Acesso ao ensino superior: abrir a porta não basta para garantir equidade
Uma candidatura simplificada ou mais vagas em disciplinas avançadas não garantem, por si só, maior acesso ao ensino superior. Estudos recentes mostram por que informação, apoio e oportunidades reais também importam.
Uma política pode abrir mais vagas, oferecer uma candidatura única ou criar novas disciplinas avançadas — e, ainda assim, não aumentar as matrículas nem reduzir as desigualdades. Ao mesmo tempo, estudos sobre orientação mostram que estudantes de famílias sem formação universitária usam recursos de apoio tanto quanto ou mais que seus colegas, embora isso não necessariamente mude suas expectativas. Esses resultados parecem apontar em direções opostas.
A diferença está no que cada pesquisa chama de acesso e no caminho que observa: procurar informação, sentir-se capaz de concorrer, preparar uma candidatura, ser admitido e conseguir se matricular são etapas distintas. A seguir, vamos separar esses achados e pensar no que eles podem significar para quem acompanha estudantes na educação básica.
O que é acesso e igualdade de oportunidades no ensino superior e por que importa para o professor?
Acesso ao ensino superior é mais do que a existência de uma vaga ou de uma regra de admissão. Na prática, envolve poder imaginar esse futuro, conhecer os caminhos possíveis, ter condições de se preparar e conseguir avançar pelas etapas até a matrícula. Igualdade de oportunidades significa que essas possibilidades não dependam apenas da renda, da escolaridade da família, do lugar onde o estudante vive ou das oportunidades que encontrou antes.
Esse assunto aparece na rotina escolar antes mesmo da escolha de uma instituição. Surge quando a turma conversa sobre profissões, quando um estudante pergunta se a universidade é “para gente como ele”, quando a família precisa entender uma candidatura ou quando colegas têm acesso desigual a atividades de preparação. O professor não controla todas essas condições, mas pode observar como as oportunidades circulam e quais estudantes ficam fora das conversas e experiências que ajudam a construir planos futuros.
Uma distinção ajuda a manter os pés no chão: acesso formal não é o mesmo que participação efetiva, e participação não garante, sozinha, um resultado melhor. Os estudos a seguir investigam etapas e contextos diferentes. Por isso, seus resultados não devem ser tratados como uma receita única nem transferidos automaticamente para a realidade brasileira.
O que a pesquisa recente mostra sobre acesso ao ensino superior?
Ampliar a oferta não garante que todos consigam aproveitá-la
Uma política pode criar uma oportunidade sem garantir que estudantes de diferentes grupos consigam utilizá-la. Ao estudar disciplinas do Advanced Placement (AP), oferecidas em escolas de ensino médio dos Estados Unidos, Owen encontrou que estudantes de famílias não desfavorecidas economicamente, estudantes brancos e asiáticos e aqueles com melhor desempenho tinham maior probabilidade de aproveitar a oferta adicional. Assim, a expansão podia ampliar disparidades já existentes na escolha das disciplinas. O estudo encontrou poucas evidências de melhora nos resultados no ensino superior associada à maior disponibilidade para a maioria dos grupos, com exceção dos estudantes com maior preparo acadêmico (Owen, 2025).
O ponto relevante não é concluir que oferecer cursos avançados seja inútil. É perceber que a oferta e a capacidade de aproveitá-la não são a mesma coisa. Os autores destacam que ampliar o acesso sem incentivos ou apoio adicional para estudantes em situação de desvantagem dificilmente enfrentará a desigualdade. Para um professor, isso sugere uma pergunta concreta: quem recebe informação, encorajamento e condições para participar quando uma oportunidade aparece?
Outra política que procura reduzir barreiras é a candidatura comum estadual, que permite enviar uma única candidatura a várias instituições. Nos Estados Unidos, Delaney e Odle investigaram seus efeitos sobre matrículas no ensino superior público. Não encontraram efeitos positivos nem negativos sobre matrículas equivalentes em tempo integral, e o formato em papel ou on-line não alterou o resultado. A pesquisa sugere que esse tipo de candidatura pode funcionar melhor como complemento de estratégias mais abrangentes, e não como solução isolada (Delaney, 2025).
