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Alunos com deficiência: gênero prediz desempenho ou muda conforme a tarefa?

Estudos recentes não apontam uma resposta única sobre gênero e desempenho de alunos com deficiência. Os resultados variam conforme a tarefa, o contexto e o que está sendo medido — e isso muda a forma de interpretar avaliações.

Alunos com deficiência: gênero prediz desempenho ou muda conforme a tarefa?

Entender se diferenças de gênero ajudam a prever o desempenho de alunos com deficiência importa porque uma avaliação pode misturar aprendizagem, condições de acesso e características da tarefa. Este texto responde a três perguntas: em quais estudos o gênero aparece como preditor; o que esses resultados dizem — e não dizem — sobre desempenho; e como transformar a pesquisa em decisões mais cuidadosas na sala de aula.

A resposta curta é que os estudos não sustentam uma regra simples do tipo “meninos aprendem melhor” ou “meninas têm mais dificuldade”. O gênero aparece associado a resultados diferentes em contextos específicos, enquanto outros estudos destacam fatores como deficiência, habilidades avaliadas, ambiente escolar e condições socioeconômicas. Para o professor, a distinção entre associação e explicação é essencial.

O que são diferenças de gênero como preditoras do desempenho de alunos com deficiência e por que isso importa para o professor?

Falar de gênero como preditor significa investigar se uma variável relacionada ao gênero se associa a determinado resultado ou ajuda a estimá-lo. Isso não quer dizer que o gênero cause o resultado, nem que seja suficiente para prever o que um aluno individual conseguirá fazer. Em pesquisas educacionais, o resultado pode ser uma nota, uma habilidade específica, a participação em um serviço de apoio, uma percepção sobre a escola ou uma trajetória de saúde mental. Essas medidas não são intercambiáveis.

Na rotina escolar, a questão aparece quando uma turma é avaliada por uma tarefa de escrita, quando um estudante é encaminhado para apoio, ou quando se compara a participação de diferentes grupos. Um resultado coletivo pode levantar uma pergunta importante sobre acesso e oportunidades, mas não deve virar um atalho para interpretar o potencial de uma criança. O professor precisa observar o que foi medido e em que contexto.

Também convém separar sexo e gênero conforme o estudo descreve suas variáveis. Alguns resumos falam em sexo biológico, outros usam gênero, e um estudo examina gênero como variável moderadora. Não é seguro tratar essas medidas como se fossem idênticas. A evidência apresentada aqui mostra associações em situações delimitadas, não uma explicação universal das diferenças entre meninos e meninas com deficiência.

O que a pesquisa recente mostra sobre gênero e desempenho?

Os estudos disponíveis investigam resultados diferentes e não formam um único teste comparável de desempenho escolar. Alguns analisam habilidades de escrita; outros, autodeterminação, recebimento de serviços, clima escolar, saúde mental ou participação em atividades. Por isso, a leitura mais fiel é perguntar onde o gênero aparece, junto de quais outras variáveis, e qual foi exatamente o resultado observado.

O gênero pode aparecer ligado a uma habilidade específica, não a toda a aprendizagem

Uma investigação italiana avaliou crianças do 6º ao 8º ano com e sem transtornos específicos de aprendizagem (TEA), considerando cópia, velocidade de escrita manual, ortografia e escrita expressiva. As crianças com TEA tiveram desempenho inferior na tarefa de cópia, tanto em velocidade quanto em precisão. Mas os preditores identificados não foram iguais para os dois grupos: entre as crianças com desenvolvimento típico, o sexo predisse a precisão da cópia; entre as crianças com TEA, a precisão foi predita apenas pela ortografia. Para a velocidade de cópia no grupo com TEA, os preditores foram a velocidade de escrita manual e a ortografia (Re, 2023).

Esse achado é particularmente útil para evitar uma conclusão apressada. O resumo não relata que o sexo predisse a precisão da cópia no grupo com TEA; o resultado aparece para as crianças com desenvolvimento típico. Portanto, não é correto transformar o estudo em evidência de uma diferença de gênero generalizada entre alunos com transtorno específico de aprendizagem. O estudo sugere que a relação entre habilidades pode mudar de acordo com o grupo e com a dimensão avaliada.

