Apoio a estudantes vulneráveis: acesso não é o mesmo que participação
Estudos recentes apontam desigualdades no acesso a livros, música, identificação de deficiência e apoio pedagógico. Veja o que esses achados sugerem — e o que cabe adaptar à realidade brasileira.
Oferecer a mesma oportunidade no papel não garante que todos os estudantes consigam participar dela.
Pesquisas recentes sobre educação básica mostram desigualdades em situações bem concretas: quem tem acesso a livros, quem participa de aulas de música, quem é identificado para receber serviços de educação especial e que orientação os professores recebem para ensinar grupos historicamente pouco atendidos. Os contextos estudados são majoritariamente dos Estados Unidos, mas as perguntas ajudam a observar a rotina escolar com mais cuidado: a oportunidade existe para todos? E as condições para aproveitá-la também?
O que é apoio educacional a estudantes de baixa renda, de grupos minoritários e com deficiência e por que importa para o professor?
Apoio educacional é o conjunto de condições, recursos e decisões que permite ao estudante acessar as atividades, participar delas e aprender. Na rotina, isso pode envolver materiais disponíveis, adaptações de ensino, reconhecimento de necessidades, oferta de experiências variadas e orientação para o professor. Não é uma ação isolada nem uma qualidade que o estudante precisa provar que merece.
Essa definição importa porque as desigualdades nem sempre aparecem como uma proibição explícita. Podem surgir quando uma atividade existe, mas não chega a certos estudantes; quando faltam recursos para realizá-la; ou quando processos de identificação e encaminhamento deixam de reconhecer uma necessidade. Os estudos reunidos aqui tratam de dimensões diferentes, por isso não devem ser lidos como se medissem um único fenômeno. Em conjunto, porém, chamam atenção para a distância entre uma oferta formal e uma participação efetiva.
Para quem ensina, a questão se manifesta em escolhas cotidianas: quais textos e tarefas entram no planejamento, que alternativas de participação são oferecidas, como se acompanha a aprendizagem e que apoios estão disponíveis. Observar essas decisões não significa atribuir toda a responsabilidade ao professor. As pesquisas também apontam para o papel de recursos, formação, colaboração e decisões institucionais.
O que a pesquisa recente mostra sobre acesso e participação?
Ter uma atividade disponível não significa que todos participem dela
Dois estudos sobre música escolar ajudam a visualizar essa diferença. Em Massachusetts, uma análise da participação de estudantes do ensino médio encontrou que a condição de baixa renda foi um preditor negativo significativo do envolvimento em aulas de música em todos os modelos analisados. A condição de deficiência foi um preditor negativo significativo em alguns modelos, enquanto a condição de aprendiz de inglês não foi significativa em nenhum deles. Os autores concluem que estudantes de baixa renda e estudantes com deficiência continuavam sub-representados nessas aulas (Sı, 2026).
O resultado não autoriza dizer que a mesma relação exista em todas as escolas ou em outros países. Ele mostra que, naquele contexto estadual dos Estados Unidos, a participação não estava distribuída de maneira igual entre os grupos examinados. Para o professor, a pergunta prática é se a oferta de atividades extracurriculares ou curriculares está chegando a diferentes estudantes e que barreiras concretas podem estar limitando o envolvimento.
Uma pesquisa sobre cursos de música no estado de Nova York também encontrou sub-representação de estudantes com deficiência. Além disso, revelou diferenças de participação por raça, gênero, nível socioeconômico e língua materna em diferentes experiências musicais. O estudo observou que cursos como violão e piano ajudavam a equilibrar o perfil demográfico dos programas, em contraste com a presença desproporcional de estudantes brancos e de maior poder aquisitivo nos grandes conjuntos musicais (Knapp, 2023).
Esses resultados não provam que uma modalidade específica seja automaticamente mais inclusiva. Eles sugerem que o tipo de experiência oferecida pode estar relacionado a quem participa. A distinção é relevante: ampliar uma oportunidade pode exigir olhar não só para a existência do programa, mas também para seu formato, seus requisitos e as condições de entrada.
O acesso a materiais e oportunidades pode seguir padrões desiguais
Um relatório sobre aulas de Língua Inglesa nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio dos Estados Unidos analisou a atribuição de livros na íntegra. A maioria dos professores pesquisados atribuiu pelo menos um livro durante o ano letivo de 2024–2025, mas a leitura de livros inteiros continuava periférica em muitas salas: 9% não atribuíram nenhum, e cerca de dois terços atribuíram de um a quatro. Os relatos também indicaram que professores que atendiam a mais estudantes historicamente desfavorecidos atribuíam sistematicamente menos livros na íntegra. Em média, apenas cerca da metade dos livros atribuídos constava dos materiais curriculares adotados ou recomendados (Woo, 2026).