Os dois estudos tratam de mecanismos diferentes: um observa a participação em disciplinas escolares e o outro, a simplificação da candidatura. Em ambos, a conclusão útil é cautelosa: remover uma barreira específica pode ser importante, mas não assegura que a desigualdade diminua ou que mais estudantes cheguem à matrícula.
Orientação pode ser utilizada, mas não apagar desigualdades de origem
Na Dinamarca, um estudo com estudantes do ensino médio examinou a utilização de recursos de orientação profissional. Estudantes cujos pais não tinham formação universitária utilizaram os principais recursos disponíveis em grau igual ou maior que os colegas cujos pais tinham formação universitária, mesmo após considerar notas, origem e gênero. Esse resultado impede uma explicação simplista segundo a qual jovens de famílias com menor escolaridade simplesmente não procuram orientação (Schrø, 2026).
Mas o uso dos recursos não pareceu transformar de modo amplo a relação entre origem familiar e expectativas de cursar o ensino superior. As análises adicionais apontaram um efeito moderador limitado. Em outras palavras, oferecer e utilizar orientação pode ser relevante, mas não é possível presumir que isso, por si só, neutralize as diferenças de expectativas ligadas à origem familiar.
O estudo chileno sobre uma política de admissão baseada no ranqueamento escolar apresenta outra tensão. Estudantes de escolas com baixo desempenho tinham expectativas mais elevadas associadas à política, mas níveis mais baixos de motivação acadêmica e menos ações para melhorar sua classificação do que estudantes de contextos mais favorecidos. Além disso, a bonificação de pontuação não esteve associada a taxas maiores de candidatura a universidades entre estudantes de alto desempenho dessas escolas (Catalá, 2026).
O achado não diz que os estudantes de contextos desfavorecidos não tenham aspirações. Mostra justamente que expectativas elevadas podem coexistir com menos ações observáveis para avançar numa política de admissão. Para interpretar essa distância, convém olhar para as condições e os apoios que ajudam a transformar uma possibilidade percebida em passos concretos, sem atribuir tudo à motivação individual.
Oportunidades desiguais podem se acumular antes da candidatura
Uma revisão narrativa sobre avaliação nos Estados Unidos propõe compreender as diferenças de desempenho a partir da oportunidade de aprender em sentido amplo. Bennett relaciona desigualdade estrutural e oportunidades educacionais a restrições que se acumulam ao longo do tempo, afetando desempenho e possibilidades de vida. O foco apresentado é a experiência de afro-americanos no contexto estadunidense; a contribuição para a conversa escolar está em questionar se uma avaliação considera apenas o resultado final ou também as oportunidades que levaram até ele (Bennett, 2025).
Esse enfoque não significa abandonar avaliações ou deixar de observar o que os estudantes aprenderam. Significa evitar que uma diferença de resultado seja interpretada automaticamente como diferença de capacidade, sem considerar o acesso desigual a experiências de aprendizagem. É uma lente para pensar tanto o ensino básico quanto as transições para o ensino superior, não uma fórmula pronta para avaliar cada estudante.
O estudo sobre escolas urbanas de ensino médio acrescenta um alerta sobre a distância entre diversidade visível e inclusão efetiva. Por meio de métodos etnográficos críticos, Coon apresenta o conceito de “miragem da inclusão”: uma escola pode parecer diversa e integrada quando vista de fora, enquanto, para quem aprende e trabalha nela, há segregação profunda. O resumo não acompanha diretamente estudantes até a universidade, mas ajuda a perguntar se a diversidade aparente corresponde a oportunidades compartilhadas dentro da escola (Coon, 2025).
