Atividades recreativas e desempenho escolar: participação também pode prever notas
Pesquisas internacionais relacionam atividades organizadas, interesses de lazer e brincadeiras no recreio a diferentes resultados escolares e socioemocionais. Os achados ajudam a planejar experiências, mas não autorizam prometer melhora nas notas.
Cena hipotética: no recreio, uma turma alterna entre cordas, jogos inventados com materiais simples e uma área mais tranquila para conversar. Na volta à sala, a professora percebe que nem todos escolheram a mesma brincadeira — e se pergunta se essas experiências podem se relacionar ao bem-estar, à participação ou até ao desempenho escolar.
Pesquisas realizadas em diferentes contextos investigam justamente essas relações, mas chegam a resultados de tipos distintos: algumas acompanham notas, outras observam interesses de lazer, tempo ao ar livre ou estados emocionais. O que as atividades recreativas podem prever — e o que isso significa, com cuidado, para quem ensina no Brasil?
O que são atividades recreativas como preditores de resultados e por que isso importa para o professor?
Chamar uma atividade de “preditor” significa que ela aparece associada a um resultado em uma análise de pesquisa. Isso não quer dizer, por si só, que a atividade cause aquele resultado. No conjunto de estudos aqui discutido, recreação pode incluir brincadeiras no recreio, atividades físicas de lazer, esportes, artes, voluntariado ou participação em organizações. Os resultados observados também variam: podem ser notas, frequência e duração da atividade física, motivação ou estados de humor.
Na rotina escolar, essa discussão aparece quando a equipe decide como organizar o recreio, como oferecer opções de movimento e convivência ou como reconhecer interesses que não se manifestam apenas durante a aula. Para o professor, a pergunta útil não é “qual brincadeira garante notas melhores?”, mas “que condições de participação parecem se relacionar com os resultados que queremos acompanhar?”. As pesquisas não oferecem uma receita universal; ajudam a formular perguntas melhores sobre acesso, escolha, pertencimento e envolvimento.
Também é importante separar atividades recreativas de uma intervenção pedagógica com objetivo acadêmico direto. Uma criança que participa de um jogo, de um esporte ou de uma atividade cívica não está necessariamente estudando matemática ou língua portuguesa naquele momento. Ainda assim, alguns estudos investigam se dimensões dessa participação se relacionam com resultados escolares ou com aspectos que fazem parte da experiência de aprender. A relação pode ser diferente conforme a idade, o contexto e a forma de medir a participação.
O que a pesquisa recente mostra sobre recreação e resultados escolares?
Os estudos recentes não tratam “recreação” como uma variável única. Alguns acompanham o rendimento acadêmico ao longo de um ano; outros relacionam preferências de lazer a padrões de atividade física ou examinam uma intervenção no recreio. Essa variedade permite enxergar pistas complementares, mas exige atenção: uma associação encontrada em um estudo não deve ser transportada automaticamente para outro tipo de atividade ou para qualquer escola.
Atividades organizadas podem acompanhar mudanças nas notas, sem provar uma causa simples
Um estudo longitudinal com estudantes do ensino médio examinou atividades organizadas cívicas e não cívicas durante o ano letivo. Entre as primeiras estavam exemplos como trabalho voluntário e participação em grêmio estudantil; esportes e artes foram citados como exemplos de atividades não cívicas. Os pesquisadores consideraram dimensões como intensidade, duração e motivações, além de outras covariáveis, e compararam médias de notas anteriores e de fim de ano. Os resultados indicaram que os dois tipos de atividade predisseram, de forma independente, aumentos na média das notas ao longo do ano (Philippe, 2023).
Esse achado chama atenção porque coloca lado a lado atividades que costumam ser vistas como diferentes: participação cívica e atividades organizadas não cívicas. A conclusão relatada é de predição mesmo após o controle das covariáveis consideradas. Isso não significa que toda participação em esporte, arte ou voluntariado elevará as notas de qualquer estudante, nem permite concluir que uma categoria seja superior à outra. O resultado é uma relação observada no grupo estudado e ao longo do período acompanhado.
Para o professor, há uma distinção prática importante: oferecer oportunidades de participação pode ser relevante para além da atividade em si, mas não é adequado transformar toda experiência recreativa em estratégia de cobrança acadêmica. O estudo não afirma que cada encontro de clube ou cada treino produza uma melhora individual nas notas. Ele sugere que o envolvimento em atividades organizadas merece ser considerado quando se investiga a vida escolar dos adolescentes e sua relação com os resultados acadêmicos.
