Apoio na educação especial: por que formação sem acompanhamento pode falhar
Estudos recentes mostram que programas de apoio podem fortalecer práticas inclusivas, mas seus resultados dependem de formação, acompanhamento e condições de trabalho. Veja o que isso pode significar na rotina escolar brasileira.
Programas de apoio à educação especial têm passado a combinar formação, acompanhamento e estratégias específicas para a rotina escolar. Nos estudos recentes, essa combinação aparece em iniciativas tão diferentes quanto ensinar comunicação alternativa, organizar atividades em estações e preparar equipes para apoiar a inclusão.
Para quem está diante da turma, a questão não é apenas conhecer uma proposta: é conseguir aplicá-la com os recursos e o tempo disponíveis, junto com outros profissionais. As pesquisas mostram avanços possíveis, mas também uma tensão importante: uma ideia promissora pode não se traduzir em prática consistente quando faltam suporte, alinhamento e condições de implementação.
O que é implementar programas de apoio na educação especial e por que isso importa?
Implementar um programa de apoio é transformar uma proposta de formação ou intervenção em ações que a equipe consegue realizar na escola. Isso envolve compreender o que fazer, combinar papéis, organizar rotinas e observar se a estratégia está sendo aplicada como planejado. Para o professor, o tema aparece na prática quando precisa adaptar uma atividade, coordenar o trabalho com profissionais de apoio ou garantir oportunidades reais de participação e comunicação para um estudante com deficiência.
Uma formação isolada pode apresentar uma estratégia, mas não resolve automaticamente as dificuldades do cotidiano. É preciso considerar como a proposta se encaixa na rotina, quem orienta sua aplicação e que apoios estão disponíveis. Nos estudos reunidos aqui, implementação não significa simplesmente adotar uma novidade: significa criar condições para que uma prática seja compreendida, usada e sustentada.
Os trabalhos analisam programas distintos, com públicos, etapas e métodos diferentes. Alguns medem mudanças na fidelidade com que profissionais aplicam uma abordagem; outros investigam atitudes, crenças, experiências ou barreiras sistêmicas. Por isso, não cabe tratar todos como se avaliassem o mesmo programa ou permitissem uma comparação direta de eficácia.
O que a pesquisa recente mostra sobre programas de apoio e inclusão?
Formação com prática e acompanhamento pode apoiar a implementação
Uma contribuição recorrente dos estudos é dar atenção ao que acontece depois da apresentação de uma estratégia. Em uma escola rural de ensino médio nos Estados Unidos, o estudo-piloto do PEERS-SB combinou formação continuada para educadores com modelagem, jogo de papéis e feedback. As avaliações antes e depois apontaram ganhos significativos no conhecimento dos professores sobre comportamentos sociais ecologicamente válidos. Já os resultados dos estudantes foram preliminares, exploratórios e não significativos, com variação entre indivíduos. O destaque, portanto, está no aumento do conhecimento dos educadores, não em afirmar que o programa já comprovou efeitos para os alunos (Howorth, 2026).
Outro estudo, também em contexto rural dos Estados Unidos, examinou o treinamento em habilidades comportamentais (BST) seguido de acompanhamento para implementar a rotação por estações em educação especial. Os três profissionais participantes aprimoraram a fidelidade de implementação depois da introdução do treinamento e do acompanhamento; a equipe também considerou a intervenção aceitável e viável naquele contexto. O resultado aponta para o valor potencial de apoio continuado e baseado na prática, sem autorizar a conclusão de que qualquer formação terá o mesmo efeito em qualquer escola (Reedy, 2026).
Os achados ajudam a separar duas perguntas que às vezes se misturam: a equipe aprendeu sobre a proposta? E conseguiu colocá-la em prática? No estudo do PEERS-SB, a mudança mais clara relatada foi no conhecimento dos educadores. No estudo da rotação por estações, o resultado apresentado se concentrou na fidelidade de implementação. Para o professor, essa distinção é útil: saber explicar uma estratégia e conseguir executá-la na rotina são dimensões relacionadas, mas não equivalentes.