O contexto social e político também define quais futuros parecem possíveis
No Laos, Jeong e Hardy analisaram como diferentes atores implementaram o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 em relação a estudantes de minorias étnicas. A análise identificou uma concentração na dimensão distributiva da justiça, isto é, na oferta de recursos, enquanto reconhecimento e representação ficaram menos contemplados. Os autores relatam que as políticas se concentraram na educação básica e técnica e profissional, enquanto diminuiu o acesso a bolsas universitárias, um caminho possível para sair da pobreza (Jeong, 2025).
O estudo também relaciona abordagens meritocráticas e falta de apoio público para enfrentar a privação cultural e política a dificuldades de mobilidade social e de imaginar futuros educacionais melhores. Esse contexto não é o brasileiro, e suas políticas não podem ser tratadas como se fossem as nossas. Ainda assim, a pesquisa chama atenção para algo que atravessa a conversa sobre acesso: não basta distribuir oportunidades se determinados grupos não são reconhecidos ou não participam da definição de como elas funcionam.
Na Europa, uma revisão dos achados da parceria PERAE sobre jovens refugiados e solicitantes de asilo destaca questões persistentes como escassez de recursos, barreiras linguísticas e necessidade de coordenação entre as partes interessadas. A iniciativa reuniu avaliações em sete países europeus e investigou respostas sistêmicas e pontuais às necessidades educacionais desses jovens. O foco é a integração educacional na Europa, não o acesso universitário brasileiro; a pesquisa é útil para compreender como barreiras de idioma e coordenação podem atravessar trajetórias educacionais (Koehler, 2025).
Quais estudos sobre acesso ao ensino superior podem ser comparados?
Os estudos abaixo observam partes diferentes do percurso e foram realizados em contextos distintos. A tabela ajuda a identificar o que cada um investigou sem transformar resultados de um país em regras universais.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| (Hajar, 2026) | Aulas particulares entre estudantes do último ano do ensino médio e suas implicações para o acesso. | 32,3% recebiam aulas; a frequência foi o preditor mais forte da eficácia percebida. As aulas podem funcionar como estratégia de sobrevivência e reforçar desigualdade. | 889 estudantes de seis escolas rurais de Aleppo, Síria, em contexto afetado por conflitos. |
| (Catalá, 2026) | Expectativas, motivação, ações de classificação e candidaturas sob política chilena de ranqueamento. | Expectativas mais elevadas coexistiram com menor motivação e menos ações; a bonificação não se associou a mais candidaturas. | Ensino médio no Chile; levantamento com 1.831 estudantes e análises de política de admissão. |
| (Schrø, 2026) | Uso de recursos de orientação segundo a escolaridade dos pais. | Estudantes sem pais com formação universitária usaram recursos em grau igual ou maior; efeito sobre expectativas foi limitado. | 8.982 estudantes do ensino médio na Dinamarca. |
| (Owen, 2025) | Oferta de disciplinas Advanced Placement, participação e resultados no ensino superior. | Grupos favorecidos e estudantes com melhor desempenho aproveitaram mais a oferta adicional; poucas evidências de melhora para a maioria. | Dados administrativos de Michigan, Estados Unidos; escolas de ensino médio. |
| (Delaney, 2025) | Políticas estaduais de candidatura comum e matrícula. | Não encontrou efeitos positivos ou negativos sobre matrículas equivalentes em tempo integral no ensino superior público. | Estados Unidos; candidatura em papel ou on-line. |
| (Coon, 2025) | Segregação dentro de uma escola urbana que parecia inclusiva. | Apresenta a ideia de miragem da inclusão: diversidade visível pode coexistir com segregação vivida. | Escola urbana de ensino médio; contexto dos Estados Unidos. |
| (Jeong, 2025) | Implementação do ODS 4 para minorias étnicas. | Políticas concentraram-se na distribuição e limitaram-se sobretudo à educação básica e técnica; diminuíram bolsas universitárias. | Laos; formuladores de políticas, agências doadoras e professores de internato. |
| (Koehler, 2025) | Barreiras e respostas na educação de jovens refugiados e solicitantes de asilo. | Destaca escassez de recursos, barreiras linguísticas e necessidade de coordenação. | Iniciativa com avaliações em sete países europeus. |
| (Bennett, 2025) | Relação entre desigualdade estrutural, oportunidade de aprender e avaliação. | Propõe uma visão cumulativa da oportunidade de aprender para repensar avaliação e diferenças de desempenho. | Revisão narrativa com foco em afro-americanos nos Estados Unidos. |
Quais são os pontos em comum e as divergências entre os estudos?