Na Romênia, uma pesquisa com estudantes de 12 a 19 anos com dificuldades de aprendizagem e deficiência intelectual leve ou moderada examinou a relação entre autoconceito e autodeterminação. O gênero teve papel moderador na relação entre autoconceito e empoderamento psicológico. Já o rótulo de deficiência predisse comportamentos associados à autorrealização, e o fator socioeconômico familiar predisse habilidades autodeterminadas relacionadas à autorrealização (Cristea, 2024). É um resultado sobre autodeterminação, não uma comparação direta de notas ou desempenho acadêmico.

Gênero aparece também em serviços, trajetórias e experiências escolares

Um estudo em escolas da Cidade de Baltimore acompanhou o recebimento de serviços de apoio à deficiência do jardim de infância ao 3º ano. Os pesquisadores identificaram grupos de estudantes que receberam apoio todos os anos, começaram a recebê-lo mais tarde ou não o receberam no período observado. As classes diferiram por sexo, entre outros fatores. Além disso, meninos que não estavam socioemocional e comportamentalmente prontos para aprender no jardim de infância tinham maior probabilidade de pertencer aos grupos de recebedores contínuos ou tardios do que ao grupo que nunca recebeu esses serviços (Bettencourt, 2025).

Isso não equivale a dizer que meninos tinham desempenho acadêmico inferior ou que toda criança com deficiência deveria receber um serviço específico. O resultado trata de padrões de recebimento de apoio e de fatores associados a esses padrões. Para a escola, a pergunta pertinente é se os processos de observação e encaminhamento identificam necessidades em tempo oportuno, e não se uma característica isolada deve determinar a decisão.

Na Inglaterra, um estudo longitudinal investigou trajetórias de problemas de saúde mental durante a transição entre etapas escolares. O modelo encontrou quatro classes, e a pertença a essas trajetórias foi diferentemente predita por variáveis individuais. Entre os fatores associados a trajetórias de dificuldades elevadas estavam baixo nível socioeconômico, necessidades educacionais especiais e dois ou mais eventos negativos de vida. A preocupação com a transição esteve associada a maior probabilidade de pertencer a uma classe com problemas emocionais elevados (Donaldson, 2025). O resumo não apresenta um resultado específico de gênero como preditor, então esse estudo contribui para situar outros fatores, não para afirmar uma diferença entre meninos e meninas.

Em escolas de ensino fundamental II e médio dos Estados Unidos, uma pesquisa sobre clima escolar encontrou percepções mais desfavoráveis entre estudantes diagnosticados por profissional de saúde mental, encaminhados para educação especial ou suspensos e/ou expulsos. Os resultados também apontam que as experiências e percepções variam entre estudantes quando se consideram identidades e características além de sexo e raça, como ano escolar, capacidade e orientação sexual (Mack, 2025). O foco é a percepção do clima escolar, não uma medida de aprendizagem ou nota.

O contexto e a forma de participação também importam

Em Taiwan, um estudo-piloto analisou atitudes de estudantes sem deficiência intelectual depois de um programa escolar voltado à inclusão. A conscientização sobre inclusão se relacionou positivamente com atitudes em relação a estudantes com deficiência intelectual. O gênero apareceu como preditor da conscientização escolar e das atitudes cognitivas, enquanto outros componentes também se associaram entre si. Os resultados qualitativos indicaram possíveis benefícios psicossociais e interações significativas, e os autores apontam a necessidade de estudos de intervenção para ampliar o apoio às conclusões (Pan, 2025).

Esse estudo não mede o desempenho acadêmico dos estudantes com deficiência intelectual. Ele ajuda a lembrar que o ambiente de pares e a cultura inclusiva são dimensões relevantes, mas não autoriza concluir que um gênero específico seja mais acolhedor ou que a inclusão, por si só, produza um efeito determinado sobre notas.

Outra pesquisa, realizada com estudantes do ensino médio nas Filipinas, encontrou que a gentileza predisse menos estigma e mais aceitação de pessoas com necessidades educacionais especiais no estudo transversal, mesmo após controle de idade e gênero. No estudo longitudinal, a gentileza inicial predisse aceitação posterior, mas não predisse estigma subsequente (Datu, 2025). O gênero entra como variável de controle, não como resultado principal. É mais um exemplo de por que observar que uma variável foi incluída no modelo não significa que ela tenha sido apontada como preditora relevante.

