Direitos civis e políticas educacionais: inclusão depende de escolhas concretas
Estudos recentes mostram que direitos civis na educação se decidem em políticas e práticas cotidianas: da língua usada na escola à inclusão, à liberdade religiosa e à proteção contra o cyberbullying. Veja o que pode ser adaptado à realidade brasileira.
É comum pensar que garantir direitos civis na educação depende principalmente de escrever boas regras e incluí-las nos documentos oficiais. Pesquisas recentes feitas em diferentes países mostram um quadro mais complexo: direitos também são definidos por decisões cotidianas, como quais línguas aparecem na escola, quem consegue participar de uma atividade e que apoio recebe um estudante.
Os estudos reunidos aqui não apresentam uma receita única para todas as redes. Eles mostram tensões entre princípios e práticas: inclusão pode conviver com separação; políticas de diversidade podem esbarrar em desigualdades; e uma regra aparentemente clara pode ser interpretada de maneiras diferentes. Para professores brasileiros, essa comparação serve menos como modelo pronto e mais como lente para observar a própria rotina.
O que são direitos civis e política educacional em outros países e por que isso importa para o professor?
Direitos civis e política educacional dizem respeito a como leis, decisões públicas e práticas escolares garantem — ou deixam de garantir — participação, igualdade, proteção e respeito à diversidade. Na escola, isso aparece em questões concretas: acesso à aprendizagem, acolhimento de diferentes línguas e culturas, resposta ao racismo e ao cyberbullying, inclusão de estudantes com necessidades diversas e tratamento de convicções religiosas.
“Outros países” não significa um conjunto uniforme de experiências. Os estudos deste artigo abordam Brasil, África do Sul, Noruega, Suécia, Dinamarca, México, Romênia, Turquia, Hungria e Islândia, além de uma proposta de análise comparativa de políticas. Cada contexto tem sua história, sua legislação e seus arranjos institucionais. A comparação ajuda a fazer perguntas melhores, mas não autoriza copiar uma solução sem considerar as diferenças.
Para o professor, o tema importa porque políticas públicas ganham forma em interações comuns: a língua em que uma orientação é dada, a maneira como a escola responde a uma ofensa, a adaptação de uma atividade ou a participação de uma família. Nem toda responsabilidade cabe ao docente. Ainda assim, reconhecer onde uma escolha cotidiana toca direitos ajuda a perceber quando é preciso ajustar a prática, conversar com a equipe ou solicitar apoio institucional.
O que a pesquisa recente mostra sobre direitos e políticas educacionais?
Os estudos apontam que direitos educacionais não se sustentam apenas em declarações: dependem de formação, recursos, regras compreensíveis e decisões que levem em conta as pessoas afetadas. Em conjunto, eles iluminam quatro frentes — educação em direitos humanos, diversidade e pertencimento, inclusão e desenho das políticas, e condições de trabalho e proteção. Os resultados variam conforme o país e o objeto pesquisado.
Direitos humanos precisam atravessar as práticas, não ficar só no discurso
Uma revisão sistemática sobre educação infantil no Brasil investigou a literatura relativa a atividades de combate ao racismo por meio da educação em direitos humanos. A busca, realizada em seis bases de dados em fevereiro de 2024, selecionou 16 artigos. A revisão aponta a necessidade de investir na formação docente e afirma que o enfrentamento ao racismo deve envolver pessoas negras e brancas. Os autores também destacam que o mito da democracia racial dificulta o combate ao racismo no país (Ferreira, 2026).
Esse achado coloca uma questão relevante para a escola: falar de igualdade de forma abstrata não elimina as desigualdades que afetam a vida de estudantes negros. A revisão se concentra na educação infantil brasileira, portanto não oferece uma avaliação de todas as etapas nem uma lista de intervenções comprovadamente eficazes. Ela dá destaque à formação e à participação de diferentes grupos como aspectos a considerar quando se planejam ações antirracistas.
