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Creches e cuidadores: por que chegada, escuta e condições de trabalho importam

Pesquisas recentes mostram que a qualidade do cuidado infantil aparece nas transições, nas relações com as famílias e na escuta das crianças. Também apontam desafios de formação e permanência dos cuidadores.

Creches e cuidadores: por que chegada, escuta e condições de trabalho importam

Cena hipotética: Na entrada da creche, uma criança segura a mochila enquanto a pessoa que a acompanha conversa por alguns segundos com a cuidadora. A educadora se abaixa, acolhe a criança e escuta a informação sobre como foi a manhã em casa. Essa passagem breve pode dizer algo importante sobre o cuidado que acontece ali.

Para quem ensina na educação básica, a creche não é um mundo separado: as experiências iniciais de cuidado, vínculo e participação fazem parte da trajetória das crianças que chegam às turmas dos anos seguintes. O que pesquisas recentes mostram sobre a qualidade desse cuidado e sobre o papel de quem cuida?

O que é cuidado infantil em creches e por que importa para o professor?

Cuidado infantil em creches é o conjunto de relações e práticas que sustentam a segurança, o bem-estar, a aprendizagem e a participação das crianças durante o tempo em que estão sob os cuidados de profissionais. Não se limita a alimentação, higiene ou supervisão: inclui a maneira como adultos acolhem, escutam e se comunicam com a criança e sua família.

Na rotina, esse assunto aparece em momentos muito concretos: chegada e saída, brincadeiras, conversas com responsáveis, decisões sobre como organizar o espaço e respostas às necessidades de cada criança. Os estudos reunidos aqui olham para profissionais em centros e em contextos domiciliares, para a relação com as famílias e para as condições que ajudam ou dificultam a permanência dos cuidadores.

Para professores de outras etapas, conhecer essas dimensões pode ajudar a interpretar melhor as necessidades de crianças pequenas e a construir relações mais respeitosas com as famílias. Isso não significa transferir conclusões de uma creche para uma turma do ensino fundamental. Significa reconhecer que escuta, acolhimento, participação e condições de trabalho são questões educativas que atravessam diferentes contextos.

O que a pesquisa recente mostra sobre creches e cuidadores?

A chegada e a saída revelam relações que nem sempre entram na avaliação

Os momentos de chegada e saída são transições entre cuidadores: a criança passa de um contexto para outro, e famílias e profissionais compartilham informações. Um estudo australiano investigou se essas situações podem funcionar como indicadores da qualidade dos serviços de educação e cuidado na primeira infância. Os autores analisaram o marco de qualidade do país e registros de campo produzidos por avaliadores durante processos de avaliação (Casey, 2025).

O estudo identificou que essas transições oferecem informações ricas sobre a qualidade das relações entre crianças, famílias e educadores. A política australiana as reconhecia como possíveis “barômetros” da qualidade, mas os registros examinados indicavam que raramente eram observadas na prática avaliativa (Casey, 2025). A tensão é relevante: uma rotina cotidiana pode ter valor para compreender as relações, mesmo quando os procedimentos de avaliação não a capturam com frequência.

Esse resultado não quer dizer que um cumprimento cordial, isoladamente, comprove a qualidade de um serviço. Ele sugere que as interações de passagem merecem atenção como parte da vida da instituição. Uma informação compartilhada com cuidado pode ajudar os adultos a responder de forma mais coerente às necessidades da criança; uma transição apressada, por outro lado, pode deixar aspectos importantes sem comunicação. A pesquisa examinou o contexto australiano, não as regras de avaliação brasileiras.

Escuta e participação dependem de relações, mas também de tempo

Em dois centros de cuidado e educação na primeira infância da África do Sul — um favorecido e outro desfavorecido —, pesquisadores entrevistaram profissionais sobre como escutavam crianças pequenas. Os participantes reconheciam a importância de escutar para democratizar os espaços pedagógicos e validar o direito das crianças à participação. A escuta era relacionada ao sentimento de pertencimento, à agência infantil e a uma resposta atenta às crianças (Shaik, 2023).

O estudo também destaca uma dificuldade prática: afirmar a voz das crianças pode ser complexo quando há limitações de tempo e de currículo. Isso importa porque “escutar” não é apenas perguntar o que a criança quer e seguir automaticamente a resposta. É tratar suas expressões como informação relevante e considerar como elas podem participar do cotidiano, dentro das responsabilidades de cuidado e organização do grupo (Shaik, 2023).