Os estudos lado a lado

A tabela distingue resultados acadêmicos de outros resultados escolares. Essa separação ajuda a não chamar toda associação observada de “desempenho”.

EstudoO que investigouO que relataContexto
Re (2023)Cópia e habilidades de escrita de crianças com e sem TEA.No grupo com TEA, velocidade e ortografia predisseram velocidade de cópia; apenas ortografia predisse precisão. Sexo predisse precisão somente no grupo com desenvolvimento típico.Itália; 6º ao 8º ano.
Cristea (2024)Fatores pessoais e familiares na relação entre autoconceito e autodeterminação.Gênero moderou a relação entre autoconceito e empoderamento psicológico; outros fatores também predisseram resultados.Romênia; estudantes de 12 a 19 anos com dificuldades de aprendizagem e deficiência intelectual leve ou moderada.
Bettencourt (2025)Padrões de recebimento de serviços de apoio à deficiência.As classes diferiram por sexo; meninos com menor prontidão socioemocional e comportamental tiveram maior probabilidade de estar em classes de recebedores contínuos ou tardios.Baltimore, Estados Unidos; educação infantil ao 3º ano.
Donaldson (2025)Trajetórias de saúde mental na transição escolar.Baixo NSE, NEE e eventos negativos se associaram a trajetórias elevadas; preocupação com a transição se associou a problemas emocionais elevados. O resumo não destaca resultado específico de gênero.Sudeste da Inglaterra; transição escolar.
Mack (2025)Identidades e percepções de clima escolar.Estudantes diagnosticados, encaminhados à educação especial ou suspensos/expulsos tenderam a perceber o clima como desfavorável.Estados Unidos; ensino fundamental II e médio.
Pan (2025)Conscientização e atitudes após programa de inclusão.Gênero foi preditor de conscientização escolar e atitudes cognitivas; houve correlações positivas entre conscientização e atitudes inclusivas.Taiwan; ensino secundário.
Datu (2025)Gentileza, estigma e aceitação de pessoas com NEE.Gentileza predisse aceitação e, no estudo transversal, menor estigma; gênero foi controlado, mas não é o achado central.Filipinas; estudantes do ensino médio.

O que os estudos têm em comum e onde divergem?

Em comum, as pesquisas mostram que gênero não deve ser lido isoladamente. Os resultados aparecem junto de habilidades específicas, contexto familiar, deficiência, experiências escolares, atitudes e condições de apoio. Também deixam claro que “desempenho” não é uma medida única: copiar com precisão, participar de serviços, desenvolver autodeterminação e perceber o clima escolar são resultados distintos.

A divergência mais importante é o lugar que o gênero ocupa em cada análise. Na pesquisa italiana, ele predisse uma dimensão de escrita no grupo com desenvolvimento típico, não no grupo com TEA. Na Romênia, teve papel moderador numa relação entre autoconceito e empoderamento. Em Baltimore, apareceu entre os fatores que diferenciaram trajetórias de recebimento de apoio. Em Taiwan, relacionou-se a indicadores de conscientização e atitudes. Esses resultados não se contradizem necessariamente: estudam populações, medidas e perguntas diferentes.

O que ainda não está resolvido é se diferenças encontradas em uma tarefa ou contexto se repetem em outras situações, como elas se relacionam com oportunidades de aprendizagem e quais mecanismos explicariam as associações. Os resumos não formam uma comparação direta entre todos os grupos nem oferecem base para uma regra geral aplicável a qualquer estudante com deficiência.

O que isso significa para a sala de aula?

Para a prática, a principal consequência é avaliar a tarefa e as condições de participação antes de atribuir um resultado ao gênero ou à deficiência. As sugestões abaixo são aplicações pedagógicas inspiradas nas perguntas levantadas pelos estudos; não são intervenções testadas por todos eles.