Interesses e variedade de lazer ajudam a entender a participação física
Uma pesquisa exploratória conduzida no contexto australiano investigou a relação entre a atividade física de crianças em idade escolar e suas preferências de lazer. Participaram 27 pares de crianças e responsáveis. Entre os resultados, a variedade de atividades de jogos e esportes apresentou correlação significativa com a duração das atividades físicas na escola. O estudo também encontrou relações preditivas entre preferências por atividades de lazer e frequência ou duração de diferentes atividades físicas (Lui, 2025).
Os autores destacam elementos específicos, não apenas uma oposição simples entre criança “ativa” e “inativa”. A variedade de jogos e esportes esteve relacionada à duração da atividade física na escola; a variedade de atividades de enriquecimento pessoal foi preditiva da frequência de atividades esportivas durante a semana e nos fins de semana. A sociabilidade em atividades instrumentais realizadas em ambientes internos predisse a duração das atividades físicas de lazer nos fins de semana. Em conjunto, esses resultados apontam para uma relação entre o que as crianças preferem fazer e como participam de atividades físicas.
A pesquisa é exploratória e tem um grupo pequeno, portanto não sustenta uma regra aplicável a todas as crianças. Seu valor para a prática está em lembrar que “gostar de lazer” pode envolver variedade, sociabilidade e preferências diferentes. Uma proposta que contempla apenas uma modalidade pode não conversar com os interesses de parte da turma. Os autores recomendam compreender essas preferências para planejar intervenções centradas na criança, sem sugerir que uma atividade específica funcione para todos.
Brincadeiras no recreio se relacionam com motivação e humor
Outro estudo investigou uma intervenção no recreio baseada em brincadeiras das crianças, com materiais confeccionados por elas mesmas. A pesquisa examinou necessidades psicológicas básicas, regulações motivacionais, índice de autodeterminação e estados de humor, como medo, felicidade, tristeza e raiva. Participaram 219 estudantes do terceiro ao sexto ano. Os resultados relatados incluíram diminuição de algumas regulações motivacionais, da desmotivação e do medo, além de aumento do índice de autodeterminação conforme o ano escolar (Méndez-Giménez, 2025).
Os autores também encontraram diferenças por gênero nas medidas observadas: os meninos pontuaram mais alto em autonomia, competência, regulação externa e raiva, enquanto as meninas pontuaram mais alto em felicidade. Nas análises de predição, o índice de autodeterminação e a novidade foram preditores de felicidade nos meninos; o pertencimento foi o principal preditor para as meninas. O pertencimento previu negativamente a raiva nos meninos, e o índice de autodeterminação previu negativamente medo e tristeza em ambos os gêneros (Méndez-Giménez, 2025).
Esse estudo não avaliou notas como resultado principal. Sua contribuição está em tratar o recreio como um espaço em que organização e possibilidades de brincadeira se relacionam com dimensões motivacionais e emocionais. A própria pesquisa sugere considerar diferenças por ano escolar e gênero ao planejar intervenções para promover atividade física e bem-estar. Isso não significa separar automaticamente crianças em grupos nem presumir que cada estudante terá a mesma resposta: os resultados descrevem padrões observados no estudo, não destinos individuais.
Tempo ao ar livre depende de mais do que o tamanho do espaço
No Chile, uma pesquisa em centros de educação infantil caracterizou os ambientes externos, examinou variações de uso conforme a idade e reuniu sugestões de educadores para ampliar o tempo ao ar livre. Foram entrevistados 521 educadores, e a abordagem combinou métodos. O tamanho do espaço externo foi o único preditor relevante do tempo ao ar livre identificado no estudo. Ao mesmo tempo, as características do ambiente apresentaram correlações fracas com o tempo efetivamente passado fora (Cubillos, 2025).
Os educadores destacaram a necessidade de mais equipamentos, áreas verdes e espaços cobertos. Ainda assim, os resultados indicam uma tensão: melhorar a estrutura pode ser importante, mas as características físicas consideradas não explicaram fortemente o tempo de uso. Os autores apontam que outros fatores, possivelmente ligados às percepções e às práticas dos educadores, precisam ser investigados para aumentar efetivamente o tempo ao ar livre (Cubillos, 2025).