Esse estudo não trata diretamente de deficiência nem mede a experiência de cada estudante. Sua contribuição para o tema é mostrar como o acesso a uma experiência curricular pode variar conforme o contexto dos estudantes e a disponibilidade de materiais. A diferença entre o que o professor gostaria de propor e o que o currículo oferece também aparece como uma condição que merece atenção.
Para a sala de aula, isso leva a perguntas concretas: há materiais suficientes para a proposta? O planejamento permite que estudantes com diferentes necessidades participem? Se a resposta depende de recursos extras, a escola tem como disponibilizá-los? Essas perguntas não substituem políticas de acesso, mas ajudam a identificar onde uma intenção pedagógica encontra obstáculos.
Identificação e apoio dependem de sistemas que funcionem
Uma pesquisa com dados de Michigan examinou as identificações e descontinuações na educação especial durante a pandemia. Do jardim de infância ao 5º ano, as identificações caíram 19% e 12% nos dois primeiros anos da pandemia. As reduções foram maiores em distritos que ofereceram ensino remoto e entre estudantes negros, asiáticos e em situação de vulnerabilidade econômica. As taxas voltaram à tendência em 2021–2022 e continuaram crescendo em 2022–2023, mas os autores consideram provável que essa recuperação ainda não tenha revertido o déficit da pandemia (Hopkins, 2025).
O achado chama atenção para o risco de uma interrupção no funcionamento dos serviços afetar quem é identificado para recebê-los. Não significa que todo estudante não identificado tenha uma deficiência, nem que uma oscilação em outro sistema escolar produza a mesma consequência no Brasil. Mostra, naquele estado, que os processos de identificação sofreram mudanças desiguais durante uma crise e que a recuperação posterior não necessariamente compensou tudo.
Outro estudo, com dados do Texas, investigou a associação entre um limite de facto para o recebimento de serviços de educação especial e a identificação de estudantes. Após a adoção do limite, estudantes negros e aprendizes de inglês passaram gradualmente a ter menor probabilidade de identificação do que seus pares desses grupos nos estados vizinhos, nas análises realizadas. Os autores relacionam os resultados a disparidades de identificação e a preocupações sobre exigências de busca ativa e oferta de educação pública apropriada (Morgan, 2023).
As pesquisas de Michigan e do Texas mostram questões diferentes: uma examina uma ruptura ligada à pandemia; a outra, a associação entre uma política e disparidades de identificação ao longo do tempo. Não é possível tratá-las como prova de que a mesma causa opera em qualquer escola. Juntas, porém, reforçam a importância de acompanhar se os processos que deveriam reconhecer necessidades continuam funcionando para diferentes grupos.
Equidade também depende de orientação e recursos para quem ensina
Um estudo qualitativo ouviu 45 professores de matemática e de língua inglesa, da Educação Infantil ao 12º ano, nos Estados Unidos. Cerca de um terço relatou não receber orientações sobre como ensinar estudantes de grupos historicamente pouco atendidos. Entre os que recebiam orientações, apareceram mensagens sobre ensino culturalmente responsivo, ensino informado pelo trauma e adaptação do ensino. Um terço relatou receber orientação por meio de formação profissional, colaboração entre pares e lideranças do sistema educacional (Gittens, 2024).
Os professores entrevistados mencionaram incluir perspectivas diversas nos currículos e identificaram especialistas, orientadores pedagógicos e formação profissional como recursos importantes. Vários também disseram precisar de orientações concretas e eficazes. Como se trata de um estudo qualitativo com professores de duas áreas, ele oferece percepções e exemplos, não uma medida de prevalência para todas as redes ou disciplinas.
Uma perspectiva sobre educação matemática nos Estados Unidos reúne fatores apontados como importantes para um ensino equitativo e de qualidade: oportunidades de aprender matemática, acesso a disciplinas rigorosas e intervenções, materiais didáticos de qualidade, formação continuada alinhada ao currículo e apoio para atender a diferentes necessidades. O texto também destaca atenção especial à recuperação da aprendizagem de estudantes negros, hispânicos e em situação de pobreza (Kaufman, 2023).