A fidelidade importa, mas as equipes e as condições também
O programa POWR+ foi criado para apoiar profissionais paraprofissionais que atuam como parceiros de comunicação de crianças usuárias de comunicação aumentativa e alternativa (CAA). A proposta também inclui formação para professores supervisores, responsáveis por observar, dar feedback e orientar. Em cinco tríades de professores, profissionais de apoio e crianças nos Estados Unidos, os autores identificaram relação funcional entre a intervenção e dois resultados — oportunidades de comunicação e modelagem da CAA — em duas tríades. Nessas equipes, a fidelidade foi alta. Nas demais, os resultados foram mistos e a fidelidade, menor (Douglas, 2026).
Essa diferença chama atenção para algo prático: uma estratégia pode funcionar melhor quando a equipe consegue aplicá-la como prevista, mas a fidelidade não depende apenas da boa vontade de quem está na sala. O estudo aponta a necessidade de ajustes e de recursos adicionais para aspectos fora do escopo da intervenção, como apoio comportamental. Não é adequado transformar o achado em promessa universal; ele indica resultados promissores em parte das equipes e desafios de implementação nas outras.
Em Taiwan, um questionário aplicado a 4.585 professores da educação infantil encontrou uma diferença entre opiniões favoráveis à inclusão e práticas pedagógicas efetivas. Os desafios relatados incluíram formação especializada inadequada, recursos insuficientes e apoio administrativo inconsistente. Os autores defendem formação continuada que articule conhecimentos e estratégias, incluindo princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (Wu, 2025). Esse estudo não avalia um único programa de intervenção; ajuda a entender por que atitudes positivas, por si só, podem não bastar para mudar a prática.
Inclusão é também uma questão de organização e colaboração
Uma revisão sistemática de 16 estudos empíricos sobre escolas de ensino fundamental dos Estados Unidos examinou contradições dentro dos sistemas de ensino comum e de educação especial e entre eles. Os autores descrevem tensões envolvendo ferramentas, regras e papéis, além de ideologias individualistas e deterministas, colaboração fragmentada e insuficiência de recursos. Na síntese, esses fatores ajudam a perpetuar práticas excludentes e a marginalizar estudantes com deficiência. A revisão defende soluções sistêmicas orientadas pela equidade, com culturas e estruturas de colaboração, revisão dos sistemas de responsabilização e maior visibilidade para as experiências e os objetivos dos estudantes e de suas famílias (Yoo, 2026).
O foco institucional também aparece em uma discussão histórica sobre a formação de lideranças em educação especial. O trabalho identifica práticas promissoras de liderança e examina como fortalecer a preparação de gestores e lideranças para apoiar estudantes com deficiência e defender seus direitos (Boscardin, 2025). Como o resumo não apresenta uma avaliação de intervenção específica, é mais preciso usar esse estudo para destacar a importância da liderança e da defesa de direitos do que tratá-lo como prova de que uma prática particular produz resultados.
Na Suécia, 930 professores envolvidos no programa de implementação Apoio Comportamental Inclusivo nas Escolas responderam a questionários sobre eficácia coletiva docente e atitudes em relação à inclusão. A análise encontrou manifestações positivas de eficácia coletiva, mas atitudes mais hesitantes em relação à inclusão; a relação entre os construtos foi positiva, porém de pequena magnitude (Fohlin, 2025). O resultado sugere que a confiança coletiva da equipe e as atitudes inclusivas se relacionam, mas não são a mesma coisa e uma não garante automaticamente a outra.