Esse achado amplia a conversa sobre recreação: não basta perguntar se existe pátio ou equipamento; também importa observar como o espaço é usado. A pesquisa não identifica quais práticas específicas aumentariam esse tempo, então seria exagero transformar a sugestão em um método comprovado. O que ela oferece é uma pergunta concreta para equipes escolares: além da infraestrutura disponível, que decisões e rotinas podem estar influenciando o acesso das crianças ao ambiente externo?
Quais estudos aparecem lado a lado?
Os quatro estudos abaixo investigam formas distintas de participação recreativa e resultados diferentes. A tabela resume o foco e o que os resumos relatam, sem tratar medidas de humor, notas, tempo ao ar livre e atividade física como se fossem equivalentes.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Philippe, 2023 | Atividades organizadas cívicas e não cívicas e médias de notas. | Ambos os tipos predisseram independentemente aumentos na média das notas ao longo do ano letivo, após controle de covariáveis. | Estudantes do ensino médio; país não informado no resumo; acompanhamento longitudinal durante o ano letivo. |
| Lui, 2025 | Relação entre preferências de lazer e atividade física de crianças. | Variedade, preferências e sociabilidade em dimensões de lazer se relacionaram a medidas de atividade física. | Contexto australiano; crianças em idade escolar; 27 pares de crianças e responsáveis. |
| Méndez-Giménez, 2025 | Intervenção no recreio baseada em brincadeiras e materiais confeccionados pelas crianças; motivação e humor. | Relata mudanças em medidas motivacionais e de humor, além de preditores de estados emocionais. | 219 estudantes do terceiro ao sexto ano; país não informado no resumo. |
| Cubillos, 2025 | Tempo ao ar livre em centros de educação infantil, ambientes externos e sugestões de educadores. | O tamanho do espaço foi o único preditor relevante; características ambientais tiveram correlações fracas com o tempo efetivo ao ar livre. | Chile; entrevistas com 521 educadores de centros de educação infantil. |
O que os estudos têm em comum e onde diferem?
O ponto comum mais útil é que a participação não aparece como uma categoria abstrata. Os estudos observam dimensões concretas: envolvimento em atividades organizadas, variedade de interesses, sociabilidade, condições do espaço, motivação e humor. Em vez de perguntar somente se uma criança participa ou não, essas pesquisas ajudam a considerar em que atividade ela participa, por quanto tempo, com que interesse e em quais condições.
Há também uma diferença importante no tipo de resultado. Philippe e colaboradores acompanham médias de notas e relatam predição de aumento ao longo do ano letivo. Lui e colaboradores relacionam preferências de lazer a indicadores de atividade física. Méndez-Giménez e colaboradores examinam motivação e humor no recreio. Cubillos e colaboradores investigam tempo ao ar livre. Não se pode reunir esses resultados em uma afirmação única de que “recreação melhora o desempenho”: só um dos estudos citados tem notas como resultado diretamente observado.
Os desenhos e contextos também variam. O estudo de Philippe é longitudinal; o de Lui é exploratório e envolve 27 pares; a pesquisa de Méndez-Giménez examina uma intervenção no recreio; e a de Cubillos usa métodos mistos em centros de educação infantil no Chile. Os resumos não fornecem uma base para comparar diretamente a força dos resultados entre esses desenhos. Mesmo quando os termos “preditor” ou “predisse” aparecem, a palavra descreve o tipo de relação analisada, não prova automaticamente uma causa.
Uma questão ainda em aberto é como as características pessoais, as práticas dos adultos e as oportunidades disponíveis se combinam. Cubillos e colaboradores apontam que fatores ligados às percepções e às práticas dos educadores podem ser relevantes, mas precisam ser investigados. Lui e colaboradores destacam a necessidade de mais pesquisas sobre lazer e atividade física. Os outros resultados também não permitem saber, a partir dos resumos, quais formas específicas de atividade seriam mais adequadas para cada contexto escolar.
Como aplicar essas ideias na sala de aula e no recreio?
Os estudos podem inspirar observações e decisões de planejamento, mas as propostas abaixo são aplicações pedagógicas, não resultados testados pelas pesquisas. O professor pode usá-las como pontos de partida, ajustando-as aos recursos, à idade das crianças e à organização da escola.