Uma pesquisa qualitativa canadense, realizada em Ontário, amplia a discussão para encontros com pessoas em situação de falta de moradia nas comunidades próximas a instituições de educação infantil. Os relatos indicaram que esses encontros eram predominantemente indiretos. Quando ocorriam, as respostas dos profissionais eram influenciadas por vieses próprios, falta de formação sobre o tema e receio de reações de responsáveis. Ao mesmo tempo, os participantes queriam garantir a segurança das crianças e dar exemplo de compaixão (Bonnett, 2026).

Os autores apontam formação inicial e em serviço, além de currículo e políticas que articulem o tema à cidadania humanitária, como aspectos importantes para fortalecer a prática. O estudo não trata de uma situação idêntica à rotina de todas as creches: examina um contexto específico de Ontário. Sua contribuição para a conversa é mostrar que segurança e respeito podem precisar ser pensados juntos quando a educação infantil aborda realidades sociais difíceis (Bonnett, 2026).

Relação com famílias é importante, mas sua implementação enfrenta obstáculos

Um estudo qualitativo investigou como profissionais de diferentes contextos de cuidado infantil conheciam e usavam seis princípios de envolvimento familiar da National Association for the Education of Young Children. As entrevistas exploraram conhecimento, adoção, dificuldade percebida, razões para utilizar ou não os princípios e resultados que os profissionais atribuíam a eles. Os participantes mencionaram, entre os resultados percebidos, relações melhores com os pais e apoio à aprendizagem das crianças (Rech, 2024).

Os profissionais diferiam no conhecimento e na adoção dos princípios, e também na dificuldade que percebiam para colocá-los em prática. Falta de tempo e desinteresse atribuído aos pais foram obstáculos frequentemente relatados. A formulação importa: trata-se da percepção dos profissionais, não de uma conclusão de que as famílias não se interessam. A pesquisa recomenda aprofundar a comparação entre contextos e investigar como integrar tecnologias à comunicação com as famílias (Rech, 2024).

Dados nacionais dos Estados Unidos sobre crianças do nascimento aos cinco anos, ainda não matriculadas no jardim de infância em 2023, foram apresentados em um relatório de primeira análise. O levantamento trata das modalidades de cuidado e educação, dos fatores que os pais consideravam ao escolher, das dificuldades para encontrar o atendimento desejado e de atividades de aprendizagem em casa (Hanson, 2024). O resumo descreve os temas medidos, mas não apresenta resultados específicos sobre quais modalidades foram mais escolhidas ou quais obstáculos foram mais comuns.

Essa diferença entre os estudos ajuda a separar dois tipos de evidência. Rech investigou percepções e práticas profissionais; Hanson apresentou estimativas e informações sobre decisões familiares nos Estados Unidos. Em conjunto, eles colocam a comunicação entre serviço e família em perspectiva, mas não autorizam presumir que as preferências ou dificuldades das famílias sejam iguais em todos os lugares.

Qualidade também depende das condições e do apoio a quem cuida

Um relatório sobre o Programa de Desenvolvimento Infantil das Forças Armadas dos Estados Unidos analisou componentes do quadro de pessoal, incluindo qualificações, remuneração e retenção, além de unidades, matrículas e necessidades não atendidas. O programa enfrentava dificuldades para atender à demanda, anteriores à pandemia, e o relatório relaciona esse cenário a desafios de recrutamento e permanência de profissionais qualificados. O trabalho foi concebido para apoiar decisões sobre recrutamento, formação, desenvolvimento profissional, remuneração e retenção (Karoly, 2025).

O relatório é uma primeira fase de um projeto, não uma avaliação de uma política brasileira. Ainda assim, torna visível uma questão que também interessa a qualquer conversa sobre qualidade: a capacidade de oferecer cuidado depende de haver profissionais em número suficiente e de condições que permitam formar e manter equipes. O resumo não apresenta uma solução única; descreve análises e objetivos que devem orientar decisões no contexto institucional estudado (Karoly, 2025).

Na África do Sul, uma pesquisa multimétodo sobre profissionalização da educação e do cuidado na primeira infância identificou necessidades de formação em gestão, oportunidades de aprendizagem prática, ampliação da oferta de serviços domiciliares e melhorias sistêmicas. Os autores enfatizam colaboração entre diferentes atores, mudanças nas condições de trabalho, recursos e infraestrutura, especialmente ao considerar populações em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica (Wood, 2024).