A implementação precisa considerar idade, contexto e tipo de apoio
Na educação infantil, um estudo com 152 professores examinou conhecimento declarado, frequência de uso e percepções sobre estratégias de intervenção comportamental desenvolvimental naturalística (NDBI), consideradas para crianças de 3 a 5 anos. Os resultados apontam que essas estratégias podem ser uma inovação viável, mas também justificam formação específica, tanto inicial quanto continuada, e melhorias nos fatores organizacionais que apoiam sua adoção (D'Agostino, 2024). A pesquisa comparou avaliações de professores de educação geral e especial e de docentes com diferentes formações em análise do comportamento aplicada; não cabe, a partir do resumo, atribuir vantagens específicas a um grupo.
Um estudo qualitativo em um centro de educação especial na primeira infância dos Estados Unidos explorou as experiências de gestores, professores, profissionais de apoio e prestadores de serviços especializados durante o planejamento e a implementação do cuidado informado pelo trauma. Os autores relatam que fatores em diferentes níveis do ambiente — do cotidiano próximo a contextos mais amplos — influenciaram o grau de sucesso da implementação (Chudzik, 2025). A ideia importante é que a prática não acontece isolada: o que se passa na equipe e na organização pode facilitar ou dificultar sua continuidade.
Já o treinamento virtual para entrevistas de emprego de jovens em idade de transição é apresentado como uma intervenção tecnológica para serviços de transição no ensino médio. A publicação descreve oito estratégias de apoio à implementação, como preparar a adoção, obter apoio administrativo, integrar o treinamento ao currículo, individualizar o apoio e lidar com desafios logísticos (Sherwood, 2024). O resumo oferece estratégias práticas, não resultados de uma comparação experimental que permita afirmar que a tecnologia seja superior a outras modalidades.
Os estudos lado a lado
A tabela reúne o foco e o resultado relatado em cada trabalho citado. Os estudos são diversos: há revisões, estudos de caso, questionários, um estudo qualitativo e uma coluna de estratégias. A comparação ajuda a localizar perguntas comuns, não a estabelecer uma classificação de programas.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Howorth (2026) | Implementação-piloto do PEERS-SB e conhecimento dos educadores. | Ganhos significativos no conhecimento docente; resultados dos alunos preliminares e não significativos. | Escola rural de ensino médio, Estados Unidos; 7 adolescentes e 7 educadores. |
| Reedy (2026) | BST e acompanhamento para rotação por estações. | Os três profissionais melhoraram a fidelidade; equipe considerou a intervenção aceitável e viável. | Educação especial rural no sudoeste dos Estados Unidos. |
| Douglas (2026) | POWR+ para comunicação com CAA. | Relação funcional entre intervenção e resultados em duas tríades; resultados mistos nas demais. | Estados Unidos; cinco tríades de equipes e crianças. |
| Yoo (2026) | Contradições sistêmicas na educação inclusiva. | Identifica tensões, colaboração fragmentada e recursos insuficientes associados a práticas excludentes. | Revisão de 16 estudos em escolas de ensino fundamental dos Estados Unidos. |
| Boscardin (2025) | História e formação de lideranças em educação especial. | Discute práticas de liderança e fortalecimento da defesa de direitos. | Discussão histórica; contexto de políticas dos Estados Unidos. |
| Fohlin (2025) | Eficácia coletiva e atitudes inclusivas de professores. | Eficácia coletiva positiva, atitudes mais hesitantes e relação positiva de pequena magnitude. | Suécia; 930 professores envolvidos em programa de apoio comportamental inclusivo. |
| Wu (2025) | Crenças e práticas de professores da educação infantil inclusiva. | Diferença entre opiniões favoráveis e práticas; desafios de formação, recursos e apoio. | Taiwan; questionário com 4.585 professores. |
| Chudzik (2025) | Experiências na implementação do cuidado informado pelo trauma. | Fatores em diferentes níveis do ambiente influenciaram a implementação. | Centro de educação especial na primeira infância, Estados Unidos; estudo qualitativo. |
| Sherwood (2024) | Estratégias para implementar treinamento virtual de entrevistas. | Descreve oito estratégias de apoio à implementação. | Serviços de transição da educação especial no ensino médio. |
| D'Agostino (2024) | Conhecimento, uso e percepções sobre estratégias NDBI. | Estratégias consideradas viáveis; aponta necessidade de formação e apoio organizacional. | Educação infantil; questionário com 152 professores. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Em conjunto, os estudos apontam que a implementação depende de mais do que a apresentação de uma proposta. Formação, oportunidades de praticar, acompanhamento, colaboração e condições organizacionais aparecem de modos diferentes, mas recorrentes. Reedy e Douglas focalizam a relação entre a fidelidade e os resultados observados em intervenções específicas; Wu e Yoo chamam atenção para barreiras mais amplas, como recursos, apoio administrativo e organização dos papéis.