Um ponto em comum é que uma medida isolada não deve ser confundida com igualdade de oportunidades. A candidatura comum reduz uma etapa administrativa, mas não se associou a mais matrículas; uma oferta maior de disciplinas avançadas não foi aproveitada igualmente; e o uso de orientação não eliminou diferenças nas expectativas. Em cada caso, abrir uma possibilidade é diferente de garantir que ela seja conhecida, acessível e útil para grupos diversos.
Os estudos também divergem porque observam resultados diferentes. Alguns analisam expectativas e ações, outros a utilização de orientação, a participação em cursos, candidaturas, matrículas ou condições de inclusão. Por isso, um resultado que não mostra aumento de matrícula não invalida necessariamente a utilidade de uma política para outra etapa. Da mesma forma, usar um recurso de orientação não prova que ele tenha alterado as expectativas ou o destino educacional.
Há ainda diferenças de país, população e desenho de pesquisa. O estudo sobre aulas particulares, por exemplo, trata de uma Síria rural afetada por conflitos; as políticas de admissão analisadas são chilenas; os estudos sobre AP e candidatura comum são dos Estados Unidos. O estudo europeu aborda jovens refugiados. O que ainda não fica resolvido é quais combinações de informação, apoio, recursos e mudanças institucionais conseguem transformar oportunidades formais em participação e matrícula equitativas em contextos específicos.
O que professores podem fazer na sala de aula?
Uma aplicação prática dos estudos é tratar planos de futuro como parte da experiência escolar, sem esperar que uma conversa isolada resolva barreiras estruturais. As sugestões abaixo são formas de traduzir as perguntas levantadas pela pesquisa para o cotidiano, não resultados testados diretamente por esses estudos.
1. Tornar visíveis os diferentes caminhos após a educação básica
Como aplicação, um professor pode reservar momentos para que a turma conheça diferentes percursos de formação e as etapas necessárias para explorá-los. Imagine estudantes do 9º ano conversando sobre o que se faz depois da escola: em vez de apresentar uma única rota como padrão, convide a turma a formular perguntas sobre cursos, preparação e formas de buscar informações. Isso pode tornar a conversa mais acessível, sem pressupor que todos já conheçam o vocabulário ou as possibilidades.
2. Verificar quem está recebendo informação e incentivo
Como aplicação, ao divulgar uma atividade acadêmica, uma oportunidade de aprofundamento ou uma conversa sobre profissões, o professor pode observar quem demonstra interesse, quem recebe o convite e quem precisa de uma explicação adicional. Imagine uma turma em que alguns estudantes sempre se inscrevem em desafios e outros nem sabem que podem participar. Em vez de atribuir a diferença apenas à vontade, vale conferir como a oportunidade foi apresentada e se todos tiveram condições de entendê-la.
3. Separar desempenho atual de potencial e oportunidade de aprender
Como aplicação, ao analisar avaliações, o professor pode perguntar o que os resultados mostram sobre a aprendizagem e que experiências anteriores podem ter influenciado o percurso. Imagine dois estudantes com respostas semelhantes em uma atividade, mas com oportunidades muito diferentes de praticar o conteúdo. Isso não determina uma nota específica nem dispensa critérios claros; apenas evita tratar o resultado isolado como explicação completa da trajetória.