Essas conclusões ligam a formação individual às condições do setor. Oferecer um curso a cada profissional não resolve, por si só, falta de recursos ou dificuldades estruturais; ao mesmo tempo, apoio prático pode ajudar a desenvolver competências. O estudo não propõe uma receita pronta para o Brasil, mas evidencia que profissionalização pode envolver ações em mais de um nível (Wood, 2024).

Dois estudos sobre cuidado domiciliar nos Estados Unidos mostram outras faces do trabalho. Entrevistas com 30 profissionais negras ou birraciais de cuidado infantil familiar investigaram por que iniciaram seus programas. As participantes citaram apoio a familiares e vizinhos, a percepção de que o serviço poderia ser uma alternativa mais segura que centros e o desejo de estar no comando. Também relataram perceber mais controle e possibilidade de atenção individualizada no contexto domiciliar do que em centros (Harmeyer, 2025).

Em outra pesquisa, entrevistas com 11 assistentes técnicos que apoiavam educadores de cuidado infantil familiar em um sistema voluntário de avaliação e aprimoramento da qualidade investigaram como esses assistentes percebiam qualidade e os desafios do apoio. Os resultados sugerem necessidade de formação adicional e suporte contínuo aos assistentes técnicos, além de apoios ajustados ao contexto domiciliar e de uma perspectiva baseada nos pontos fortes dos educadores (Hooper, 2023). O estudo não descreve o cuidado domiciliar como superior: examina a percepção de profissionais que apoiam esse tipo de serviço.

Uma pesquisa com 318 profissionais de cuidado infantil domiciliar em cinco estados do Meio-Oeste dos Estados Unidos analisou fatores associados ao bem-estar e à intenção de permanecer. A vocação previu significativamente a intenção de continuar na área; recursos do trabalho se associaram positivamente ao bem-estar, enquanto demandas do trabalho se associaram negativamente. O senso de comunidade não previu significativamente nenhum dos dois resultados. Os autores alertam que a vocação, sozinha, pode não bastar diante de estresse, dificuldades financeiras e desafios de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (Garcia, 2026).

Os estudos lado a lado: o que cada pesquisa investigou?

Os estudos não medem uma mesma coisa. A tabela resume seus focos e resultados relatados, para facilitar a comparação sem misturar contextos, métodos ou tipos de evidência.

EstudoO que investigouO que relataContexto
(Karoly, 2025)Pessoal, matrículas, demanda, qualificações, remuneração e retenção no Programa de Desenvolvimento Infantil Militar.Desafios para atender à demanda e dificuldades de recrutamento e retenção; relatório orientado a apoiar decisões sobre estratégias de força de trabalho.Programa das Forças Armadas dos Estados Unidos.
(Casey, 2025)Chegadas e saídas como indicadores de qualidade em serviços de educação e cuidado infantil.As transições fornecem informações ricas sobre relações, mas raramente eram observadas na prática avaliativa examinada.Austrália; serviços de educação e cuidado na primeira infância.
(Harmeyer, 2025)Motivações de profissionais negras ou birraciais de cuidado infantil familiar e contrastes percebidos com centros.Motivações ligadas a apoiar familiares e vizinhos, segurança percebida e autonomia; percepção de maior controle e atenção individualizada em casa.Estados Unidos; cuidado infantil familiar domiciliar; entrevistas com 30 profissionais.
(Wood, 2024)Lacunas de competências e desenvolvimento do setor de educação e cuidado na primeira infância.Necessidade de formação em gestão, aprendizagem prática, serviços domiciliares e melhorias sistêmicas.África do Sul; educação e cuidado na primeira infância.
(Hanson, 2024)Modalidades de cuidado, escolhas e dificuldades relatadas por famílias, e aprendizagem em casa.Apresenta estimativas e temas pesquisados, sem resultados específicos detalhados no resumo.Estados Unidos; crianças do nascimento aos cinco anos, fora do jardim de infância, em 2023.
(Rech, 2024)Conhecimento e uso de princípios de envolvimento familiar por profissionais.Diferenças de conhecimento e adoção; relações com pais e aprendizagem infantil como resultados percebidos; tempo e desinteresse percebido como obstáculos.Diferentes contextos de cuidado; entrevistas qualitativas.
(Shaik, 2023)Concepções de profissionais sobre escuta de crianças pequenas.Escuta ligada a pertencimento, participação e agência; tempo e currículo tornam sua prática complexa.África do Sul; dois centros, um favorecido e outro desfavorecido.
(Hooper, 2023)Percepções de assistentes técnicos sobre qualidade e apoio a educadores de cuidado infantil familiar.Identifica componentes de qualidade e desafios; sugere formação e apoio contínuos e adaptações ao contexto domiciliar.Educadores de cuidado infantil familiar em sistema voluntário; entrevistas com 11 assistentes técnicos.
(Bonnett, 2026)Percepções profissionais sobre falta de moradia na pedagogia da educação infantil.Encontros predominantemente indiretos; vieses, falta de formação e receios influenciam respostas; participantes buscam segurança e compaixão.Ontário, Canadá; estudo de caso qualitativo.
(Garcia, 2026)Demandas, recursos, bem-estar e intenção de permanecer no cuidado domiciliar.Vocação previu intenção de permanência; recursos se associaram positivamente ao bem-estar e demandas, negativamente; comunidade não previu os resultados.Cinco estados do Meio-Oeste dos Estados Unidos; pesquisa com 318 profissionais.