1. Separe a habilidade que quer avaliar das exigências acessórias

Aplicação: se o objetivo é avaliar compreensão, pense se copiar rapidamente uma resposta longa é realmente parte do que pretende medir. Imagine uma atividade em que a cópia consome tanto tempo que o aluno não chega às questões finais. Uma forma de usar essa reflexão é comparar tarefas com formatos diferentes e observar se o resultado continua indicando a mesma habilidade. O estudo sobre cópia mostra que velocidade e precisão podem se relacionar de modos distintos entre grupos; não autoriza presumir que a cópia revele, sozinha, toda a aprendizagem.

2. Observe resultados individuais antes de usar médias de grupo

Aplicação: se a turma apresenta diferenças entre meninos e meninas, examine também as respostas, o tipo de erro, o tempo disponível e a familiaridade com a tarefa. Numa turma hipotética, dois alunos podem ter a mesma nota, mas precisar de apoios diferentes para alcançá-la. O gênero não substitui essa análise individual. Uma comparação coletiva pode abrir uma investigação sobre condições de ensino, mas não deve determinar expectativas para cada estudante.

3. Registre quando o apoio começa e o que muda depois

Aplicação: a pesquisa de Baltimore diferencia estudantes que recebem serviços continuamente, que começam mais tarde ou que não recebem no período observado. Na prática, a equipe pode organizar registros pedagógicos sobre necessidades observadas, estratégias tentadas e respostas do aluno, seguindo os procedimentos da escola. Imagine que uma dificuldade persista em diferentes atividades: registros claros ajudam a conversar com a equipe e a família sem transformar sexo ou gênero em critério automático de encaminhamento.

4. Pergunte se a avaliação capta barreiras de participação

Aplicação: considere se tempo, formato, instruções ou ambiente interferem no que o estudante consegue mostrar. Isso não significa reduzir objetivos nem supor que todo resultado se explique por uma barreira; significa verificar a adequação da medida. Por exemplo, se um estudante demonstra conhecimento oralmente, mas tem dificuldade em uma tarefa de cópia, a equipe pode distinguir essas evidências antes de concluir o que foi aprendido.

5. Inclua relações entre colegas na conversa sobre inclusão

Aplicação: os estudos sobre gentileza e programas inclusivos investigam atitudes e aceitação, não ganho acadêmico direto. Como prática possível, o professor pode organizar atividades cooperativas com participação significativa e explicitar formas respeitosas de interação. Imagine uma atividade em que cada integrante contribui com uma etapa diferente. Depois, observe quem participa, quem fica à margem e que apoios tornam a interação mais acessível, sem presumir que uma atividade isolada resolverá o estigma.

6. Acompanhe transições com atenção às necessidades de cada estudante

Aplicação: a pesquisa inglesa associa preocupação com a transição a uma trajetória de problemas emocionais elevados, e identifica outros fatores ligados a dificuldades de saúde mental. Uma aplicação possível é abrir espaço para que os estudantes expressem dúvidas sobre mudanças de rotina e articular o acompanhamento com a equipe responsável. Isso não transforma o professor em profissional de saúde mental; ajuda a perceber sinais e a encaminhar a conversa pelos canais apropriados.

7. Revise decisões quando uma impressão inicial vira expectativa fixa

Aplicação: se a equipe passa a esperar que meninos tenham determinado comportamento ou que meninas apresentem certo perfil, volte às evidências individuais e aos critérios usados. Os resultados de serviços em Baltimore podem motivar uma revisão de processos, não um diagnóstico baseado em gênero. Uma reunião pedagógica pode perguntar se estudantes com necessidades semelhantes recebem oportunidades de observação e apoio comparáveis.

O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?

Os estudos citados foram realizados nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Itália, na Romênia, em Taiwan e nas Filipinas. Suas conclusões não devem ser transferidas diretamente para escolas brasileiras: mudam os sistemas de apoio, as formas de identificação, as práticas de avaliação, as condições sociais e os contextos culturais. Mesmo quando uma tarefa parece familiar, a amostra e o modo de organizar os serviços podem ser diferentes.

Há também diferenças entre os próprios estudos. O trabalho de Baltimore acompanha serviços relacionados a mecanismos específicos dos Estados Unidos, como IEP e plano 504; essas categorias não devem ser tratadas como equivalentes automáticos a procedimentos brasileiros. O estudo italiano focaliza crianças com transtornos específicos de aprendizagem e tarefas de escrita, enquanto a pesquisa romena examina autodeterminação em adolescentes com perfis específicos. O resultado de uma população não descreve todos os estudantes com deficiência.