Outra convergência é a distância possível entre intenção e prática. Professores podem apoiar a inclusão, mas encontrar obstáculos para concretizá-la; equipes podem conhecer uma estratégia e ainda assim implementá-la com fidelidade variável. O estudo sueco acrescenta que eficácia coletiva e atitudes inclusivas se relacionam apenas modestamente. Portanto, não há base para reduzir a questão a “acreditar na inclusão” ou “fazer um curso”: os trabalhos descrevem componentes e dificuldades distintos.
As diferenças também importam. Os estudos abordam comunicação por CAA, habilidades sociais, rotação por estações, NDBI, cuidado informado pelo trauma e transição para o trabalho. Há pesquisas com números de participantes pequenos e resultados preliminares, como o piloto PEERS-SB; outras usam questionários amplos, como Wu e Fohlin; a revisão de Yoo sintetiza estudos; e Boscardin discute formação de lideranças. Como os desenhos e os desfechos variam, não é possível concluir que um programa seja o melhor ou que um formato de apoio sirva para toda necessidade.
Fica em aberto como combinar, em cada escola, objetivos pedagógicos, participação do estudante, apoio especializado e condições concretas de trabalho. Também permanece a pergunta sobre quais componentes de formação e acompanhamento são necessários em diferentes contextos. Os resumos sustentam a relevância dessas perguntas, não uma receita única.
O que isso significa para a sala de aula?
Os estudos não oferecem um protocolo brasileiro pronto para copiar. As ideias abaixo são aplicações possíveis para a rotina escolar, inspiradas nos temas pesquisados, e devem ser ajustadas ao estudante, à equipe e aos apoios disponíveis.
1. Transforme a formação em ensaio de prática
Como aplicação, em vez de terminar uma conversa de equipe apenas com a apresentação de uma estratégia, reserve um momento para modelá-la, ensaiá-la e trocar feedback. Por exemplo, antes de uma atividade em pequenos grupos, um professor pode demonstrar como organizar a transição entre estações e um colega pode observar se as instruções e os papéis ficaram claros. A ideia se aproxima do tipo de formação prática descrito no PEERS-SB e do BST estudado por Reedy, sem afirmar que essa adaptação terá os mesmos resultados dos estudos.
2. Combine quem faz o quê antes da atividade
Como aplicação, defina com antecedência quem apresenta a tarefa, quem acompanha determinado grupo e como a equipe pede ajuda durante a aula. Imagine uma turma em que um estudante usa CAA: professor e profissional de apoio podem combinar como criar oportunidades de comunicação e como modelar o uso do recurso, respeitando as orientações da equipe que acompanha o estudante. O estudo de POWR+ destaca tanto o papel de supervisão e feedback quanto a variação de fidelidade entre equipes; o combinado não substitui formação ou recursos, mas pode tornar os papéis mais visíveis.
3. Observe a participação, não só a presença
Como aplicação, ao planejar uma atividade, pergunte que formas de participação ela permite e como o estudante poderá comunicar escolhas, dúvidas ou respostas. Em uma atividade coletiva hipotética, isso pode significar oferecer formas variadas de responder, sem presumir que todos precisam participar do mesmo modo. Essa proposta conversa com o foco dos estudos em comunicação e inclusão, mas é uma sugestão pedagógica, não um resultado testado pelos trabalhos citados.