No México, uma análise da Nova Escola Mexicana examina um projeto governamental que incorpora princípios de direitos humanos à estrutura filosófica, curricular e pedagógica. A proposta considera acessibilidade, comunicação por ferramentas digitais, inclusão, pluralidade e diversidade cultural, em contextos marcados por desigualdade e exclusão. Os autores descrevem o projeto como uma abordagem humanista, inclusiva e comunitária, com potencial de contribuir para um sistema mais equitativo; ao mesmo tempo, apontam o desafio de o Estado oferecer condições e recursos adequados (García, 2025).
Os dois trabalhos diferem no foco: um revisa estudos sobre atividades antirracistas na educação infantil brasileira; o outro analisa uma política nacional mexicana. Ainda assim, ambos trazem a distância entre princípio e realização para o centro da conversa. O compromisso com direitos pode orientar o trabalho, mas sua efetivação envolve formação e condições institucionais, não apenas a intenção individual de quem está diante da turma.
Pluralidade cultural e linguística exige observar regras e relações
Uma comparação entre Noruega, Suécia e Dinamarca analisa os regimes de dispensa de atividades e ensino religioso nas escolas públicas. O estudo examina como cada país regula a possibilidade de estudantes e responsáveis não participarem de certas atividades, articulando legislação nacional, direito internacional e diferentes entendimentos de religião. A análise relata que os regimes escandinavos são marcados pela influência do cristianismo e oferecem níveis diferentes de acolhimento ao direito de dispensa (Lomsdalen, 2025).
O ponto útil para a comparação não é transportar esses procedimentos para a escola brasileira, mas perceber que uma questão aparentemente simples — como acomodar convicções religiosas e filosóficas — pode receber respostas diferentes dentro de uma mesma região. A forma como uma sociedade define “religião” e como transforma esse conceito em regra escolar influencia a participação. A política não opera fora da história e das ideias que moldam cada sistema.
Na Romênia, a pesquisa sobre escolas mistas húngaro-romenas examina inscrições escolares e placas internas como marcas da política linguística institucional. O estudo distingue três estratégias — assimetria, simetria e quase-assimetria — e sustenta que as práticas dependem das características de cada instituição. Também argumenta que atores escolares podem contestar ou reinterpretar regras formais, conforme hierarquias e ideologias linguísticas dominantes (Toró, 2024).
Uma pesquisa na Islândia analisa as perspectivas de quatro diretores escolares e quatro diretores de serviços de apoio em quatro municípios sobre os direitos linguísticos das crianças. Os resultados revelam tensões entre a compreensão dos direitos, as respostas das escolas à diversidade de línguas e a responsabilidade do Estado. Com o quadro dos 4As — disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e adaptabilidade —, os autores sugerem ampliar a educação em direitos humanos, o financiamento de iniciativas locais baseadas em direitos e o monitoramento (Gollifer, 2024).
Já uma análise histórica da Hungria examina três currículos nacionais entre 1777 e 1907, com atenção às regras sobre o uso de línguas minoritárias. O trabalho pergunta em que medida as políticas respeitavam o uso da língua materna ou exigiam a aquisição do húngaro e a integração à sociedade majoritária. Os autores ressaltam que as experiências de estudantes de minorias foram afetadas pelas circunstâncias sociais, políticas e ideológicas de cada período; consideram a história pertinente para debates atuais sobre sociedades multilíngues (Klein, 2024).
Em conjunto, essas pesquisas mostram que diversidade linguística não se resolve somente pela existência de uma regra. Importam a língua que ganha visibilidade no espaço escolar, a possibilidade de compreender e participar, a interpretação local da política e o percurso histórico das comunidades. Os contextos são distintos, mas ajudam a perguntar se a comunicação da escola é acessível e se as diferenças são tratadas como parte da vida comum ou como obstáculo a eliminar.