Aplicação: ofereça mais de uma forma de participar
Uma forma de aplicar os achados sobre variedade de lazer é oferecer opções de movimento e convivência, em vez de pressupor que todos preferem o mesmo jogo. Imagine um recreio com cordas, brincadeiras de perseguição e uma área para jogos em pequenos grupos. A intenção não é reproduzir uma intervenção específica estudada, mas observar se diferentes possibilidades ampliam a participação de crianças com interesses distintos. Vale registrar quais opções são procuradas e quais ficam sem uso.
Aplicação: pergunte às crianças o que elas gostam de fazer
O estudo australiano relacionou preferências e aspectos da participação em lazer a indicadores de atividade física. Como aplicação, o professor pode fazer uma conversa breve ou uma consulta simples sobre jogos, esportes e atividades de que a turma gosta. Imagine uma turma que menciona brincadeiras que não estavam no planejamento: a equipe pode avaliar se alguma delas cabe no espaço disponível. O levantamento não precisa virar teste nem rotular estudantes como mais ou menos ativos; serve para abrir possibilidades de planejamento centradas nos interesses infantis.
Aplicação: acompanhe pertencimento e clima, além da adesão
A pesquisa sobre intervenção no recreio examinou pertencimento, motivação e estados de humor. Uma aplicação possível é observar, depois de propor uma brincadeira, se as crianças encontram espaço para participar, se algumas ficam repetidamente de fora e como descrevem a experiência. Por exemplo, após um jogo coletivo, o professor pode perguntar o que ajudou ou dificultou a participação. Isso não equivale às medidas usadas no estudo, mas pode ajudar a equipe a refletir sobre o ambiente social sem concluir que um comportamento isolado revela o estado emocional de alguém.
Aplicação: envolva as crianças na criação de materiais e regras
Como o estudo de Méndez-Giménez examinou uma intervenção baseada em brincadeiras das crianças e materiais confeccionados por elas, uma possibilidade de aplicação é convidar a turma a criar ou adaptar materiais simples e combinar regras. Em uma situação hipotética, estudantes propõem como usar objetos disponíveis para inventar uma brincadeira em equipes pequenas. A finalidade é oferecer voz e escolha, não garantir que a experiência produza o mesmo efeito motivacional observado na pesquisa. É importante manter alternativas para quem prefira não participar de uma proposta específica.
Aplicação: avalie o uso real dos espaços externos
A pesquisa chilena sugere que espaço e tempo efetivo ao ar livre não se relacionam de modo simples. Como aplicação, a equipe pode observar em quais momentos o pátio é utilizado, quais áreas ficam acessíveis e que rotinas interferem no uso. Imagine uma escola com área externa disponível, mas pouco utilizada em determinados períodos: uma conversa entre docentes pode esclarecer barreiras práticas antes de propor novas compras. Esse diagnóstico local não substitui o estudo nem comprova uma solução; ajuda a formular perguntas sobre infraestrutura e organização.
Aplicação: trate atividades organizadas como oportunidades, não como prêmio por nota
O estudo com estudantes do ensino médio relacionou participação em atividades cívicas e não cívicas organizadas a aumentos na média das notas. Como aplicação, a escola pode apresentar oportunidades como grupos, esportes, artes ou ações cívicas sem condicionar o acesso ao desempenho acadêmico. Por exemplo, uma equipe pode mapear quais atividades existem e quem consegue participar. O achado não sustenta a ideia de que a atividade deva ser usada como recompensa ou como obrigação para elevar a nota; ele justifica levar a participação a sério quando se conversa sobre a experiência escolar.
Aplicação: observe processos ao longo do tempo, sem prometer resultados
Se a escola decidir testar uma nova proposta recreativa, pode acompanhar aspectos simples, como participação, preferências relatadas e uso do espaço, além de conversar com a turma. Imagine que uma brincadeira nova seja oferecida por algumas semanas: a equipe pode verificar se diferentes crianças se aproximam dela e se é preciso ajustar regras ou materiais. Essa observação é uma aplicação local, não uma replicação científica. Evite concluir que a mudança causou melhora nas notas sem uma avaliação apropriada e sem considerar outros fatores.
O que muda quando trazemos esses estudos para o contexto brasileiro?
Dois contextos são identificados explicitamente nos resumos: a pesquisa sobre tempo ao ar livre foi realizada no Chile, em centros de educação infantil, e a pesquisa sobre preferências de lazer e atividade física ocorreu no contexto australiano. Já os resumos dos estudos sobre recreio e atividades organizadas não indicam o país; por isso, não cabe atribuir a eles um contexto nacional específico. Essa diferença importa: espaço físico, organização dos horários e oportunidades de atividade podem variar de uma escola para outra, e os resultados não devem ser tratados como uma descrição direta da realidade brasileira.