4. Verifique se a proposta cabe na rotina real
Como aplicação, antes de adotar um programa, identifique tempo, materiais, espaços, pessoas envolvidas e momentos de acompanhamento. Se uma rotação por estações exige que o professor conduza vários grupos, vale planejar transições e expectativas com clareza. Reedy descreve rotinas inconsistentes, expectativas pouco claras e gerenciamento de grupos como barreiras no contexto estudado. A escola pode usar essas dimensões como perguntas de planejamento, sem presumir que o contexto rural norte-americano seja igual ao brasileiro.
5. Faça pequenos ciclos de acompanhamento
Como aplicação, a equipe pode escolher uma prática observável, combinar como acompanhar seu uso e voltar a conversar depois de um período. Por exemplo, numa situação hipotética, os profissionais podem verificar se oportunidades de comunicação foram oferecidas durante uma atividade e conversar sobre o que facilitou ou dificultou isso. Essa ideia se inspira na importância de acompanhamento e fidelidade relatada por Reedy e Douglas; não significa criar uma cobrança burocrática nem avaliar o professor sem considerar as condições de trabalho.
6. Trate os obstáculos como informação para ajustar o apoio
Como aplicação, quando uma estratégia não se sustenta, investigue com a equipe se a barreira está na formação, na organização, na disponibilidade de recursos ou em aspectos que o programa não contempla. Douglas aponta, por exemplo, necessidade de apoio adicional para questões comportamentais fora do escopo da intervenção estudada. Em vez de concluir rapidamente que o estudante “não responde” ou que o profissional “não se esforçou”, a equipe pode identificar qual apoio está faltando e quem precisa participar da solução.
7. Inclua a voz do estudante e da família no planejamento
Como aplicação, convide estudante e família, de forma adequada à idade e à situação, a compartilhar interesses, objetivos e formas de participação que façam sentido. Em uma cena hipotética, ao preparar uma atividade de transição, a equipe pode perguntar quais tarefas e experiências o jovem considera relevantes. A revisão de Yoo defende dar maior visibilidade às experiências, aos interesses, aos objetivos e aos sonhos de estudantes e famílias. A aplicação concreta precisa respeitar a realidade local e as formas de comunicação de cada pessoa.
O que muda quando levamos esses estudos para o contexto brasileiro?
Os trabalhos vêm de contextos diferentes: Estados Unidos, Suécia e Taiwan. Eles não descrevem a legislação, a organização dos serviços ou os recursos das redes brasileiras. Por isso, seus programas não devem ser apresentados como política nacional ou solução pronta para escolas do Brasil. O que pode ser aproveitado com cuidado são perguntas sobre formação, colaboração, clareza de papéis, acompanhamento e condições para executar as práticas.
Uma escola brasileira pode começar observando sua própria organização: como professor regente, educação especial, gestão e profissionais de apoio se comunicam; quais recursos estão acessíveis; e como a participação do estudante é considerada no planejamento. Essa adaptação é uma sugestão de aplicação, não uma conclusão direta dos estudos. A diversidade entre redes, etapas, territórios e equipes torna indispensável avaliar o que é viável em cada contexto.
Também é importante não importar sem análise instrumentos, programas ou termos associados a políticas estrangeiras. O programa de apoio comportamental estudado na Suécia, por exemplo, foi aplicado naquele contexto; os resultados de atitudes dos professores não descrevem docentes brasileiros. Da mesma forma, achados de escolas rurais dos Estados Unidos podem ajudar a pensar em apoio continuado, mas não provam que as barreiras e soluções sejam idênticas no campo brasileiro.