Essa publicação apresenta uma agenda e uma síntese de fatores, não um teste de uma intervenção específica. Sua contribuição é lembrar que equidade não se resume à iniciativa individual de um professor: depende também das oportunidades oferecidas e das condições para planejar, ensinar e apoiar a aprendizagem.
O que os estudos mostram lado a lado?
Os estudos abaixo observam aspectos distintos do apoio educacional. A tabela resume o que cada pesquisa investigou e relata, mantendo o contexto de origem para evitar generalizações indevidas.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| (Sı, 2026) | Relação entre baixa renda, deficiência, condição de aprendiz de inglês e participação em música. | Baixa renda foi preditor negativo significativo em todos os modelos; deficiência em alguns; aprendiz de inglês em nenhum. Os dois primeiros grupos estavam sub-representados. | Ensino médio, Massachusetts, dados de 2023. |
| (Knapp, 2023) | Perfil demográfico de cursos de música escolares. | Estudantes com deficiência estavam sub-representados; cursos de violão e piano ajudavam a equilibrar o perfil dos grandes conjuntos. | Estado de Nova York; cursos de música no ensino médio. |
| (Woo, 2026) | Atribuição de livros na íntegra e variação por currículo e contexto. | A maioria atribuiu ao menos um; cerca de dois terços, de um a quatro. Professores com mais estudantes historicamente desfavorecidos atribuíam menos livros. | Estados Unidos; anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio; ano letivo 2024–2025. |
| (Hopkins, 2025) | Identificação e descontinuação na educação especial durante a pandemia. | Identificações caíram 19% e 12% nos dois primeiros anos da pandemia; houve quedas maiores em alguns grupos e recuperação considerada incompleta. | Michigan; jardim de infância ao 5º ano; 2019–2023. |
| (Morgan, 2023) | Associação entre limite de serviços de educação especial e disparidades de identificação. | Após a adoção do limite, estudantes negros e aprendizes de inglês tiveram redução gradual na probabilidade de identificação frente a grupos comparáveis nos estados vizinhos. | Texas; estudantes do 4º ano; dados de 2003 a 2017. |
| (Gittens, 2024) | Percepções docentes sobre orientações e práticas equitativas. | Parte dos professores relatou falta de orientações; participantes citaram formação, colaboração, especialistas e instruções mais concretas como apoios. | Estados Unidos; 45 professores de matemática e língua inglesa da Educação Infantil ao 12º ano. |
| (Kaufman, 2023) | Fatores para ensino e aprendizagem de matemática com equidade. | Destaca oportunidades, disciplinas rigorosas, intervenções, bons materiais, formação alinhada ao currículo e apoio a necessidades diversas. | Estados Unidos; perspectiva de pesquisa em educação matemática. |
Quais pontos em comum e divergências aparecem?
Um ponto em comum é que a participação depende de mais do que a oferta formal. Nos estudos de música, determinados grupos aparecem sub-representados; no de livros, os relatos variam conforme a composição do público atendido e os recursos curriculares disponíveis. Nas pesquisas sobre educação especial, as identificações mudam conforme o período e as condições institucionais. A equidade, portanto, pode ser observada em diferentes etapas: oportunidade oferecida, acesso, participação e continuidade do apoio.
Os estudos também diferem no que conseguem afirmar. Análises de dados de participação e identificação apontam padrões estatísticos em contextos específicos. Entrevistas com professores registram percepções e práticas relatadas. Uma perspectiva de pesquisa propõe fatores para orientar investigação e ação. Esses desenhos não são intercambiáveis: uma percepção docente não mede a participação da rede inteira, e um padrão estatístico não explica sozinho o motivo de cada decisão.
Há ainda resultados que não devem ser forçados a uma conclusão única. No estudo de Massachusetts, a condição de aprendiz de inglês não foi um preditor significativo da participação em música, mas no estudo do Texas, aprendizes de inglês aparecem no exame de disparidades de identificação para educação especial. Isso não é necessariamente contradição: tratam de resultados, políticas e contextos diferentes.
Ficam abertas perguntas importantes: quais barreiras específicas explicam a sub-representação em cada atividade? Que apoios funcionam em diferentes realidades escolares? Como garantir que a identificação de uma necessidade resulte em suporte adequado? Os resumos disponíveis não permitem responder a essas questões por completo, mas ajudam a formulá-las de maneira mais precisa.
O que isso significa para a sala de aula?
Os estudos não prescrevem um roteiro único para escolas brasileiras. As sugestões a seguir são aplicações possíveis das questões levantadas pelas pesquisas, não resultados testados por elas.