Uma adaptação responsável começa pelo que a escola tem e pelo que as crianças fazem de fato. A observação de um pátio brasileiro não pode partir da suposição de que as condições são iguais às dos centros chilenos estudados. Da mesma forma, os interesses de lazer identificados entre crianças no contexto australiano não representam automaticamente as preferências de crianças brasileiras. As pesquisas apoiam a importância de investigar interesses e participação, mas a própria aplicação precisa escutar a turma local.
Também é necessário evitar importar conclusões sobre notas para qualquer proposta recreativa. A evidência mais diretamente ligada ao rendimento acadêmico neste conjunto é o estudo sobre atividades organizadas no ensino médio. Os outros trabalhos tratam de atividade física, motivação, humor e tempo ao ar livre. Uma escola brasileira pode considerar esses resultados ao planejar oportunidades, mas deve nomear com clareza o que está tentando promover e não prometer que uma brincadeira específica elevará o desempenho.
Por fim, adaptação inclui olhar para acesso e escolha: quais espaços estão disponíveis, que materiais podem ser usados, quais atividades contemplam diferentes interesses e como as regras permitem participação. Essas perguntas são sugestões de aplicação, não conclusões diretas dos estudos. O ponto transferível é a postura investigativa: observar a vida cotidiana da escola, evitar soluções únicas e verificar como as propostas funcionam naquele ambiente.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de quatro estudos recentes, não na leitura integral dos artigos. Por isso, apresenta somente os objetivos, os contextos e os resultados descritos nesses resumos. Os estudos têm focos e desenhos diferentes, e seus resultados não são diretamente comparáveis. Além disso, os contextos nacionais não são informados para todos eles. Essas limitações pedem cautela ao transportar conclusões para outras escolas ou tratá-las como evidência de causa e efeito.
Ficam em aberto perguntas práticas: que componentes das atividades organizadas estão mais ligados às mudanças nas notas? Que práticas dos educadores favorecem o uso do espaço ao ar livre? Como as preferências de lazer se desenvolvem em contextos diferentes? E quais características das intervenções no recreio ajudam a explicar mudanças motivacionais e emocionais? Para responder a essas perguntas, seria necessário consultar os estudos completos e, dependendo do objetivo, outras pesquisas sobre contextos brasileiros.
Faz sentido ler o estudo completo quando a escola pretende planejar uma intervenção inspirada nele, quando é necessário compreender instrumentos e procedimentos, ou quando se quer avaliar com mais precisão o alcance dos resultados. Também vale conferir o texto integral antes de citar números, fazer comparações entre grupos ou recomendar uma política. Aqui, o resumo serve como uma entrada útil: oferece pistas e perguntas para a prática, sem substituir a análise mais aprofundada.
Como o GeraProva ajuda com atividades recreativas e avaliação?
O GeraProva não substitui o planejamento de recreios, atividades de lazer ou acompanhamento de bem-estar, mas pode apoiar o professor na criação de questões e materiais de avaliação relacionados a temas trabalhados em aula. Com o gerador de provas do GeraProva, é possível organizar avaliações de acordo com os objetivos definidos pelo docente; o cadastro grátis permite conhecer a plataforma e explorar esse apoio no planejamento.
Perguntas frequentes sobre atividades recreativas e desempenho escolar
Atividades recreativas melhoram as notas dos estudantes?
Os estudos reunidos não permitem afirmar que qualquer atividade recreativa, por si só, melhore as notas. Um estudo longitudinal com estudantes do ensino médio encontrou que atividades organizadas cívicas e não cívicas predisseram aumentos na média das notas ao longo do ano, mesmo após o controle de covariáveis (Philippe, 2023). Os outros estudos aqui discutidos examinaram atividade física, preferências de lazer, motivação, humor ou tempo ao ar livre, não notas como resultado principal. Portanto, é mais fiel dizer que há relações investigadas em contextos específicos do que prometer um efeito acadêmico universal.
O que significa dizer que uma atividade é preditora?
Na linguagem das pesquisas, dizer que uma variável prediz outra significa que ela aparece relacionada ao resultado em uma análise estatística. Isso não prova automaticamente que seja a causa do resultado. No estudo de Philippe, por exemplo, atividades cívicas e não cívicas predizeram aumentos nas médias das notas ao longo do ano, após considerar covariáveis. Esse achado é relevante, mas não demonstra que obrigar um estudante a participar de uma atividade produzirá melhora individual. Para a prática, a palavra “preditor” pede interesse e atenção, não uma promessa de causalidade.