Inclusão e equidade dependem de como as políticas são desenhadas
O estudo sobre educação especial na Suécia questiona a imagem idealizada de um “modelo nórdico” necessariamente igualitário e inclusivo. Como estudo de caso, descreve aumento nas taxas de classificação de necessidades educacionais especiais e maior oferta de atendimento segregado, associados a mudanças nas políticas. A análise também aponta tendências de aumento de diagnóstico e classificação influenciadas por políticas de mercantilização e descentralização, além de discutir mudanças na formação docente, nas práticas escolares e nas prioridades governamentais sobre neurodivergência (Taneja-Johansson, 2024).
O alerta não é que classificar necessidades seja sempre inadequado, nem que a Suécia represente toda a região nórdica. O estudo destaca diversidade interna e lacunas entre pesquisa, política e realidade escolar, além de possíveis ganhadores e perdedores em participação. Isso convida a observar a experiência concreta de inclusão, em vez de presumir que a reputação de um sistema garante que todos participem em condições equitativas.
Em outra escala, um artigo propõe o Referencial para o Pluralismo Educacional Comparado. A proposta surge de uma análise crítica de referenciais existentes para estudar escolha escolar e parcerias público-privadas, debates que, segundo o resumo, têm sido marcados por pesquisa e advocacy orientados ideologicamente. O novo referencial pretende apoiar análises mais atentas ao desenho das políticas e fundamentadas em evidências sobre o papel de atores não estatais nos sistemas educacionais (D'Agostino, 2024).
O trabalho não oferece, no resumo, um resultado empírico sobre uma política específica. Sua contribuição é metodológica: chama atenção para a necessidade de comparar desenhos de política, em vez de julgar categorias amplas como “escolha” ou “parceria” sem olhar como funcionam. Para quem acompanha decisões da rede, essa perspectiva ajuda a separar o objetivo declarado de elementos concretos como responsabilidades, acesso e organização.
Proteção dos estudantes também depende de apoio aos adultos
Na África do Sul, um estudo qualitativo investigou as perspectivas de 12 professores do ensino secundário de um distrito da província do Noroeste sobre cyberbullying. Os participantes relataram sentir-se despreparados para lidar com o problema sistêmico, em meio à formação insuficiente e à falta de políticas claras. O estudo associa o cyberbullying a um clima escolar tóxico, aumento de faltas e problemas de saúde mental; professores também disseram sentir-se sobrecarregados e impotentes, inclusive quando eram alvos (Makwele, 2026).
Os relatos descrevem consequências variadas para estudantes vítimas, como perda de concentração, baixa autoestima e baixo desempenho acadêmico. O resumo também menciona abuso de substâncias, suicídios e tendências suicidas. Os autores relacionam a exposição ao aumento da participação no ensino on-line durante a pandemia e apontam que, após a flexibilização do lockdown, houve aumento de faltas. É um estudo localizado e qualitativo; sua contribuição é trazer as percepções dos professores e a conexão entre ambiente digital e ecossistema escolar.
Na Turquia, o programa PIKTES foi criado pelo Ministério da Educação Nacional para contribuir para o acesso à educação de crianças sob proteção temporária. Entrevistas de grupo focal com oito professores designados ao projeto identificaram disparidades nas condições de trabalho em comparação com docentes regulares, como contratos precários, remuneração inadequada e acesso limitado a benefícios. Os participantes relataram confusão sobre situação jurídica e direitos, associada a normas conflitantes. O estudo defende reformas para reconhecer as contribuições desses professores, melhorar condições de trabalho e garantir desenvolvimento profissional (Taneri, 2024).
Os dois estudos têm objetos diferentes, mas lembram que a realização de direitos dos estudantes ocorre dentro de instituições e depende também das condições oferecidas aos profissionais. No caso do cyberbullying, formação e políticas claras aparecem como lacunas relatadas por professores. No caso turco, as desigualdades contratuais e a incerteza jurídica dizem respeito a docentes de um projeto específico. Não são situações equivalentes, mas ambas tornam visível que não basta atribuir responsabilidade individual sem olhar para os apoios e as regras disponíveis.
O que os estudos sobre direitos civis e educação têm em comum?
