aponta barreiras e formulações de expectativas que podem exigir esforço maior de estudantes com deficiência. | Austrália; análise de matrizes de SWPBS. |
| Sexton, 2024 | Compreensão e implementação de política de contenção e isolamento. | Política valorizada, mas complexa; cultura, concepções, compreensão e ambiente influenciam sua aplicação. | Seis escolas públicas de Victoria, Austrália; oito gestores; ensino fundamental. |
| Romano, 2024 | Práticas de gestão e avaliação que valorizam identidades de estudantes. | Estudo qualitativo que apresenta resultados e discute recomendações futuras, sem resultado específico detalhado no resumo. | Ensino médio; cinco grupos focais e 25 educadores; país não informado no resumo. |
| Yoo, 2026 | Codesign comunitário de um sistema de apoio comportamental culturalmente responsivo. | Reflexão coletiva concretizou princípios locais, enfrentou contradições e ressignificou disciplina como construção de comunidade. | Escola secundária rural nos Estados Unidos, com estudantes indígenas americanos e parceiros tribais. |
| Cramer, 2026 | Percepções de professores sobre conhecimento e formação para contenção física. | Percepções associadas a localização e função docente; autores recomendam mais formação e apoio equitativo. | 112 professores dos Estados Unidos. |
| Cunningham, 2026 | Relação entre educação especial, suspensão interna, pertencimento e engajamento. | Maior risco de suspensão interna para estudantes atendidos pela educação especial; maior engajamento associado a menor risco. | Dados do U.S. High School Longitudinal Study de 2009. |
| Whitehouse, 2026 | Mecanismos de exclusão ilegal de crianças com necessidades educacionais especiais e deficiências. | Discute exclusão como problema sistêmico e a instrumentalização do cuidado para justificar marginalização. | Entrevistas com profissionais e pais em West Midlands, Inglaterra; escolas primárias. |
Pontos em comum e divergências entre os estudos
Um ponto comum é que a resposta ao comportamento não depende apenas do estudante. Fleming, Sexton, Poed e Yoo colocam em foco a implementação, as condições escolares, as expectativas ou a participação da comunidade. Esses estudos, por caminhos distintos, ajudam a deslocar a análise do episódio isolado para o sistema em que ele acontece.
Outro ponto de aproximação é a importância da prevenção e do apoio. Fleming encontrou resultados favoráveis associados à implementação fiel de vários níveis do SWPBIS; Minkos relata redução de procedimentos de contenção e isolamento durante um caso de suportes universais; Sexton relata que gestores viam abordagens proativas e holísticas como mais eficazes para reduzir contenção e isolamento. Contudo, os desenhos e contextos variam, então esses resultados não provam que uma intervenção única funcione da mesma forma em toda escola.
Há também uma tensão importante: um sistema universal pode oferecer linguagem compartilhada, mas as expectativas universais podem criar barreiras se não forem examinadas. Poed destaca o risco de capacitismo em matrizes de comportamento; Yoo descreve um processo local de codesign e reflexão; Romano investiga como as práticas valorizam identidades. A concordância está na necessidade de olhar criticamente para as práticas, não em uma fórmula comum de implementação.
Os resultados sobre pertencimento, por sua vez, não se encaixam em uma leitura simples. Cunningham encontrou relações distintas entre pertencimento e suspensão interna conforme o atendimento de educação especial. Esse resultado ainda não está resolvido. Também faltam respostas sobre como combinar prevenção, apoio individual, participação familiar e segurança, e sobre como essas relações se manifestam no Brasil.
O que isso significa para a sala de aula
Os estudos não prescrevem um roteiro brasileiro de sala de aula. As ideias a seguir são aplicações possíveis, inspiradas nos temas que eles investigam, e precisam ser ajustadas às necessidades do estudante, às regras locais e ao trabalho coletivo da escola.
1. Ensine os combinados, em vez de presumir que todos já os conhecem
Aplicação possível: escolha uma expectativa concreta, explique o que ela significa em diferentes situações e permita que a turma pratique. Em uma turma hipotética de 7º ano, “participar do trabalho em grupo” pode ser explicitado como contribuir falando, apontando, organizando materiais ou usando outra forma de comunicação. Essa adaptação não é um resultado testado nos estudos citados; ela aplica o alerta de Poed para que as expectativas não imponham barreiras desnecessárias.