1. Observe quem participa, não apenas quem recebeu o convite
Uma forma de aplicar os achados é acompanhar, ao longo de algumas atividades, quem consegue participar e quem fica de fora. Imagine uma turma em que todos foram convidados para uma apresentação musical, mas poucos estudantes se inscrevem. O registro não serve para rotular ninguém: ajuda a perguntar se horário, formato, custo de materiais ou organização criam barreiras. Converse com a turma e com a equipe antes de concluir por que a participação varia.
2. Confira se o formato da atividade oferece mais de uma porta de entrada
As diferenças entre grandes conjuntos e experiências como violão e piano no estudo de Nova York sugerem uma pergunta sobre formatos. Como aplicação, um professor pode planejar opções de participação em uma atividade, permitindo que estudantes demonstrem envolvimento de maneiras distintas. Imagine uma proposta musical que combine execução, criação de ritmo e apreciação. Isso não garante que a atividade se torne inclusiva por si só, mas oferece uma oportunidade para identificar se um único formato estava restringindo a participação.
3. Examine os materiais que sustentam o planejamento
A relação entre livros atribuídos e recursos curriculares observada por Woo convida a verificar o que está realmente disponível. Uma aplicação possível é mapear materiais acessíveis, alternativas de leitura e recursos que precisam ser solicitados com antecedência. Imagine uma turma que vai ler uma obra completa: antes de começar, o professor confere se há exemplares suficientes e se os estudantes conseguem acessar o material. Se faltar recurso, o problema não deve ser confundido com falta de interesse do aluno.
4. Acompanhe sinais de necessidade sem esperar que a dificuldade se acumule
Os estudos sobre identificação durante a pandemia mostram que processos institucionais podem sofrer interrupções. Como aplicação, professores podem manter registros claros de observações pedagógicas e compartilhar preocupações pelos canais da escola, sem diagnosticar estudantes. Imagine que um aluno passa a encontrar barreiras persistentes para acompanhar uma tarefa. A equipe pode discutir quais apoios pedagógicos cabem de imediato e como seguir os procedimentos locais para avaliar a necessidade de suporte especializado.
5. Combine observação individual com conversa entre profissionais
Gittens relata que professores apontaram colaboração, formação e apoio de especialistas como recursos importantes. Uma aplicação é levar perguntas concretas para reuniões pedagógicas, em vez de esperar que cada docente resolva sozinho uma situação complexa. Por exemplo, uma equipe pode revisar uma atividade e perguntar quais etapas exigem leitura, escrita, fala ou organização de materiais, e como oferecer suporte sem reduzir o objetivo pedagógico. A decisão fica mais consistente quando diferentes profissionais compartilham informações pertinentes.
6. Revise oportunidades de aprendizagem, não só resultados finais
A perspectiva sobre matemática destaca acesso a oportunidades, intervenções e materiais, além do desempenho. Uma aplicação possível é olhar para as tarefas propostas e perguntar quem teve acesso às explicações, aos recursos e ao tempo de prática necessários. Imagine uma turma em que alguns estudantes erram uma avaliação: antes de atribuir a diferença a capacidade ou esforço, o professor verifica se todos tiveram condições semelhantes de aprender o conteúdo. Isso não elimina a avaliação, mas ajuda a interpretar o que ela pode e não pode dizer.
7. Peça orientações específicas quando a recomendação for vaga
Os professores entrevistados por Gittens manifestaram necessidade de orientações concretas. Como aplicação, quando uma formação disser apenas “seja inclusivo”, o professor pode pedir exemplos vinculados à sua disciplina, acesso a especialistas ou tempo para planejar com colegas. Imagine uma equipe que precisa adaptar uma tarefa para estudantes com diferentes necessidades: discutir etapas, recursos e critérios de avaliação torna a orientação mais utilizável. A pergunta não é apenas o que fazer, mas que condições a escola pode oferecer para fazê-lo.
O que muda ao levar esses achados para o contexto brasileiro?
Os dados citados vêm de contextos dos Estados Unidos: Massachusetts, Nova York, Michigan, Texas e estudos nacionais. Termos como “aprendiz de inglês”, regras de educação especial, sistemas de matrícula e estruturas de oferta musical pertencem a esses contextos e não podem ser transportados automaticamente para escolas brasileiras.
O que pode ser aproveitado é a forma de observar o problema: comparar a oferta com a participação real; verificar se materiais e atividades estão ao alcance; acompanhar processos de identificação e apoio; e perguntar que orientação os profissionais recebem. Essas são perguntas para investigação local, não uma afirmação de que os padrões encontrados nos Estados Unidos se repetem no Brasil.