O que os estudos têm em comum e onde divergem?

Em conjunto, as pesquisas mostram que a qualidade do cuidado não cabe apenas em uma característica individual da criança ou do profissional. Ela aparece nas relações, nas condições de trabalho, nos apoios disponíveis e nas formas de organizar o cotidiano. Chegada e saída, escuta, parceria com famílias e formação são dimensões diferentes, mas todas dependem de contextos em que os adultos conseguem agir com atenção e consistência.

Há convergência na importância de relações: Casey analisa a troca entre famílias, crianças e educadores; Rech investiga o envolvimento familiar; Shaik relaciona escuta a pertencimento e participação. Já Wood, Karoly, Hooper e Garcia chamam atenção para competências, suporte, recursos e desafios do trabalho. Esses achados não são intercambiáveis: um estudo sobre políticas de pessoal não responde diretamente como conversar com uma família, e uma entrevista sobre escuta não mede a retenção de profissionais.

Os métodos e os contextos também diferem. Há entrevistas qualitativas, registros de observação, análise de documentos e uma pesquisa quantitativa com profissionais. Alguns resumos descrevem resultados específicos; outros, como o de Hanson, apresentam o escopo de um relatório, sem informar resultados detalhados. Portanto, não se pode afirmar que as pesquisas chegam a uma medida universal de qualidade ou que uma prática tenha o mesmo efeito em todo lugar.

Uma questão ainda em aberto é como transformar princípios reconhecidos — como escuta e participação familiar — em práticas sustentáveis quando há pouco tempo, demandas elevadas ou formação insuficiente. Os estudos também deixam espaço para investigar como diferentes modelos de atendimento podem receber apoios adequados sem serem avaliados por um padrão que ignore suas características.

O que isso significa para a sala de aula e a rotina escolar?

Os estudos não testaram as sugestões a seguir em turmas brasileiras de outras etapas. São aplicações possíveis das ideias pesquisadas, que cada professor pode adaptar ao seu contexto, sem tratá-las como resultados comprovados.

1. Trate as transições como momentos de comunicação

Aplicação sugerida: numa turma hipotética de educação infantil, a equipe pode combinar uma forma breve e respeitosa de trocar informações na chegada e na saída, sem transformar o portão em uma entrevista longa. Uma pergunta simples sobre como a criança está naquele dia pode abrir espaço para uma informação útil. A pesquisa australiana sustenta a relevância de observar essas passagens, não um roteiro único para conduzi-las (Casey, 2025).

2. Reserve oportunidades para escutar as crianças

Aplicação sugerida: em uma atividade hipotética, a professora pode oferecer opções reais sobre como organizar materiais ou continuar uma brincadeira e observar também gestos, recusas e iniciativas. Depois, pode explicar quais sugestões foram incorporadas e por quê. Isso aproxima escuta de participação e pertencimento, temas tratados no estudo sul-africano, sem supor que toda decisão deva ser transferida às crianças (Shaik, 2023).

3. Diferencie falta de disponibilidade de falta de interesse

Aplicação sugerida: se uma família não responde a uma mensagem, o professor pode experimentar outro horário ou um canal acessível, em vez de concluir imediatamente que não se importa. Essa atitude não garante retorno, mas evita transformar uma percepção profissional em julgamento sobre a família. A distinção é importante porque Rech registra o desinteresse percebido como dificuldade relatada pelos profissionais, junto à falta de tempo (Rech, 2024).