Os estudos convergem na ideia de que direitos declarados precisam de condições para virar participação real. Formação, recursos, acessibilidade, clareza normativa e acompanhamento aparecem como preocupações em pesquisas com objetos bastante distintos. Os trabalhos também recusam soluções automáticas: uma política inclusiva no papel pode produzir resultados desiguais, e uma regra formal pode ser reinterpretada por práticas institucionais e hierarquias locais.
As diferenças entre eles são importantes. Há revisão de literatura sobre racismo no Brasil, análises de políticas nacionais, pesquisa qualitativa com educadores, comparação entre legislações e estudo histórico de currículos. Alguns tratam de experiências atuais; outros examinam um período passado ou propõem um referencial de análise. Logo, não é adequado colocar todos os resultados no mesmo nível ou concluir que uma tendência identificada em um país vale para os demais.
Também permanecem perguntas abertas: que práticas concretas de formação docente produzem mudanças duradouras? Como avaliar se uma política amplia a participação sem criar novas barreiras? Que mecanismos dão voz às crianças e às famílias? Os resumos não permitem responder a essas perguntas em profundidade. Eles ajudam a localizar tensões e temas para investigação, mas não estabelecem um ranking de políticas nacionais nem uma fórmula universal.
Como aplicar essas ideias à sala de aula?
As sugestões abaixo são aplicações possíveis, não resultados testados pelos estudos. A decisão precisa considerar a idade dos estudantes, as orientações da escola e os recursos disponíveis. O professor pode usá-las para abrir conversas e identificar quando uma questão exige articulação com coordenação, gestão, famílias ou serviços de apoio.
1. Observe quem consegue participar de verdade
Aplicação: ao planejar uma atividade, faça uma checagem prática: todos entendem as instruções? Há mais de uma forma de contribuir? Imagine uma turma em que uma criança recém-chegada compreende melhor uma orientação quando ela é acompanhada de imagens ou demonstração. Oferecer apoio visual pode ser uma adaptação útil, sem presumir que toda criança multilíngue precisa do mesmo recurso. O objetivo é identificar barreiras e conversar com a equipe sobre respostas adequadas.
2. Trate o racismo como assunto de aprendizagem e responsabilidade coletiva
Aplicação: em vez de deixar a conversa sobre racismo restrita a uma data comemorativa, planeje momentos adequados à etapa escolar para falar de respeito, igualdade e dignidade. Imagine uma turma de educação infantil que faz comentários sobre cabelo ou aparência: o professor pode acolher a situação, nomear a importância do respeito e propor materiais e conversas que não inferiorizem identidades. Essa sugestão se inspira na atenção à formação e ao envolvimento de pessoas negras e brancas apontada pela revisão brasileira, mas não reproduz uma intervenção avaliada por ela.
3. Combine caminhos de resposta ao cyberbullying
Aplicação: ajude a turma a compreender como comunicar uma situação de agressão digital e quais adultos da escola podem apoiar. Imagine que uma estudante recebe mensagens ofensivas em um grupo da turma e passa a evitar as atividades. Em vez de tratar o episódio como simples desentendimento, a equipe pode escutar com cuidado, seguir os protocolos da escola e buscar apoio apropriado. O estudo sul-africano relata despreparo e falta de políticas claras; por isso, uma proposta para a escola brasileira é verificar se adultos e estudantes sabem a quem recorrer, sem presumir que um procedimento específico sirva para toda rede.
4. Faça uma auditoria informal da comunicação escolar
Aplicação: observe se orientações essenciais chegam às famílias de maneira compreensível e se os recursos digitais são acessíveis para quem precisa usá-los. Imagine uma família que não consegue acompanhar comunicados exclusivamente on-line: a escola pode avaliar outros canais de comunicação. Essa ideia conversa com os temas de acesso à informação do estudo mexicano e de direitos linguísticos das pesquisas islandesa e romena, mas é uma sugestão de análise local, não uma conclusão experimental dos artigos.