Na prática, qualquer iniciativa deve ser discutida com a equipe responsável e ajustada às necessidades de cada estudante, sem reduzir inclusão a um único recurso ou a uma técnica isolada. Os estudos reforçam justamente a importância de considerar as relações entre a estratégia, a formação e o sistema em que ela será aplicada.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem identificar objetivos e resultados principais, mas não oferecem todos os detalhes necessários para julgar métodos, instrumentos, duração das intervenções, critérios de análise ou condições específicas de aplicação. Por isso, os achados foram descritos no alcance informado e não foram transformados em promessas gerais.
Ficam em aberto perguntas como: quanto tempo os efeitos se mantêm; que componentes são essenciais em cada programa; como as intervenções se adaptam a escolas brasileiras; e quais recursos são necessários para atender diferentes perfis de estudantes. Alguns trabalhos apresentam resultados preliminares, exploratórios ou mistos; outros investigam percepções, descrevem estratégias ou sintetizam estudos anteriores, em vez de testar uma intervenção em condições comparáveis.
Faz sentido ler os estudos completos quando a escola pretende adotar um programa específico, formar uma equipe, selecionar instrumentos ou tomar decisões que dependam de detalhes metodológicos. Também é importante consultar as orientações profissionais e institucionais pertinentes ao caso concreto. A síntese serve para orientar perguntas e conversas de planejamento, não para substituir avaliação especializada ou evidência contextualizada.
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Perguntas frequentes sobre programas de apoio e inclusão
Uma formação pontual é suficiente para implementar um programa?
Os estudos não sustentam uma resposta única para todos os programas, mas mostram por que a formação precisa ser pensada junto com a prática e o apoio. No estudo da rotação por estações, o treinamento em habilidades comportamentais foi seguido de acompanhamento, e os três profissionais aprimoraram a fidelidade de implementação. No PEERS-SB, a formação estruturada esteve associada a ganhos no conhecimento dos educadores, enquanto os resultados dos alunos foram preliminares e não significativos. Isso sugere que aprender uma proposta e mantê-la na rotina são questões diferentes.
Como saber se uma estratégia está sendo implementada como planejado?
Os estudos usam formas específicas de avaliar a implementação, e a tabela resume o que os resumos informam. Na prática escolar, como sugestão de aplicação, a equipe pode definir comportamentos observáveis ligados à estratégia, combinar quem os acompanha e conversar sobre barreiras. Isso deve servir para orientar apoio e ajustes, não para atribuir culpa a um profissional. Em POWR+, os resultados foram mais favoráveis em duas tríades com alta fidelidade e mistos em outras com menor fidelidade. O achado evidencia uma relação a considerar, mas não fornece um instrumento universal de acompanhamento.
Se professores têm atitudes favoráveis à inclusão, por que a prática pode não acompanhar?
Atitudes favoráveis não eliminam automaticamente obstáculos de formação, recursos ou organização. Em Taiwan, professores da educação infantil demonstraram apoio geral aos princípios da inclusão, mas o estudo relatou diferença entre opiniões e práticas, junto a desafios de formação especializada, recursos insuficientes e apoio administrativo inconsistente. A revisão sobre escolas dos Estados Unidos também descreve colaboração fragmentada e contradições entre sistemas. Esses resultados ajudam a entender a distância entre intenção e ação, mas não permitem afirmar que as mesmas barreiras tenham a mesma intensidade em todas as escolas brasileiras.
O que a fidelidade de implementação quer dizer?
Neste conjunto de estudos, fidelidade se refere à implementação de uma proposta conforme os elementos previstos. Ela aparece, por exemplo, na pesquisa da rotação por estações e no estudo do POWR+. Não significa aplicar tudo de forma rígida, sem considerar o estudante ou o contexto. A própria variação entre as equipes no POWR+ e a necessidade de recursos adicionais indicam que a execução pode ser afetada por condições que a intervenção não cobre. Uma aplicação escolar cuidadosa pode acompanhar quais componentes são essenciais e quais ajustes precisam ser discutidos com a equipe responsável.
Os programas estudados podem ser aplicados diretamente em escolas brasileiras?