4. Faça perguntas sobre as condições de trabalho antes de cobrar mais

Aplicação sugerida: numa reunião de equipe hipotética, em vez de acrescentar mais uma tarefa de registro sem conversa, a coordenação pode perguntar quais recursos e tempos são necessários para realizá-la bem. Os estudos sobre força de trabalho e bem-estar associam condições, demandas e recursos à experiência dos cuidadores, embora investiguem contextos específicos fora do Brasil (Karoly, 2025; Garcia, 2026).

5. Pense formação como prática acompanhada

Aplicação sugerida: uma equipe pode combinar estudo de um tema com observação entre colegas e conversa posterior sobre o que funcionou. Isso é diferente de presumir que uma palestra resolva desafios complexos. A proposta dialoga com as necessidades de aprendizagem prática e gestão identificadas na África do Sul e com a sugestão de apoio contínuo para assistentes técnicos que trabalham com educadores domiciliares (Wood, 2024; Hooper, 2023).

6. Reconheça que centros e cuidados domiciliares têm características próprias

Aplicação sugerida: ao conversar com uma família, a escola pode perguntar quais aspectos da experiência de cuidado anterior ajudam a criança a se sentir segura, sem pressupor que um modelo seja melhor que outro. Profissionais entrevistadas nos Estados Unidos perceberam autonomia e atenção individualizada em contextos domiciliares; assistentes técnicos também apontaram que o apoio à qualidade precisa considerar as particularidades desse contexto (Harmeyer, 2025; Hooper, 2023).

7. Aborde temas sociais difíceis com segurança e compaixão

Aplicação sugerida: se surgir uma conversa hipotética sobre pessoas sem moradia na comunidade, o professor pode evitar explicações que culpem ou estereotipem indivíduos e planejar uma resposta adequada à idade, alinhada às orientações da instituição. A pesquisa canadense destaca justamente a tensão entre proteger crianças, lidar com vieses e demonstrar compaixão. Ela não oferece um plano pronto para escolas brasileiras, mas convida a preparar os adultos para essas situações (Bonnett, 2026).

O que muda quando levamos esses estudos para o contexto brasileiro?

Os estudos vêm de países e sistemas diferentes: Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Canadá. Um deles investiga profissionais de vários contextos, sem que o resumo identifique um país. Isso importa porque políticas de avaliação, organização dos serviços, condições de trabalho e formas de acesso ao cuidado não podem ser presumidas iguais às brasileiras.

Por exemplo, o “Marco Nacional da Qualidade” analisado por Casey pertence à Austrália; não é uma regra para creches do Brasil. O Programa de Desenvolvimento Infantil examinado por Karoly pertence às Forças Armadas dos Estados Unidos. E os dados de Hanson descrevem crianças e famílias nos Estados Unidos, não uma amostra nacional brasileira. Os resultados são úteis como perguntas para reflexão, mas não como retrato direto de nossas instituições.

Também é preciso cuidado ao comparar cuidado domiciliar e centros. Harmeyer estudou profissionais negras ou birraciais de cuidado infantil familiar nos Estados Unidos; isso permite compreender motivações daquele grupo entrevistado, não generalizar suas experiências para todas as cuidadoras. Hooper examinou assistentes técnicos de um sistema voluntário. As características do atendimento e dos apoios podem variar, por isso a aplicação no Brasil deve partir das necessidades de cada serviço e comunidade.

Uma adaptação responsável começa por perguntas, não por importação automática de soluções: como acontecem as chegadas e saídas aqui? Que oportunidades as crianças têm de expressar preferências? Que obstáculos dificultam a comunicação com as famílias? De que formação e recursos os profissionais precisam? Essas questões podem orientar conversas pedagógicas sem afirmar que os estudos estrangeiros já responderam por nós. Para decisões institucionais, vale considerar também dados e pesquisas brasileiros pertinentes ao território.

Quais são os limites desta leitura?

Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados na base ERIC, e não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem identificar objetivos, métodos gerais e resultados relatados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, conceitos, análises ou limites de cada pesquisa. Por isso, o texto apresenta apenas o que consta nesses resumos e não atribui aos estudos conclusões adicionais.