Uma adaptação prudente para o Brasil é usar esses trabalhos como perguntas para observar a própria prática: estamos medindo a habilidade que pretendemos avaliar? Quem recebe apoio e em que momento? Há diferença entre os modos de participação? Essas são sugestões de reflexão, não conclusões testadas pelos estudos em escolas brasileiras. Para orientar uma decisão local, é necessário considerar as regras e os recursos da rede, a avaliação individual e a conversa com profissionais e famílias envolvidos.

Quais são os limites desta leitura?

Este texto se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis, e não na leitura integral dos artigos. Os resumos permitem identificar objetivos e principais resultados relatados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para julgar cada instrumento, análise, medida de efeito ou decisão metodológica. As perguntas em aberto incluem como os resultados se repetem em outros contextos, como diferentes definições de gênero foram operacionalizadas e se as associações observadas se mantêm em outras tarefas e populações.

Também é importante notar que vários estudos não investigam diretamente desempenho acadêmico, embora sejam relevantes para compreender a experiência escolar de alunos com deficiência. Clima, saúde mental, atitudes e recebimento de serviços podem influenciar o percurso escolar, mas não são sinônimos de aprendizagem ou nota. Faz sentido ler os estudos completos quando uma escola ou equipe pretende basear uma política, protocolo de encaminhamento ou intervenção em um achado específico, ou quando precisa avaliar como a pesquisa mediu a população e o resultado.

Como o GeraProva pode ajudar com este assunto?

Uma avaliação bem planejada pode ajudar o professor a observar o que cada estudante sabe e quais aspectos do formato da atividade interferem na resposta. O gerador de provas do GeraProva pode apoiar a criação de questões e atividades para diferentes objetivos pedagógicos; a ferramenta não substitui a avaliação profissional, a adaptação necessária nem o julgamento docente. Para conhecer a plataforma, há também o cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre gênero e deficiência na escola

As pesquisas provam que meninos com deficiência têm desempenho pior?

Não. Os estudos reunidos não sustentam essa regra. Na pesquisa italiana, crianças com transtornos específicos de aprendizagem tiveram desempenho inferior ao grupo com desenvolvimento típico na tarefa de cópia, mas o sexo predisse a precisão apenas no grupo com desenvolvimento típico. Em Baltimore, meninos apareceram associados a determinados padrões de recebimento de serviços, o que não é a mesma coisa que desempenho acadêmico. Cada resultado depende da população, da medida e da pergunta investigada; não deve ser convertido em uma expectativa sobre um aluno individual.

O gênero foi um preditor de escrita entre estudantes com transtorno específico de aprendizagem?

No estudo italiano, o resumo não relata o sexo como preditor da precisão da cópia entre as crianças com transtorno específico de aprendizagem. Para esse grupo, a precisão foi predita pela ortografia; a velocidade, pela velocidade de escrita manual e pela ortografia. O sexo predisse a precisão da cópia no grupo com desenvolvimento típico. Essa diferença entre grupos é uma razão para não aplicar um resultado observado em uma população a outra sem verificar a evidência.

Se um estudo inclui gênero, isso quer dizer que encontrou uma diferença?

Não necessariamente. Uma variável pode ser incluída para controle ou análise sem que o resumo relate um efeito relevante dela. No estudo filipino sobre gentileza, estigma e aceitação, idade e gênero foram controlados, mas os resultados destacados tratam da relação entre gentileza, estigma e aceitação. Por isso, é importante distinguir “o gênero foi considerado” de “o gênero predisse o resultado”. Essa leitura cuidadosa evita atribuir à pesquisa uma conclusão que ela não apresenta.

Os resultados de outros países valem para escolas brasileiras?

Podem ajudar a formular perguntas, mas não devem ser tratados como conclusões automaticamente válidas para o Brasil. Os estudos vieram de diferentes países e sistemas educacionais, com populações e práticas de apoio próprias. Por exemplo, o estudo de Baltimore descreve serviços ligados a mecanismos específicos dos Estados Unidos. Uma escola brasileira pode usar a pesquisa como ponto de partida para examinar suas avaliações e formas de apoio, mas precisa considerar as condições locais e o percurso de cada estudante.