4. Acompanhar os passos entre uma aspiração e uma candidatura
Como aplicação, quando estudantes falarem de planos de formação, ajude a decompor uma meta em perguntas menores: que informação falta, que apoio é necessário e qual seria o próximo passo possível? O estudo chileno mostra que expectativas elevadas podem coexistir com menos ações para melhorar uma classificação. Imagine uma estudante que diz querer fazer um curso, mas não sabe por onde começar. Em vez de concluir que falta motivação, a turma pode construir uma lista de dúvidas para buscar respostas em fontes adequadas.
5. Oferecer apoio junto com oportunidades mais exigentes
Como aplicação, ao propor uma atividade avançada, planeje também formas de entrada para estudantes que ainda não tiveram experiências semelhantes. Uma turma pode receber um desafio de pesquisa, por exemplo, acompanhado de orientações em etapas, exemplos de estratégias e momentos para tirar dúvidas. Essa prática não reproduz nem comprova os efeitos do programa AP; ela responde à questão levantada pelo estudo: uma oferta mais ampla não garante participação equitativa se o apoio não acompanha a oportunidade.
6. Investigar barreiras práticas sem presumir desinteresse
Como aplicação, uma conversa de acompanhamento pode perguntar se o obstáculo está em compreender informações, organizar etapas, encontrar apoio ou lidar com uma barreira de idioma. Imagine um estudante que não participa de uma atividade de orientação: uma pergunta aberta pode revelar uma dificuldade que não aparece no desempenho escolar. O estudo europeu sobre jovens refugiados destaca barreiras linguísticas, recursos escassos e coordenação como questões relevantes naquele contexto. No Brasil, a conversa deve partir da realidade local e não presumir que as mesmas barreiras estejam presentes.
7. Rever se a inclusão é vivida no cotidiano
Como aplicação, professores podem observar quem participa das atividades, quem tem voz nas discussões e como oportunidades de aprofundamento são distribuídas. Imagine uma escola com diversidade entre estudantes, mas em que sempre os mesmos grupos acessam projetos ou recebem indicações. A pergunta inspirada no estudo sobre a miragem da inclusão não é apenas quem está matriculado, mas se a experiência escolar oferece participação e oportunidades compartilhadas.
O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?
Os estudos apresentados não investigam diretamente políticas brasileiras de ingresso no ensino superior. As regras de admissão do Chile, o programa AP e as candidaturas comuns dos Estados Unidos, as políticas do Laos e as respostas europeias a estudantes refugiados não podem ser tratadas como equivalentes às do Brasil. O valor da comparação está em formular perguntas, não em importar conclusões ou programas sem adaptação.
Para a escola brasileira, uma tradução cuidadosa começa por observar as etapas do percurso: os estudantes conhecem as opções? Conseguem acessar orientação? Sabem onde encontrar informações sobre processos seletivos? Recebem apoio para transformar uma intenção em ações? Essas perguntas não afirmam que as barreiras sejam iguais às descritas nos estudos. Ajudam a mapear a realidade da própria comunidade, considerando diferenças entre regiões, redes, escolas e trajetórias familiares.
Também é importante não transformar desigualdade de oportunidade em déficit individual. Os estudos mostram que expectativas, uso de orientação, participação e resultados não se movem necessariamente juntos. Por isso, se um estudante não se candidata ou não participa de uma atividade, a explicação não deve ser automaticamente falta de interesse. Pode haver mais de uma etapa em que informação, apoio ou condições concretas influenciem o percurso — e a escola pode investigar antes de concluir.
Por fim, o professor tem um papel importante, mas não substitui políticas e recursos institucionais. As pesquisas sobre acesso apontam limites de medidas isoladas. Na prática brasileira, isso significa articular ações escolares com as informações e os serviços disponíveis na própria rede e na comunidade, sem prometer que uma atividade de sala de aula resolva, sozinha, questões de renda, seleção ou oferta de vagas.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis na base ERIC, e não na leitura integral de cada pesquisa. Os resumos oferecem informações sobre o foco e os resultados relatados, mas não permitem examinar em profundidade todos os procedimentos, definições e detalhes que poderiam alterar a interpretação. Além disso, os estudos se referem a países, grupos e etapas distintos; seus achados não representam automaticamente todas as escolas nem o contexto brasileiro.