Ficam em aberto perguntas importantes: como os resultados se aplicariam a diferentes redes brasileiras? Que práticas concretas de chegada, escuta e comunicação funcionam melhor em cada faixa etária e realidade institucional? Como se relacionam os apoios aos profissionais, a estabilidade das equipes e a experiência cotidiana das crianças? Para responder, é necessário consultar os estudos completos e, em aplicações locais, buscar pesquisas e dados brasileiros.

Também faria sentido ler os textos integrais antes de tomar decisões de política, avaliação ou formação baseadas em um estudo específico. Isso é especialmente importante quando se pretende comparar métodos, interpretar diferenças entre grupos ou adaptar uma recomendação a um serviço com características distintas. A leitura dos resumos é um ponto de partida para organizar perguntas, não uma revisão sistemática de toda a área.

Como o GeraProva ajuda com este assunto?

O GeraProva pode ajudar o professor a transformar temas de educação infantil, cuidado, relações com famílias e desenvolvimento profissional em atividades de revisão ou instrumentos de avaliação adequados ao objetivo pedagógico. A plataforma não substitui a leitura das pesquisas nem define sozinha o que avaliar: cabe ao professor selecionar conteúdos e ajustar as questões ao contexto da turma. Conheça o gerador de provas do GeraProva ou faça seu cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre creches e cuidadores

O que é qualidade no cuidado infantil em creches?

Os estudos reunidos não estabelecem uma definição única e universal de qualidade. Eles investigam dimensões diferentes: as relações observadas nas transições entre casa e serviço, a escuta das crianças, o envolvimento das famílias, as competências profissionais e as condições de trabalho. Casey, por exemplo, encontrou valor informativo nos momentos de chegada e saída; Shaik relacionou escuta a pertencimento e participação. Uma leitura cuidadosa, portanto, considera práticas e contexto, em vez de resumir qualidade a um único indicador.

Por que a chegada e a saída podem ser importantes?

Esses momentos conectam criança, família e educador, e podem permitir que informações relevantes circulem entre os adultos. No estudo australiano, as transições foram consideradas fontes ricas de informação sobre a qualidade das relações. Ao mesmo tempo, os registros de avaliação analisados raramente as observavam na prática. Isso não significa que toda chegada ou saída seja automaticamente boa ou ruim; mostra que essas interações cotidianas podem merecer atenção quando se busca compreender como as relações se desenvolvem no serviço.

Como envolver as famílias sem aumentar a cobrança?

Um caminho é pensar em comunicação como parceria, sem supor que toda família tenha o mesmo tempo ou disponibilidade. Profissionais entrevistados em um estudo relataram falta de tempo e desinteresse percebido como obstáculos, e mencionaram relações melhores com pais entre os resultados percebidos do envolvimento familiar (Rech, 2024). Uma aplicação possível é oferecer mais de uma oportunidade de troca e perguntar qual forma de comunicação é viável. Isso é uma sugestão prática, não uma intervenção cujo efeito tenha sido testado por esse estudo.

Escutar crianças significa deixar que decidam tudo?

Não. No estudo sul-africano, escuta foi relacionada a participação, pertencimento e agência, mas também reconhecida como uma prática complexa em razão de limites de tempo e currículo (Shaik, 2023). Escutar significa considerar expressões, ideias e iniciativas das crianças como relevantes e responder a elas com responsabilidade. O adulto continua responsável por segurança, organização e cuidado. Uma prática possível é oferecer escolhas adequadas à situação e explicar, de modo compreensível, quando uma preferência não pode ser atendida.

O que ajuda os cuidadores a permanecer no trabalho?

Não há uma resposta única nos estudos. No levantamento com profissionais de cuidado domiciliar nos Estados Unidos, a vocação previu significativamente a intenção de permanecer, mas os recursos de trabalho se associaram ao bem-estar e as demandas, negativamente. O senso de comunidade não previu significativamente os resultados examinados (Garcia, 2026). Os autores destacam que a vocação, sozinha, pode não ser suficiente diante de estresse, dificuldades financeiras e desafios de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. O contexto brasileiro precisa ser investigado separadamente.

Posso aplicar diretamente ao Brasil as conclusões desses estudos?