2. Pergunte que barreira pode estar por trás do episódio
Aplicação possível: depois de uma situação difícil, registre o contexto de modo objetivo: atividade, transição, instrução, tempo de espera e apoio disponível. Em uma turma hipotética, se um estudante deixa o espaço durante uma mudança de atividade, a equipe pode verificar se a transição foi sinalizada e compreendida antes de interpretar a saída apenas como desobediência. É uma forma de investigar condições, coerente com a atenção às barreiras defendida por Poed.
3. Diferencie apoio universal de apoio adicional
Aplicação possível: mantenha orientações compreensíveis para toda a turma e combine, quando necessário, apoios individualizados. Em uma situação hipotética, todos recebem uma instrução breve antes da atividade, enquanto um estudante também combina com o professor uma forma de pedir pausa. A ideia dialoga com o modelo em níveis estudado por Fleming, mas não significa copiar um programa completo sem planejamento ou formação.
4. Reavalie se a resposta mantém o estudante aprendendo
Aplicação possível: antes de decidir por afastamento, considere que atividade de aprendizagem será interrompida, como manter o vínculo e qual alternativa pode restaurar a segurança. Por exemplo, depois de um conflito hipotético, professor e estudante podem conversar em momento apropriado, com apoio da equipe, sobre o que ocorreu e como retomar a participação. Isso não elimina a necessidade de respostas proporcionais a situações de risco; apenas pede que a exclusão não seja automática.
5. Use registros para aprender, não apenas para contar ocorrências
Aplicação possível: em reuniões de equipe, observe padrões por atividade, horário, tipo de resposta e apoios oferecidos. Em vez de olhar só para quantas ocorrências foram registradas, perguntem se certos estudantes estão sendo encaminhados mais vezes e em quais condições. Essa proposta é uma aplicação da preocupação de Fleming com resultados disciplinares e do debate de Romano sobre gestão e avaliação; os estudos não validaram esse formato específico de registro.
6. Inclua estudante e família na revisão dos apoios
Aplicação possível: pergunte ao estudante o que torna uma atividade mais acessível e convide a família a compartilhar informações relevantes, respeitando os canais e responsabilidades da escola. Em um exemplo hipotético, uma equipe pode rever junto com a família como antecipar mudanças de rotina. Essa participação conversa com o codesign comunitário estudado por Yoo, mas deve ser construída de modo adequado à realidade de cada comunidade, sem presumir que todas as famílias possam participar da mesma maneira.
7. Trate a formação como parte do sistema de apoio
Aplicação possível: professores e gestores podem revisar procedimentos da escola, conversar sobre prevenção e esclarecer a quem recorrer diante de situações de risco. Se a equipe não sabe como agir ou registrar uma ocorrência, o problema não se resolve apenas cobrando que cada docente decida sozinho. Essa aplicação se aproxima das recomendações de formação e apoio institucional descritas por Sexton e Cramer, sem substituir as normas brasileiras aplicáveis.
O que muda no contexto brasileiro
Os estudos citados foram realizados principalmente nos Estados Unidos, na Austrália e na Inglaterra. Eles tratam de estruturas, políticas, programas e realidades sociais específicas desses lugares. O SWPBIS, as regras australianas de contenção e isolamento, os dados escolares norte-americanos e as condições de responsabilização inglesas não devem ser apresentados como políticas brasileiras nem aplicados automaticamente à nossa escola.
O que pode ser aproveitado com cautela são as perguntas de análise: as expectativas são acessíveis? A escola ensina o comportamento esperado? Existem barreiras criadas pelo ambiente ou pela organização da atividade? A resposta preserva a segurança e a possibilidade de aprender? Os apoios estão sendo aplicados com consistência? Alunos com deficiência e suas famílias são ouvidos? Essas perguntas não dependem de importar um programa estrangeiro, embora a forma de respondê-las precise respeitar as normas, os serviços e os recursos disponíveis localmente.
Também é importante não reduzir deficiência a comportamento. Uma dificuldade de participação pode exigir ajustes pedagógicos, comunicação acessível ou apoio especializado; uma resposta punitiva, sozinha, não revela o que o estudante precisava. Ao mesmo tempo, apoio positivo não significa ausência de limites ou de cuidado com a segurança de todos. A equipe precisa considerar as necessidades do estudante, o contexto e as orientações institucionais, com decisões documentadas e diálogo entre os profissionais responsáveis.