Ficam em aberto perguntas importantes: que apoios combinados ajudam a transformar uma oportunidade formal em participação e matrícula? Como experiências de orientação se relacionam com decisões ao longo do tempo? Quais barreiras pesam mais em cada território e como os próprios estudantes as descrevem? Para planejar uma política, interpretar um resultado local ou aprofundar uma discussão acadêmica, faz sentido consultar os estudos completos, suas referências e pesquisas sobre o contexto brasileiro específico.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
Uma forma de trabalhar o tema é propor atividades de leitura, debate e avaliação sobre trajetórias educacionais, políticas de acesso e interpretação de evidências, ajustadas à etapa da turma. O gerador de provas do GeraProva pode ajudar a criar questões e atividades para essa discussão; o cadastro grátis permite conhecer a plataforma. A ferramenta não substitui orientação especializada nem resolve barreiras de acesso, mas pode apoiar o planejamento pedagógico.
Perguntas frequentes sobre acesso ao ensino superior
Ter mais vagas ou disciplinas disponíveis garante mais igualdade?
Não necessariamente. No estudo sobre disciplinas Advanced Placement nos Estados Unidos, estudantes de grupos favorecidos e aqueles com melhor desempenho tinham maior probabilidade de aproveitar a oferta adicional. Os autores encontraram poucas evidências de melhora nos resultados no ensino superior para a maioria dos grupos. Já o estudo sobre candidaturas comuns estaduais não encontrou mudanças positivas nem negativas nas matrículas equivalentes em tempo integral no ensino superior público. Os resultados não provam que ampliar oferta seja inútil; mostram que disponibilidade, participação e matrícula são etapas diferentes e que medidas isoladas podem não bastar.
Orientação profissional ajuda estudantes de famílias sem formação universitária?
O estudo dinamarquês encontrou que estudantes cujos pais não tinham formação universitária usaram recursos de orientação em grau igual ou maior que colegas cujos pais tinham formação universitária. Ainda assim, análises adicionais sugeriram que o efeito desses recursos sobre a relação entre origem familiar e expectativas de cursar o ensino superior era limitado. Portanto, a pesquisa não permite dizer que orientação elimina desigualdades. Para professores, ela reforça a importância de oferecer informação acessível e também observar se há outros fatores que dificultam transformar o uso de um recurso em planos e ações.
Por que estudantes com expectativas elevadas podem não avançar na candidatura?
O estudo chileno encontrou expectativas mais elevadas associadas à política de ranqueamento entre estudantes de escolas com baixo desempenho, mas níveis mais baixos de motivação acadêmica e menos ações para melhorar sua classificação em comparação com pares de contextos mais favorecidos. A bonificação não se associou a mais candidaturas entre estudantes de alto desempenho dessas escolas. Isso mostra que expectativa e ação não são a mesma coisa. Para interpretar uma trajetória, é útil perguntar que informação, condições e apoio existem entre desejar uma oportunidade e conseguir se candidatar.
O que significa oportunidade de aprender quando avaliamos estudantes?
Na revisão narrativa de Bennett, oportunidade de aprender é considerada de modo amplo e relacionada à desigualdade estrutural. A proposta é compreender que diferenças nas experiências educacionais podem se acumular e influenciar desempenho e oportunidades de vida. Isso não significa deixar de avaliar o que foi aprendido, mas evitar tratar um resultado como medida isolada de capacidade sem considerar o percurso. O texto se concentra em afro-americanos nos Estados Unidos; no Brasil, essa perspectiva pode servir como pergunta para reflexão, mas precisa ser contextualizada e não tomada como evidência direta sobre estudantes brasileiros.
Os estudos de outros países podem orientar professores brasileiros?