O que um professor pode fazer sem transformar gênero em rótulo?

Uma possibilidade é observar evidências específicas: quais tarefas o estudante realiza, que habilidade está sendo avaliada, quais barreiras aparecem e que apoios ajudam a demonstrar o que sabe. Também é possível revisar se as oportunidades de participação e os processos de encaminhamento são coerentes para estudantes com necessidades semelhantes. Essas são aplicações pedagógicas, não resultados de uma intervenção única descrita por todos os estudos. O ponto é usar dados individuais para orientar decisões, em vez de presumir capacidades a partir do gênero.

Os estudos mostram que inclusão e gentileza aumentam as notas?

Não é isso que os resumos permitem afirmar. O estudo filipino analisou estigma e aceitação, e o estudo taiwanês examinou conscientização escolar e atitudes em relação a estudantes com deficiência intelectual. Eles relatam associações e possíveis benefícios psicossociais, mas não apresentam um resultado de aumento de notas. Essas pesquisas podem apoiar a reflexão sobre convivência e cultura inclusiva, enquanto os efeitos acadêmicos precisam ser avaliados por medidas próprias e pesquisas que investiguem diretamente essa pergunta.

Referências

  1. Re, A. M., De Vita, F., Cornoldi, C., & Schmidt, S. (2023). Habilidades de cópia e capacidades de escrita em crianças com e sem Transtornos Específicos de Aprendizagem (Copy Skills and Writing Abilities in Children with and without Specific Learning Disabilities). Journal of Learning Disabilities. Link.
  2. Cristea, M., & Ghergut, A. (2024). O Papel Moderador dos Fatores do Microssistema na Relação entre Autoconceito e Autodeterminação no Contexto Romeno da Deficiência (The Moderating Role of Microsystem Factors in the Relationship between Self-Concept and Self-Determination in the Romanian Context of Disabilities). International Journal of Developmental Disabilities. Link.
  3. Bettencourt, A. F., Plesko, C. M., Gross, D., & Musci, R. J. (2025). Preditores Precoces de Padrões de Recebimento de Serviços de Apoio à Deficiência no Ensino Fundamental (Early Predictors of Patterns of Disability Support Service Receipt in Elementary School). School Mental Health. Link.
  4. Donaldson, C., Hawkins, J., Rice, F., & Moore, G. (2025). Trajetórias de saúde mental na transição do Ensino Fundamental I para o Ensino Fundamental II (Trajectories of Mental Health across the Primary to Secondary School Transition). JCPP Advances. Link.
  5. Mack, M. D., King, S., & May, D. C. (2025). A violência escolar vai além da violência física: a associação entre identidades interseccionais e percepções sobre o clima escolar (School Violence Is More than Physical: The Association between Intersecting Identities and Perceptions of School Climate). Youth & Society. Link.
  6. Pan, C.-C., Bittner, M., & Chou, C.-C. (2025). Desenvolvimento de uma cultura inclusiva por meio dos Programas Escolas Campeãs Unificadas: estudo-piloto sobre a conscientização escolar e as atitudes de estudantes sem deficiência intelectual em relação a estudantes com deficiência intelectual em Taiwan (Developing an Inclusive Culture through Unified Champion Schools Programs: A Pilot Study on School Awareness and Attitudes toward Students with Intellectual Disabilities among General Students in Taiwan). International Journal of Developmental Disabilities. Link.
  7. Datu, J. A. D., & Chan, R. C. H. (2025). A gentileza pode combater o estigma em relação a estudantes com necessidades educacionais especiais? Evidências transversais e longitudinais no contexto filipino (Can Kindness Thwart Stigma toward People with Special Educational Needs? Cross-Sectional and Longitudinal Evidence in the Philippine Context). Focus on Autism and Other Developmental Disabilities. Link.

Se este tema faz parte das suas decisões de avaliação ou inclusão, vale levar uma pergunta concreta para a próxima conversa pedagógica: o que, exatamente, nossa atividade está medindo? Boa reflexão e bom trabalho com sua turma.

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