5. Revise o que parece neutro na rotina
Aplicação: examine exemplos, imagens, regras de participação e escolhas de linguagem para perceber quais identidades aparecem e quais ficam invisíveis. Imagine um projeto em que somente uma tradição cultural é apresentada como referência comum: o professor pode ampliar as perspectivas representadas, sem transformar a diversidade em atividade folclórica. A reflexão parte dos estudos sobre pluralidade cultural, linguística e religiosa; a seleção concreta de materiais deve ser feita com conhecimento do contexto da turma.
6. Diferencie apoio de separação automática
Aplicação: ao discutir inclusão, pergunte se uma medida amplia a participação do estudante ou se o afasta das experiências coletivas sem necessidade. Imagine uma atividade de grupo que pode ser adaptada com instruções em etapas, tempo flexível ou diferentes formas de resposta. Essa reflexão não substitui avaliação especializada nem as decisões da equipe. Ela se relaciona ao alerta do estudo sueco sobre a distância possível entre o ideal inclusivo e as formas de atendimento que se consolidam.
7. Registre as barreiras e leve-as à equipe
Aplicação: quando uma dificuldade se repete — por exemplo, falta de orientação para responder a uma ofensa ou de recursos para apoiar a participação —, anote a situação de modo cuidadoso e discuta-a com a coordenação. Imagine professores que recebem casos de agressão digital sem saber qual fluxo seguir: organizar dúvidas e buscar uma orientação comum pode ser um primeiro passo. O estudo turco lembra que as condições de trabalho e a clareza de direitos dos próprios docentes também afetam a implementação de políticas.
O que muda quando trazemos essas pesquisas para o contexto brasileiro?
A primeira mudança necessária é distinguir inspiração de transplante. Os estudos sobre dispensa religiosa, línguas minoritárias, educação especial e programas de integração descrevem sistemas e regras de outros países. Essas regras não são automaticamente aplicáveis no Brasil. Uma prática adequada depende da legislação brasileira, das políticas da rede, da história local e das necessidades das comunidades envolvidas.
O estudo brasileiro sobre educação infantil e racismo tem um vínculo mais direto com a realidade nacional. Ele situa a discussão em uma sociedade marcada pelo racismo e pelo mito da democracia racial, e aponta a formação docente e o envolvimento de pessoas negras e brancas como aspectos necessários. Mesmo assim, uma revisão de 16 artigos não deve ser confundida com uma avaliação de todas as escolas ou com um roteiro completo de intervenção. O valor está em destacar um problema e aspectos que a literatura selecionada considera relevantes.
Para outros temas, a comparação oferece perguntas, não respostas prontas. A pesquisa islandesa pode inspirar a verificar se as crianças conseguem acessar a aprendizagem quando têm repertórios linguísticos diferentes; a romena sugere observar a presença e a posição das línguas na comunicação institucional. Isso não significa que a realidade multilíngue brasileira seja igual à desses países: comunidades, direitos, línguas e políticas são específicos. O olhar comparativo pode ajudar a escola a reconhecer diversidade sem reduzir estudantes a uma categoria única.
Também é importante não atribuir ao professor sozinho a solução de problemas estruturais. Os estudos mexicano, turco e sul-africano apontam, em seus próprios contextos, desafios relacionados a recursos, condições de trabalho, formação ou políticas claras. No Brasil, a aplicação responsável passa por identificar o que está ao alcance da sala de aula e o que precisa ser encaminhado à gestão e às instâncias responsáveis. A comparação internacional ganha valor quando amplia a capacidade de fazer perguntas e não quando vira um selo de que determinado sistema é superior.
Quais são os limites desta leitura dos estudos?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, apresenta os objetivos, contextos e resultados que esses resumos informam, sem reconstruir detalhes metodológicos ou conclusões que não estão descritos neles. Os estudos variam bastante: incluem revisão sistemática, análise de políticas, pesquisa qualitativa, comparação jurídica, análise histórica e proposta de referencial.
Essa variedade permite identificar temas recorrentes, mas não comprova que uma prática específica funcionará em qualquer escola. Algumas pesquisas são localizadas e descrevem as perspectivas de grupos determinados; outras examinam documentos ou políticas de um contexto nacional. As perguntas sobre duração dos efeitos, experiências de estudantes e famílias, comparação entre redes e formas de implementação exigem consulta aos trabalhos completos e, em muitos casos, novas pesquisas.