Qual é a relação entre interesses de lazer e atividade física?
No estudo realizado no contexto australiano, a variedade de jogos e esportes esteve correlacionada à duração das atividades físicas na escola. Outras dimensões das preferências de lazer também foram preditivas de frequência ou duração de atividades físicas em diferentes períodos (Lui, 2025). Os autores sugerem compreender os interesses das crianças para planejar ações centradas nelas. Como a pesquisa foi exploratória e envolveu 27 pares de crianças e responsáveis, não é adequado transformar os resultados em uma regra para todas as turmas. A aplicação mais prudente é perguntar e observar o que interessa aos estudantes.
Ter um pátio maior garante que as crianças passem mais tempo ao ar livre?
Não é isso que o estudo chileno permite concluir. Entre os aspectos examinados, o tamanho do espaço externo foi o único preditor relevante do tempo ao ar livre. Porém, as características do ambiente apresentaram correlações fracas com o tempo efetivamente passado fora, e os autores apontam que outros fatores, possivelmente ligados às percepções e às práticas dos educadores, precisam ser investigados (Cubillos, 2025). Os educadores mencionaram equipamentos, áreas verdes e espaços cobertos como necessidades. Assim, infraestrutura importa como questão, mas não basta para explicar sozinha o uso cotidiano do espaço.
O que a pesquisa sobre recreio encontrou em relação ao humor?
Uma intervenção baseada em brincadeiras das crianças e em materiais confeccionados por elas foi estudada com 219 estudantes do terceiro ao sexto ano. Os autores examinaram motivação, necessidades psicológicas básicas e estados de humor. Entre os resultados relatados, houve diminuição de algumas regulações motivacionais, da desmotivação e do medo; também foram identificados preditores de felicidade, raiva, medo e tristeza (Méndez-Giménez, 2025). O estudo não avaliou notas como resultado principal. Para a escola, a pesquisa chama atenção para a dimensão emocional do recreio, sem permitir prever como cada criança reagirá a uma atividade.
Como usar essas pesquisas sem transformar a recreação em obrigação?
Uma aplicação cuidadosa é ampliar oportunidades, ouvir preferências e observar quem consegue participar, sem exigir que toda criança escolha a mesma brincadeira ou vincular o acesso a atividades ao desempenho escolar. O estudo sobre lazer ressalta a importância de compreender as preferências das crianças para planejar intervenções centradas nelas (Lui, 2025), enquanto a pesquisa sobre atividades organizadas relaciona participação a mudanças nas notas sem afirmar que uma atividade deva ser imposta (Philippe, 2023). O professor pode experimentar propostas e acompanhar a participação local, deixando claro que essa observação é uma iniciativa pedagógica, não uma conclusão já comprovada pelos estudos.
Referências
- Philippe, Frederick L.; Gingras, Marie-Pier; Ghassemi-Bakhtiari, Nessa; Poulin, François; Robitaille, Jean; Denault, Anne-Sophie; Dandeneau, Stéphane. (2023). Atividades cívicas e não cívicas organizadas como preditoras do rendimento acadêmico de estudantes do ensino médio (Organized Civic and Non-Civic Activities as Predictors of Academic GPA in High School Students). Applied Developmental Science. Link.
- Lui, Tin Tsing; Yu, Mong-Lin; Brown, Ted. (2025). A relação entre a atividade física de crianças em idade escolar e seus interesses em atividades de lazer: um estudo exploratório (The Relationship between School-Age Children's Physical Activity and Their Leisure Activity Interests: An Exploratory Study). Journal of Occupational Therapy, Schools & Early Intervention. Link.
- Méndez-Giménez, Antonio; García-Rodríguez, Iván. (2025). Preditores Motivacionais dos Humores de Escolares em uma Intervenção no Recreio (Motivational Predictors of Schoolchildren's Moods in a Recess Intervention). Journal of Teaching in Physical Education. Link.
- Cubillos, Montserrat; Ferranty, Anna. (2025). Além do tamanho: os preditores difíceis de identificar do tempo ao ar livre em contextos de educação infantil (Beyond Size: The Elusive Predictors of Outdoor Time in Early Childhood Settings). AERA Online Paper Repository. Link.
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