Podem ajudar a levantar perguntas, mas não devem ser usados como se descrevessem automaticamente a realidade brasileira. As pesquisas abordam, entre outros contextos, o sistema chileno de admissão, políticas estadunidenses, estudantes refugiados na Europa e minorias étnicas no Laos. Regras, recursos e condições variam. Um uso cuidadoso é observar os mecanismos discutidos — como informação, participação, apoio e barreiras — e investigar como aparecem na comunidade escolar local. Para tomar decisões sobre uma política ou programa no Brasil, é necessário buscar também evidências e orientações específicas do contexto brasileiro.
Como trabalhar o tema sem responsabilizar o estudante pelas barreiras?
Uma alternativa é investigar as condições que cercam uma escolha antes de atribuí-la à falta de interesse ou motivação. Os estudos mostram que expectativas podem coexistir com menos ações, e que oportunidades disponíveis podem ser aproveitadas de forma desigual. Em sala, o professor pode perguntar se a informação estava acessível, se as etapas foram compreendidas e que apoio seria necessário. Essa postura não presume uma causa única nem promete resolver problemas estruturais; ajuda a evitar conclusões apressadas sobre estudantes e a identificar o que a escola consegue apoiar.
Referências
- Hajar, Anas; Karakus, Mehmet (2026). Navegando pela educação paralela para ampliar o acesso ao ensino superior na Síria afetada por conflitos: vozes de estudantes do ensino médio de áreas rurais (Navigating Shadow Education for Higher Education Access in Conflict-Affected Syria: Voices of Rural Secondary Students). Cambridge Journal of Education. Link.
- Catalán, Ximena; Santelices, Maria Veronica; Horn, Catherine (2026). Equidade e acesso ao ensino superior no Chile: resultados da política de admissão por ranqueamento no ensino médio sob a perspectiva de sua teoria do programa (Equity and Higher Education Access in Chile: The High School Ranking Admission Policy Results from the Perspective of Its Program Theory). Higher Education Policy. Link.
- Schrøder Olsen, Astrid (2026). O papel da escolaridade dos pais na utilização de recursos de orientação profissional por estudantes do ensino médio (The Role of Parents' Educational Background in Upper Secondary Students' Utilization of Career Guidance Resources). British Journal of Sociology of Education. Link.
- Owen, Stephanie (2025). O Programa Advanced Placement e a desigualdade educacional (The Advanced Placement Program and Educational Inequality). Education Finance and Policy. Link.
- Delaney, Jennifer A.; Odle, Taylor K. (2025). Políticas estaduais de candidatura comum e matrícula no ensino superior (State-Level Common Application Policies and College Enrollment). Education Finance and Policy. Link.
- Coon, Shawn R. (2025). A miragem da inclusão: por dentro da segregação de uma escola urbana de ensino médio (The Inclusion Mirage: Inside the Segregation of an Urban High School). Urban Education. Link.
- Jeong, Daeul; Hardy, Ian (2025). Imaginando futuros educacionais? A implementação do ODS 4 para minorias étnicas no Laos (Imagining Educational Futures? SDG4 Enactment for Ethnic Minorities in Laos). Compare: A Journal of Comparative and International Education. Link.
- Koehler, Claudia (2025). Revisitando os achados sobre a educação de refugiados da Parceria Multipaís para Aprimorar a Educação de Jovens Refugiados e Solicitantes de Asilo na Europa — PERAE (Revisiting Refugee Education Findings of the Multi-Country Partnership to Enhance the Education of Refugee and Asylum-Seeking Youth in Europe -- PERAE). Intercultural Education. Link.
- Bennett, Randy E. (2025). Repensando a equidade e a avaliação por meio da oportunidade de aprender (Rethinking Equity and Assessment through Opportunity to Learn). Assessment in Education: Principles, Policy & Practice. Link.
Se esse tema aparece nas conversas com seus estudantes, escolha uma pergunta para levar à próxima aula e continue a investigação junto com a turma.
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