Na prática, cada rede tem normas, recursos e procedimentos próprios para apoiar estudantes com deficiência e responder a desigualdades socioeconômicas e culturais. Por isso, professores devem seguir as orientações institucionais brasileiras e dialogar com a equipe responsável. Um resultado produzido em outro país pode inspirar uma pergunta, mas não substitui dados locais nem determina uma política adequada à escola.
Também é importante evitar transformar categorias amplas em explicações individuais. A baixa renda, a raça, a deficiência ou a língua falada em casa não permitem prever, por si sós, o que um estudante precisa. O cuidado é usar essas informações para procurar barreiras na oferta e nos processos escolares, sem reduzir cada pessoa a um grupo ou presumir uma dificuldade.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis na base ERIC, e não na leitura integral dos trabalhos. Os estudos investigam assuntos e populações diferentes, usam dados, métodos e contextos próprios e não formam uma amostra representativa das escolas brasileiras. Alguns descrevem associações ou percepções; outros apresentam tendências ou uma agenda de pesquisa. Por isso, os achados não devem ser apresentados como prova de uma causa única nem como recomendação universal.
Ficam em aberto perguntas sobre como as barreiras se manifestam em diferentes redes brasileiras, que estratégias são mais efetivas em cada etapa escolar e como medir mudanças na participação e no acesso sem simplificar as experiências dos estudantes. Também seria importante conhecer os detalhes das medidas, dos procedimentos e das análises de cada pesquisa antes de usar seus resultados para tomar decisões institucionais.
Vale ler os estudos completos quando a escola, a rede ou um grupo de pesquisa precisar avaliar uma política, desenhar uma intervenção, interpretar com precisão os métodos ou compreender os limites de uma conclusão. Para decisões locais, é igualmente importante reunir informações da própria comunidade escolar e consultar as normas e os profissionais responsáveis no Brasil.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
Uma avaliação pode ajudar o professor a perceber o que os estudantes compreenderam, desde que seus resultados sejam interpretados junto com as oportunidades de aprendizagem e os apoios oferecidos. O GeraProva pode apoiar a criação de provas e atividades para o planejamento docente; cabe ao professor revisar as questões e decidir as adaptações necessárias para sua turma. Conheça o gerador de provas do GeraProva e faça seu cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre apoio e equidade na escola
Como saber se uma atividade está realmente acessível a todos?
Os estudos não oferecem um teste único de acessibilidade, mas ajudam a separar oferta de participação. Uma aplicação possível é observar quem participa, que materiais são necessários e se o formato cria barreiras. No estudo de música em Massachusetts, estudantes de baixa renda e estudantes com deficiência estavam sub-representados. Na pesquisa de Nova York, diferentes experiências musicais apresentavam perfis demográficos distintos. Esses achados não permitem prever o que ocorrerá na sua escola; servem como motivo para examinar os dados locais e conversar com os estudantes sobre obstáculos concretos.
O que fazer quando percebo que um estudante pode precisar de apoio especializado?
Os estudos sobre Michigan e Texas mostram que processos de identificação podem ser afetados por mudanças e decisões institucionais, mas não dizem como conduzir cada caso no Brasil. O professor não deve diagnosticar. Uma aplicação prudente é registrar observações pedagógicas pertinentes, oferecer apoios possíveis dentro de sua atuação e conversar com a equipe responsável, seguindo os procedimentos da rede. Acompanhar a situação e compartilhar informações com os profissionais adequados ajuda a evitar que uma dificuldade persistente passe despercebida, sem transformar um resultado de pesquisa estrangeiro em regra local.
Os estudos provam que estudantes de baixa renda aprendem menos?
Não. As pesquisas citadas examinam situações específicas, como participação em música, atribuição de livros, notas durante o ensino on-line e oportunidades de aprendizagem matemática. Um estudo sobre estudantes do ensino médio durante a pandemia encontrou uma queda mais acentuada nas notas entre estudantes de baixa renda naquela escola analisada. Isso não é uma medida do potencial de cada estudante nem uma conclusão que possa ser aplicada a todas as escolas. A leitura mais útil é investigar se as condições de aprendizagem e os apoios estão distribuídos de forma justa.
O que posso fazer se não recebo orientações concretas sobre equidade?