Faz sentido ler o estudo integral quando a equipe pretende usar uma conclusão para orientar uma política, formação ou protocolo; quando precisa conhecer melhor a metodologia e o alcance dos resultados; ou quando vai adaptar uma proposta a uma comunidade concreta. Também vale procurar orientação institucional e fontes brasileiras atualizadas antes de transformar uma experiência estrangeira em recomendação normativa para a escola.
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Perguntas frequentes sobre direitos civis e políticas educacionais
O que direitos civis têm a ver com a rotina de uma escola?
Direitos civis se relacionam com a possibilidade de participar, aprender, receber proteção e ser tratado com dignidade. Na rotina escolar, podem aparecer em situações como o enfrentamento ao racismo, o acolhimento de estudantes com diferentes repertórios linguísticos, a inclusão de estudantes com necessidades diversas e a resposta ao cyberbullying. Os estudos reunidos mostram que políticas e regras ganham sentido nas práticas institucionais. Para o professor, isso significa observar barreiras concretas e procurar os apoios adequados, sem assumir sozinho responsabilidades que dependem da rede ou da gestão.
Os modelos educacionais de outros países podem ser aplicados no Brasil?
Não de forma automática. Os estudos sobre países escandinavos, Romênia, Islândia, Turquia, México, Hungria e África do Sul tratam de legislações, histórias e instituições diferentes das brasileiras. A pesquisa sobre a Suécia, por exemplo, questiona a ideia de que um modelo admirado seja necessariamente inclusivo em todas as suas práticas; a comparação escandinava encontra diferenças entre países na forma de lidar com dispensas religiosas. Esses trabalhos são úteis para formular perguntas e identificar riscos, mas qualquer decisão brasileira precisa considerar nossa legislação, as políticas da rede e a realidade da comunidade.
O que a pesquisa brasileira diz sobre racismo na educação infantil?
A revisão sistemática de Ferreira investigou estudos brasileiros sobre atividades de educação infantil voltadas ao combate ao racismo por meio da educação em direitos humanos. Foram selecionados 16 artigos após uma busca em seis bases de dados, realizada em fevereiro de 2024. Os resultados apontam a necessidade de investir na formação de professores e indicam que o enfrentamento do racismo deve envolver pessoas negras e brancas. A revisão também destaca que o mito da democracia racial torna o combate ao racismo difícil no Brasil. Ela não oferece uma receita universal, mas ajuda a situar formação e responsabilidade coletiva como pontos relevantes.
Por que os estudos dão atenção às línguas usadas na escola?
Porque a língua pode afetar o acesso à comunicação, a participação e o reconhecimento de comunidades. Pesquisas na Romênia e na Islândia examinam, respectivamente, práticas linguísticas em escolas mistas e as perspectivas de gestores sobre direitos linguísticos de crianças. A análise histórica da Hungria também discute políticas que regulavam a língua materna de minorias. Esses contextos não são iguais ao brasileiro, mas sugerem perguntas úteis: as orientações são compreensíveis? Diferentes repertórios são reconhecidos? A presença de uma língua ou cultura é tratada como legítima? As respostas precisam ser construídas considerando a comunidade escolar.
Como conversar sobre cyberbullying sem tratar o caso como brincadeira?
Uma conversa responsável começa por escutar quem foi atingido, levar a situação a sério e seguir os procedimentos de proteção definidos pela escola. O estudo sul-africano relata que professores se sentiam despreparados diante do cyberbullying e que faltavam políticas claras em seu contexto. Também descreve impactos sobre frequência, concentração e saúde mental. Isso não determina um protocolo universal para escolas brasileiras, mas reforça a importância de saber a quem encaminhar um caso e de não deixar o professor isolado. Se houver sinais de risco à segurança ou à saúde, é necessário acionar os responsáveis institucionais adequados.
Qual é o principal cuidado ao interpretar uma pesquisa internacional?