Para uma escola brasileira, uma forma prudente de começar é examinar uma rotina concreta em vez de anunciar uma reforma ampla. A equipe pode escolher um tipo de situação recorrente, ouvir os envolvidos, observar quais condições aparecem antes dela e revisar se as expectativas estão claras e acessíveis. Essa é uma sugestão de aplicação, não uma conclusão experimental dos estudos. O princípio é aprender com evidências sem fingir que os contextos internacionais são idênticos ao nosso.
Limites desta leitura
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados pelo ERIC, e não na leitura integral dos artigos. Os resumos informam objetivos, métodos gerais e achados principais, mas nem sempre detalham instrumentos, definições, análises ou limitações. Por isso, o texto apresenta os resultados no nível que os resumos permitem e não afirma que eles provam relações causais além do que foi relatado.
Ficam em aberto perguntas relevantes: quais componentes de apoios em níveis são mais decisivos para reduzir exclusões? Como reconhecer e corrigir expectativas capacitistas em diferentes etapas de ensino? Como adaptar práticas preventivas às escolas brasileiras sem transplantar políticas de outros países? E como compreender a relação inesperada entre pertencimento e suspensão interna encontrada por Cunningham? Para decisões institucionais, formação de equipe ou revisão de protocolos, faz sentido consultar os estudos completos e as normas aplicáveis, além de considerar a realidade da própria comunidade escolar.
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Perguntas frequentes
Apoio ao comportamento positivo significa deixar de estabelecer limites?
Não. Os estudos apresentados tratam de prevenção, ensino de expectativas, apoio e revisão das condições escolares; não defendem ausência de limites. O ponto é evitar que a resposta se restrinja à punição ou ao afastamento, sem examinar o contexto e as barreiras. O estudo australiano sobre contenção relata que gestores valorizavam abordagens proativas e holísticas para prevenir situações desafiadoras, enquanto a pesquisa sobre SWPBIS identifica a importância de implementar diferentes níveis de apoio. Na prática, os limites precisam ser claros e compatíveis com a segurança, e os apoios devem ser considerados antes de interpretar toda dificuldade como recusa deliberada.
O apoio universal é suficiente para estudantes com deficiência?
Os estudos não indicam que uma única resposta universal seja suficiente para todos. Fleming comparou escolas que implementavam vários níveis do SWPBIS com escolas que implementavam fielmente apenas o Nível 1; a implementação de vários níveis esteve associada a reduções em diversas categorias de suspensão fora da escola e em encaminhamentos à polícia para estudantes com deficiência. Isso apoia a atenção a diferentes níveis de necessidade, mas não permite concluir que o mesmo desenho terá igual resultado em qualquer escola. A aplicação precisa considerar as necessidades dos estudantes, a capacidade da equipe e a qualidade da implementação.
Regras iguais para todos podem ser injustas?
Podem criar barreiras se exigirem respostas que alguns estudantes não conseguem oferecer da mesma maneira ou com o mesmo esforço. Poed e Fox analisaram matrizes australianas de SWPBS e apontaram capacitismo estrutural em algumas formulações de comportamentos esperados. O argumento não é abandonar regras comuns, mas examinar como elas são definidas, ensinadas e aplicadas. Uma expectativa pode admitir diferentes formas de participação e ainda preservar o propósito pedagógico. Essa revisão é especialmente importante quando determinados estudantes aparecem de forma recorrente nos registros disciplinares ou quando a regra não foi ensinada de forma acessível.
Os estudos provam que apoio positivo reduz suspensão em qualquer escola?
Não. Fleming encontrou reduções significativas em determinadas medidas disciplinares em escolas da Califórnia que implementavam com fidelidade vários níveis do SWPBIS. Minkos relata redução de contenção e isolamento em um estudo de caso de educação alternativa. São desenhos e contextos diferentes, e nenhum resumo autoriza prometer o mesmo resultado em toda escola. Também não se deve confundir associação com garantia de causalidade ou de replicação. Os achados servem para orientar perguntas sobre implementação, prevenção e apoios, mas uma escola precisa avaliar suas próprias condições e verificar se as práticas são adequadas aos estudantes que atende.
O que fazer quando há risco de contenção física ou isolamento?
Os estudos não fornecem um protocolo brasileiro para uma situação específica, e este artigo não substitui as orientações legais e institucionais aplicáveis. Sexton relata que gestores de escolas públicas de Victoria valorizavam a política de contenção e isolamento, mas a consideravam complexa; também destacavam a necessidade de desenvolvimento profissional. Cramer relata associações entre percepções docentes, função e localização da escola, e recomenda mais formação e apoio equitativo. Como aplicação prudente, a escola deve conhecer seus procedimentos, garantir que a equipe saiba a quem recorrer e investir em prevenção. Para orientar condutas concretas, consulte as normas e profissionais responsáveis.