Não se deve presumir que sim. Os estudos foram feitos em contextos de países diferentes, com programas, sistemas e condições próprias. Os resumos não demonstram que uma intervenção desenvolvida ou examinada fora do Brasil terá os mesmos resultados em uma rede brasileira. Ainda assim, eles oferecem temas úteis para reflexão: formação com prática, acompanhamento, colaboração, recursos e participação dos estudantes. Como sugestão de aplicação, a escola pode discutir esses elementos com a equipe e verificar compatibilidade com seu contexto antes de adotar qualquer programa.
Qual é o primeiro passo para melhorar a implementação na escola?
Os estudos não prescrevem um primeiro passo único. Uma possibilidade de aplicação é escolher uma necessidade concreta, identificar quem participa do apoio e verificar se a equipe tem formação, tempo, recursos e formas de acompanhamento. A revisão de Yoo destaca a relevância de colaboração e de considerar a experiência de estudantes e famílias; Reedy e Douglas apontam a importância do apoio à prática e da fidelidade em intervenções específicas. Começar por uma questão delimitada pode ajudar a equipe a planejar melhor, desde que a decisão seja ajustada às necessidades do estudante e não substitua suporte especializado.
Referências
- Howorth (2026). Projeto-piloto rural do PEERS® para o Programa de Profissionais Escolares (Rural Pilot of PEERS® for School-Based Professionals Program). Education and Training in Autism and Developmental Disabilities. Link.
- Reedy (2026). Aprimorando a fidelidade de implementação: o modelo de rotação por estações na educação especial rural (Improving Implementation Fidelity: The Station Rotation Model in Rural Special Education). Rural Special Education Quarterly. Link.
- Douglas (2026). Resultados da intervenção POWR+: um programa on-line de capacitação de parceiros de comunicação para equipes educacionais (POWR+ Intervention Results: An Online Communication Partner Training Program for Educational Teams). Communication Disorders Quarterly. Link.
- Yoo (2026). Desvelando contradições sistêmicas na educação inclusiva por meio de uma análise fundamentada na Teoria da Atividade Histórico-Cultural (Unpacking Systemic Contradictions in Inclusive Education through a Cultural-Historical Activity Theoretical Analysis). Exceptional Children. Link.
- Boscardin (2025). Celebrando 50 anos de formação de lideranças em Educação Especial para a defesa e a implementação da FAPE e do LRE (Celebrating 50 Years of Preparing Leaders of Special Education in the Advocacy and Implementation of FAPE and LRE). Journal of Special Education Leadership. Link.
- Fohlin (2025). Eficácia coletiva docente e sua relação com as atitudes em relação à inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais na Suécia (Collective Teacher Efficacy and Its Relationship to Attitudes to Inclusion of Students with Special Educational Needs in Sweden). European Journal of Special Needs Education. Link.
- Wu (2025). Um estudo nacional sobre as crenças e práticas docentes na educação infantil inclusiva em Taiwan (A National Study on Teacher Beliefs and Practices in Inclusive Preschool Education in Taiwan). International Journal of Developmental Disabilities. Link.
- Chudzik (2025). “. . . Não estamos fazendo o suficiente”: cuidado informado pelo trauma em um centro de educação especial na primeira infância (“. . . We're Not Doing Enough:” Trauma-Informed Care in an Early Childhood Special Education Center). Topics in Early Childhood Special Education. Link.
- Sherwood (2024). Implementação de treinamento virtual para entrevistas com jovens em idade de transição: estratégias práticas para educadores (Implementing Virtual Interview Training for Transition-Age Youth: Practical Strategies for Educators). Intervention in School and Clinic. Link.
- D'Agostino (2024). Implementação de estratégias de intervenção comportamental desenvolvimental naturalística: um exame das percepções de professores da educação infantil (Implementation of Naturalistic Developmental Behavioral Intervention Strategies: An Examination of Preschool Teachers' Perceptions). Journal of Early Intervention. Link.
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