Na pesquisa qualitativa de Gittens, cerca de um terço dos professores entrevistados disse não receber orientações sobre como ensinar grupos historicamente pouco atendidos, e vários defenderam instruções mais concretas. Uma aplicação é transformar uma recomendação ampla em perguntas práticas para a coordenação: que estratégias cabem nesta atividade? Que materiais estão disponíveis? Com quem posso planejar? Os participantes também apontaram formação, colaboração entre pares e apoio de especialistas como recursos. O estudo não garante que uma dessas ações resolva todos os problemas, mas mostra que a necessidade de orientação foi relatada por professores.
Por que olhar para oportunidades além das notas?
Notas são informações importantes, mas não mostram sozinhas quais oportunidades cada estudante teve para aprender. A perspectiva de Kaufman destaca acesso a disciplinas rigorosas, intervenções, materiais de qualidade e apoio às diversas necessidades como fatores relevantes para a equidade em matemática. A pesquisa sobre livros também chama atenção para disponibilidade curricular, enquanto estudos de música observam participação. Como aplicação, o professor pode considerar resultados junto com materiais, tempo de prática e formas de participação. Isso amplia a interpretação do desempenho sem deixar de avaliar a aprendizagem.
Posso aplicar diretamente no Brasil os resultados dos estudos americanos?
Não de forma automática. Os estudos refletem sistemas, políticas e escolas dos Estados Unidos, incluindo contextos específicos como Massachusetts, Nova York, Michigan e Texas. Por exemplo, “aprendiz de inglês” e regras de educação especial não devem ser tratados como equivalentes diretos às categorias e aos procedimentos brasileiros. O que pode viajar com mais segurança são as perguntas: quem participa, quem recebe apoio, quais recursos faltam e como os processos funcionam? Para transformar essas perguntas em decisões, é preciso considerar dados locais, normas brasileiras e a realidade da comunidade escolar.
Referências
- Sıeğal (2026). Participação de Estudantes do Ensino Médio com Deficiência, de Baixa Renda ou Aprendizes de Inglês em Aulas de Música em Massachusetts em 2023: Análises e Aplicações para Promover o Engajamento Equitativo (Muşıc Claşş Partıcıpatıon of Hığh School Studentş wıth Dışabılıty, Low-İncome, or Enğlışh Learner Statuşeş ın Maşşachuşettş ın 2023: Analyşış and Applıcatıonş to Promote Equıtable Enğağement). Update: Applications of Research in Music Education. Link.
- Knapp, David; Clauhs, Matthew; Powell, Bryan (2023). Um perfil demográfico dos cursos de música do ensino médio em Nova York (A Demographic Profile of High School Music Courses in New York). Music Education Research. Link.
- Woo (2026). Leitura de livros na íntegra em salas de aula de Língua Inglesa nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio: resultados da Pesquisa Americana sobre Recursos Didáticos da primavera de 2025 (Reading Full Books in Secondary English Language Arts Classrooms: Findings from the Spring 2025 American Instructional Resources Survey). RAND Corporation. Link.
- Hopkins, Bryant G.; Guzman, Matthew; Imberman, Scott A.; Truckenmiller, Adrea J.; Strunk, Katharine O.; Fisher, Marisa H. (2025). Tendências na identificação de estudantes para a educação especial durante a pandemia de COVID-19: evidências de Michigan (Trends in Special Education Identification during the COVID-19 Pandemic: Evidence from Michigan). Educational Evaluation and Policy Analysis. Link.
- Morgan, Paul L.; Woods, Adrienne D.; Wang, Yangyang; Gloski, Cecelia A. (2023). Associações entre o limite da educação especial no Texas e as disparidades na identificação de deficiências entre estudantes de minorias raciais e linguísticas (Texas Special Education Cap's Associations with Disability Identification Disparities of Racial and Language Minority Students). Exceptional Children. Link.
- Gittens, Allyson D.; Wang, Elaine Lin; Rabinowitz, Maya (2024). Apoios à implementação de práticas equitativas na sala de aula da educação infantil ao ensino médio: um estudo qualitativo sobre as percepções dos professores (Supports for Implementing Equitable Practices in the K-12 Classroom: A Qualitative Study of Teachers' Perceptions). RAND Corporation. Link.
- Kaufman, Julia H.; Steiner, Elizabeth D.; Woo, Ashley (2023). O Estudo Americano sobre Educadores em Matemática: Desvendando a Fórmula para o Ensino e a Aprendizagem de Matemática com Equidade e Excelência (The American Mathematics Educator Study: Unraveling the Formula for Equitable and Excellent Mathematics Teaching and Learning). RAND Corporation. Link.
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