O pertencimento escolar sempre protege contra medidas disciplinares?
Não é possível afirmar isso com base nos estudos apresentados. Cunningham e colegas encontraram que estudantes com níveis mais elevados de engajamento tinham menor risco de suspensão interna, independentemente de receberem atendimento de educação especial. Já a relação entre pertencimento e suspensão interna variou: pertencimento mais elevado foi associado a mais suspensões entre estudantes atendidos pela educação especial, enquanto o inverso ocorreu entre os demais. Os autores dizem que são necessárias pesquisas adicionais para entender essa relação. O resultado não deve ser lido como prova de que pertencimento cause suspensão; ele mostra que relações entre experiência escolar e disciplina podem ser complexas.
Referências
- Fleming, Jesse I.; Grasley-Boy, Nicolette M.; Gage, Nicholas A.; Lombardo, Michael; Anderson, Lucas (2024). Efeitos da fidelidade de implementação dos diferentes níveis do SWPBIS nos resultados de medidas disciplinares excludentes para estudantes com deficiência: uma replicação conceitual (Effects of Tiered SWPBIS Fidelity on Exclusionary Discipline Outcomes for Students with Disabilities: A Conceptual Replication). Journal of Positive Behavior Interventions. Link.
- Minkos, Marlena L.; Winter, Emily L.; Trudel, Sierra M. (2023). Adaptação de Suportes Comportamentais Universais em um Contexto de Educação Alternativa (Adaptation of Universal Behavioral Supports within an Alternative Education Setting). Journal of Special Education. Link.
- Poed, Shiralee; Fox, Russell A. (2023). Identificando e removendo o capacitismo das práticas de apoio comportamental positivo em toda a escola no Nível 1 (Identifying and Removing Ableism from Tier 1 School-Wide Positive Behaviour Support Practices). International Journal of Developmental Disabilities. Link.
- Sexton, Georgia; Brown, Cherylee; Joosten, Annette; Hayward, Brent (2024). Explorando a implementação da política escolar de contenção e isolamento de estudantes com deficiência nas escolas australianas (Exploring the Implementation of the Restraint and Seclusion School Policy with Students with Disability in Australian Schools). International Journal of Inclusive Education. Link.
- Romano, Lindsay E. (2024). Avaliação para a equidade: como educadores do ensino médio utilizam práticas de gestão da sala de aula e de avaliação para valorizar as identidades dos estudantes (Assessment for Equity: Exploring How Secondary Educators Utilize Classroom Management and Assessment Practices to Sustain Student Identities). Assessment for Effective Intervention. Link.
- Yoo, Jahyun; Bal, Aydin; Mawene, Dian (2026). Criação de Futuros Inclusivos por meio de Práxis Crítica de Implementação para Enfrentar a Desproporcionalidade Racial na Disciplina Escolar (Inclusive Future Making through Critical Implementation Praxis to Address Racial Disproportionality in School Discipline). Teachers College Record. Link.
- Cramer, Allie M.; Barnard-Brak, Lucy; Watkins, Laci (2026). Percepções de professores sobre conhecimento e formação para o uso de contenção física em contextos escolares (Teacher Perceptions of Knowledge and Training on the Use of Physical Restraint in School Settings). Behavioral Disorders. Link.
- Cunningham, Mary C.; McDermott, Logan; Cruz, Rebecca A. (2026). Eu ainda pertenço? A relação entre educação especial, suspensão interna na escola, sentimento de pertencimento e engajamento (Do I Belong Yet? The Relationship between Special Education, In-School Suspension, Belonging, and Engagement). Remedial and Special Education. Link.
- Whitehouse, Megan (2026). “Eles só querem as crianças perfeitas em exibição”: a exclusão ilegal de crianças com necessidades educacionais especiais e deficiências das escolas de ensino fundamental ('They Just Want the Perfect Kids on Show': The Illegal Exclusion of Children with Special Educational Needs and Disabilities from Primary Schools). British Educational Research Journal. Link.
Se este tema aparece na sua rotina, escolha uma situação concreta para observar com mais cuidado e converse com sua equipe sobre quais apoios podem tornar a participação mais possível. Pequenas revisões feitas em conjunto também ajudam a construir uma escola mais acolhedora.
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