Não é prudente tratá-las como retrato direto do Brasil. As pesquisas estudam sistemas e grupos de países diferentes, incluindo serviços australianos, centros sul-africanos e programas ou profissionais dos Estados Unidos e do Canadá. Elas podem oferecer perguntas úteis para reuniões pedagógicas e planejamento, mas não substituem dados locais. Antes de adotar uma política ou um instrumento, vale verificar se as condições, regras, recursos e necessidades do serviço brasileiro são comparáveis ao contexto estudado.

Referências

  1. Karoly, Lynn A.; Werber, Laura; Bellows, Laura; Kushner, Jonah; Woo, Ashley; Kempf, Jonas (2025). Avaliação do quadro de pessoal do Programa de Desenvolvimento Infantil Militar: constatações iniciais sobre a força de trabalho (Assessment of Military Child Development Program Staffing: Initial Findings Regarding the Workforce). RAND Corporation. Link.
  2. Casey, Charlotte; Thorpe, Karen; Houen, Sandy; Zheng, Zhaoxi; Staton, Sally (2025). Da política à prática: os horários de chegada e saída como “barômetros da qualidade” na avaliação e classificação dos serviços australianos de educação e cuidado na primeira infância (Policy to Practice: Drop-Off and Pick-Up Times as 'Barometers of Quality' in Assessment and Rating of Australian Early Childhood Education and Care Services). Australian Educational Researcher. Link.
  3. Harmeyer, Erin; Wittenberg Camp, Brittany; Moon, Catherine (2025). “Eu consigo, de certa forma, conduzir o trabalho como quero”: motivações e contrastes percebidos na oferta de cuidados em contextos domiciliares ('I Can Kind of Flow How I Want to Flow': Motivations and Perceived Contrasts of Providing Care in Home-Based Settings). Early Childhood Education Journal. Link.
  4. Wood, Lesley; Neethling, Marinda (2024). Profissionalizar a educação e o cuidado na primeira infância na África do Sul não é brincadeira! Identificação de lacunas de competências e implicações para o desenvolvimento futuro do setor (Professionalising ECCE in South Africa Is Not Child's Play! Determining Skills Gaps and Implications for Future Sector Development). European Early Childhood Education Research Journal. Link.
  5. Hanson, Rachel; Bobrowski, John (2024). Participação em programas para a primeira infância: 2023. Primeira análise (Early Childhood Program Participation: 2023. First Look). National Center for Education Statistics. Link.
  6. Rech, John P.; Snyder, K.; Rasmussen, M.; Dev, D.; Dinkel, D. (2024). O uso dos princípios de envolvimento das famílias por profissionais da educação infantil em diferentes contextos de atendimento: um estudo qualitativo (The Use of Family Engagement Principles by Childcare Providers from Various Childcare Settings: A Qualitative Study). Child Care in Practice. Link.
  7. Shaik, Naseema; Martin, Colwyn Deborah; Moodley, Trevor (2023). Reformulando a escuta para promover o pertencimento e a participação em contextos de cuidado e educação na primeira infância: um estudo de caso na África do Sul (Reframing Listening for Belonging and Participation in Early Childhood Care and Education Settings: A Case in South Africa). Early Years: An International Journal of Research and Development. Link.
  8. Hooper, Alison; Han, Myae; Buell, Martha; Hallam, Rena (2023). Perspectivas sobre a qualidade e o apoio ao aprimoramento da qualidade por assistentes técnicos da primeira infância que trabalham com educadores de cuidado infantil familiar (Perspectives on Quality and Supporting Quality Improvement from Early Childhood Technical Assistants Working with Family Child Care Educators). Journal of Early Childhood Teacher Education. Link.
  9. Bonnett, Tina; Sullivan, Jeanna; Terry, Rhea (2026). A falta de moradia na pedagogia da Educação Infantil: percepções de profissionais da Educação Infantil (Homelessness in Early Childhood Education & Care Pedagogy: Insights of ECEC Professionals). Child Care in Practice. Link.
  10. Garcia, Aileen S.; Cook, Heather L.; Gadkari, Vrushali J. (2026). Aplicação da teoria das demandas e dos recursos do trabalho para examinar o bem-estar e a intenção de permanecer entre profissionais de cuidados infantis domiciliares (Applying the Job Demands-Resources Theory to Examine Well-Being and Intention to Stay among Home-Based Child Care Providers). Early Childhood Education Journal. Link.

Se este tema faz parte das conversas da sua equipe, escolha uma pergunta do texto e leve-a para a próxima reunião. Uma boa troca pode começar pela observação atenta do cotidiano.

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