O principal cuidado é separar o que o estudo efetivamente investigou do que podemos sugerir como aplicação. Uma pesquisa qualitativa com um grupo específico pode revelar experiências importantes, mas não representa automaticamente todos os professores ou estudantes de um país. Uma análise de política descreve princípios e desafios de implementação, mas não prova que a mesma política funcionaria em outra rede. Neste artigo, as aplicações para a sala de aula são sugestões, não achados dos estudos. Antes de transformar uma ideia em decisão institucional, vale consultar o trabalho completo, verificar as regras brasileiras pertinentes e dialogar com a equipe.
Referências dos estudos citados
- Ferreira, Ana Tereza Ramos de Jesus; Ferreira, Juliene Madureira (2026). Educação em direitos humanos, racismo e educação infantil no Brasil: uma revisão sistemática (Human Rights Education, Racism and Early Childhood Education in Brazil: A Systematic Review). International Journal of Human Rights Education. Link.
- Makwele, Bontle; Nhlapo, Velaphi Aaron (2026). Compreender o cyberbullying como violação dos direitos humanos no ecossistema educacional das escolas sul-africanas (Understanding Cyberbullying as a Human Rights Violation in the Educational Ecosystem of South African Schools). Bulgarian Comparative Education Society. Link.
- Lomsdalen, Christian; von der Lippe, Marie (2025). O direito à dispensa: uma análise comparativa dos regimes de dispensa nas escolas públicas escandinavas e o impacto do viés cultural (The Right to Opt Out: A Comparative Analysis of Exemption Schemes in Scandinavian Public Schools and the Impact of Cultural Bias). Journal of Beliefs & Values. Link.
- García, Amelia Molina; Molina, Mariana Segura; Crespo, Christian I. Ponce (2025). A Política Educacional da Nova Escola Mexicana em Relação aos Direitos Humanos (The Educational Policy of the New Mexican School Concerning Human Rights). Bulgarian Comparative Education Society. Link.
- Taneja-Johansson, Shruti; Powell, Justin J. W. (2024). Confrontando o 'Modelo Nórdico' idealizado na educação com as realidades contemporâneas da educação especial na Suécia (Confronting the Idealised 'Nordic Model' in Education with Contemporary Realities of Special Education in Sweden). European Journal of Special Needs Education. Link.
- Toró, Tibor (2024). Bilinguismo seletivo: uso de língua oficial e paisagem linguística em escolas mistas húngaro-romenas na Romênia (Selective Bilingualism: Official Language Use and Linguistic Landscape in Hungarian-Romanian Mixed Schools in Romania). Journal of Multilingual and Multicultural Development. Link.
- D'Agostino, T. J. (2024). Pluralismo Educacional Comparado: um referencial para a análise comparativa de políticas (Comparative Educational Pluralism: A Framework for Comparative Policy Analysis). Peabody Journal of Education. Link.
- Taneri, Pervin Oya; Ugur, Nevruz (2024). Examinando os problemas dos professores contratados no âmbito do Projeto de Apoio à Integração de Crianças Sírias ao Sistema Educacional Turco (PIKTES) (Examining the Problems of the Teachers Appointed within the Scope of Supporting the Integration of Syrian Children into the Turkish Education System (PIKTES)). Journal for Critical Education Policy Studies. Link.
- Klein, Ágnes; Haslauer, Edina (2024). A educação das minorias húngaras com base na análise dos currículos nacionais de 1777 a 1907 (Hungarian Minority Education Based on a Review of the National Curricula from 1777 to 1907). Paedagogica Historica: International Journal of the History of Education. Link.
- Gollifer, Sue E.; Gunnþórsdóttir, Hermína; Peskova, Renata Emilsson (2024). "Podemos fazer muito mais e melhor": compreendendo as perspectivas dos guardiões sobre os direitos linguísticos humanos dos estudantes ('We Can Do Much More and Better': Understanding Gatekeepers' Perspectives on Students' Linguistic Human Rights). Human Rights Education Review. Link.
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